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IA amplia riscos em momento de escalada das indenizações dos seguros cibernéticos

Fonte: ipnews.com.br | Data: 12/08/2026 09:01:56

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O que você vai ver nesse artigo:

O avanço da inteligência artificial nas empresas está criando uma nova frente de pressão sobre a segurança da informação e, consequentemente, sobre o mercado de seguros cibernéticos. Enquanto a adoção de plataformas de IA e agentes amplia o acesso automatizado a dados e sistemas corporativos, as indenizações pagas pelas seguradoras brasileiras dispararam 253,1% entre janeiro e abril de 2026, segundo dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). No mesmo período, a arrecadação do segmento cresceu 71,1%.

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O movimento ocorre em um cenário no qual as violações relacionadas ao uso corporativo de IA também avançam rapidamente. Segundo o Netskope AI Report: 2026, as violações de políticas de dados downstream – quando uma aplicação de IA retorna informações a um usuário ou agente sem autorização para acessá-las – mais que dobraram no período de um ano, passando de uma média de 12 para 31 ocorrências por organização por semana.

Entre as empresas que apresentam maior incidência, o salto foi ainda mais expressivo: a média passou de 72 para 206 violações semanais, crescimento de quase três vezes.

A relação entre os dois movimentos não significa que as violações de IA sejam responsáveis, isoladamente, pelo aumento das indenizações de seguros. Os dados, porém, apontam para uma mesma tendência: a ampliação da superfície de risco digital está ocorrendo em paralelo ao aumento da utilização do seguro como mecanismo de transferência de risco.

IA amplia superfície de exposição

O avanço dos agentes autônomos ajuda a explicar parte dessa mudança. O Model Context Protocol (MCP), padrão aberto que permite a modelos e agentes de IA se conectarem a fontes externas de dados e ferramentas, vem ganhando espaço rapidamente.

Globalmente, em dez semanas, o número de usuários acessando servidores MCP remotos aumentou 250%, enquanto as transações realizadas por meio do protocolo cresceram 375%. Quanto mais os agentes conseguem consultar sistemas, bases de dados e ferramentas corporativas, maior também é o potencial de exposição de informações para usuários ou agentes sem autorização.

No Brasil, a adoção corporativa de IA acompanha de perto a média global. De acordo com o levantamento da Netskope, 88% das organizações brasileiras já utilizam plataformas de IA e 79% adotam agentes para desenvolvimento de código. O país, entretanto, ainda está em estágio menos avançado na adoção de IA agêntica.

O uso do MCP também cresce no mercado brasileiro. Nas últimas dez semanas analisadas pela pesquisa, o número de usuários aumentou 233%, enquanto o volume de transações avançou 226%. A evolução semelhante dos dois indicadores sugere que o uso do protocolo no país ainda é predominantemente humano, diferentemente do cenário global, em que as transações avançam mais rapidamente do que a quantidade de usuários, sinalizando maior participação de agentes autônomos.

“O Brasil está avançando rapidamente na adoção da IA corporativa e começa a entrar em uma nova fase, em que agentes de IA começam a ser incorporados às rotinas de negócio e a se conectar cada vez mais a dados e sistemas internos”, afirma Claudio Bannwart, country manager Brasil da Netskope.

Segundo ele, esse movimento exige uma mudança na estratégia de proteção das empresas. “Já não basta monitorar apenas os dados enviados às aplicações de IA. É preciso garantir que as respostas geradas por esses sistemas respeitem as políticas de acesso e não exponham informações sensíveis a usuários ou agentes sem autorização.”

Risco crescente chega ao seguro

A expansão da exposição digital ocorre em um mercado de seguros que também cresce rapidamente. Os números da CNseg mostram que, nos primeiros quatro meses de 2026, as indenizações do seguro cibernético avançaram 253,1% na comparação anual, enquanto a arrecadação cresceu 71,1%.

Na prática, o volume de indenizações aumentou em ritmo mais de 3,5 vezes superior ao crescimento das receitas do segmento. O movimento reforça a percepção de que a contratação de apólices está ocorrendo em um ambiente de riscos cada vez mais complexos e frequentes.

Para Nycholas Szucko, líder do Laboratório de Cibersegurança do Markets Innovation & Technology Institute (MiTi), o cenário está relacionado à baixa maturidade de parte das organizações brasileiras. A Pesquisa Setorial 2025 em Cibersegurança, Governança de Dados e Inteligência Artificial, citada pelo especialista, apontou maturidade digital média de 5 pontos em uma escala de zero a dez. Além disso, 42% das empresas ainda não possuíam um plano estruturado de resposta a incidentes cibernéticos.

“Esses números mostram que muitas empresas ainda operam com baixa capacidade de prevenção e resposta”, afirma Szucko. Segundo ele, parte dos executivos ainda não possui conhecimento técnico suficiente para compreender, medir e priorizar investimentos em segurança digital.

O especialista defende que as organizações abandonem uma visão fragmentada dos riscos. Cibersegurança, governança de dados, inteligência artificial, privacidade, compliance e riscos de terceiros precisam ser tratados de maneira integrada, já que uma falha em uma dessas áreas pode afetar as demais.

Seguro não substitui maturidade

A mesma avaliação é feita por Rafael Sasso, CEO e cofundador da Verta, plataforma de governança de riscos tecnológicos. Para ele, a evolução do mercado exige uma abordagem integrada de riscos digitais, que considere conjuntamente segurança cibernética, IA, governança de dados, privacidade e terceiros.

“Aquilo que tradicionalmente chamamos de cibersegurança precisa evoluir para uma abordagem de gestão integrada de riscos digitais”, afirma.

Nesse contexto, o seguro cibernético funciona como uma camada de proteção financeira, mas não substitui controles preventivos, governança ou capacidade de resposta a incidentes. A crescente frequência das violações relacionadas à IA reforça justamente essa necessidade.

“A partir desse diagnóstico, a empresa consegue entender objetivamente seu grau de exposição, definir prioridades de investimento e até mesmo avaliar sua elegibilidade para contratação de seguro cibernético”, diz Sasso.

Segundo ele, a avaliação de maturidade também pode indicar quais medidas precisam ser implementadas para reduzir a exposição e fortalecer a proteção financeira. “Não investir em maturidade e só fazer o seguro é contar com a sorte. É como fazer um seguro de carro e sair para dirigir cego”, conclui.

Mais IA, mais dados e mais pontos de risco

O relatório da Netskope mostra que o problema não está restrito aos agentes. O volume médio de prompts de IA triplicou em um ano, passando de 1.498 para 4.731 prompts por organização por semana. Entre as empresas com maior utilização, a média chega a pelo menos 19.292 prompts semanais.

A adoção de aplicações de IA para desenvolvimento de código também dobrou, passando de 42% para 84% das organizações. Ao mesmo tempo, 41% das empresas utilizam o Ollama para executar modelos localmente, movimento que indica uma busca maior por controle sobre o processamento dos dados.

Outro ponto de atenção é a chamada Shadow AI. Cerca de 30% dos usuários corporativos de IA utilizam exclusivamente aplicações pessoais, enquanto 14% combinam ferramentas pessoais e soluções gerenciadas pelas empresas. Depois de uma redução ao longo do período de adoção das plataformas corporativas, o uso de ferramentas pessoais se estabilizou e começou a apresentar leve reversão a partir de março de 2026.

As violações upstream, nas quais usuários ou agentes enviam informações sensíveis para aplicações de IA, continuam sendo as mais frequentes, com 8.752 alertas a cada 10 mil ocorrências relacionadas à IA. Dados regulados e código-fonte representam, cada um, 35% dessas violações, seguidos por propriedade intelectual, com 20%, e senhas e chaves, com 10%.

Embora apareçam em menor volume, ataques como prompt injection, jailbreaking e código malicioso adicionam riscos diferentes, especialmente quando agentes autônomos conseguem executar comandos ou incorporar código a sistemas corporativos.

O cenário coloca empresas e seguradoras diante de um desafio comum: à medida que a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de produtividade e passa a interagir diretamente com dados, aplicações e processos de negócio, a gestão do risco também precisa evoluir. O crescimento das violações e das indenizações indica que a discussão já não é apenas sobre contratar ou não um seguro cibernético, mas sobre quanto custa operar sem uma estratégia integrada de prevenção, governança e transferência de risco.

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