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Belém ensina aos Estados Unidos como frear a dengue

Fonte: diariodopara.com.br | Data: 15/08/2026 16:07:00

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Belém e Pará É da Amazônia brasileira que vem uma lição de saúde pública para os Estados Unidos. Depois de enfrentar um forte surto de dengue em 2024, Belém conseguiu reduzir em 70,4% os casos da doença e passou a ser apresentada internacionalmente como exemplo de reação ao avanço do Aedes aegypti. A experiência da capital paraense foi destaque em reportagem publicada pelo jornal norte-americano The New York Times, que apontou a mobilização do município como um caminho capaz de inspirar cidades americanas diante do aumento do risco de transmissão da dengue.

Com o título “Uma cidade se mobiliza contra uma ameaça persistente à saúde: os mosquitos”, a reportagem mostra como Belém respondeu ao surto combinando vigilância epidemiológica, atuação dos agentes de saúde, novas tecnologias e participação dos moradores. O jornal observa que a mobilização reduziu os registros da doença e pode oferecer lições às cidades dos Estados Unidos. A reportagem do The New York Times foi publicada em 13 de agosto.

Os números ajudam a explicar por que os americanos voltaram os olhos para o Norte do Brasil. Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), divulgados pela Prefeitura de Belém, os casos de dengue caíram de 2.997, em 2024, para 886, em 2025. As ocorrências com sinais de alarme recuaram 74,8%, de 230 para 58, enquanto os casos graves diminuíram de 20 para seis.

Um dos principais instrumentos empregados nessa ofensiva são as Estações Disseminadoras de Larvicidas, conhecidas como EDLs. Mais de 5 mil unidades já foram instaladas em bairros considerados prioritários, e a meta é chegar a 8 mil até o fim deste ano. Entre as áreas atendidas pelas estações estão Guamá, Montese, Souza, Marco, Sacramenta, Pedreira, Coqueiro, Canudos, Curió-Utinga e São Brás. Os resultados foram divulgados pela Agência Belém.

O mosquito contra o próprio mosquito

Desenvolvidas pela Fiocruz Amazônia, as estações usam o comportamento do próprio Aedes aegypti para alcançar criadouros que dificilmente seriam localizados durante as visitas domiciliares.

Ao pousar na estação, a fêmea entra em contato com partículas de piriproxifeno, um larvicida regulador do crescimento dos insetos. Depois, carrega pequenas quantidades do produto para outros recipientes com água, onde costuma depositar os ovos. O larvicida impede que as formas imaturas do mosquito completem seu desenvolvimento e cheguem à fase adulta.

Em vez de pulverizar grandes áreas indiscriminadamente, a estratégia leva pequenas doses do produto diretamente aos criadouros. De acordo com o Ministério da Saúde, o piriproxifeno atua em concentrações muito baixas e apresenta toxicidade reduzida para seres humanos e animais domésticos. Uma única fêmea pode transportar as partículas para depósitos situados em um raio estimado entre 300 e 400 metros. O funcionamento está detalhado em nota técnica do Ministério da Saúde.

A tecnologia, porém, não trabalha sozinha. Os agentes de combate às endemias visitam mensalmente os imóveis para verificar a água e substituir a tela impregnada com o larvicida. Aos moradores cabe acompanhar a estação e, principalmente, continuar eliminando recipientes que possam acumular água.

Está justamente aí uma das principais lições destacadas pela experiência de Belém: combater a dengue exige continuidade. Não basta recorrer ao fumacê durante uma epidemia e recolher as equipes quando os casos diminuem. É preciso manter a vigilância permanente, presença nos bairros e diálogo com a população, reforçando a máxima de que a prevenção vale mais do que correr atrás do prejuízo.

Wolbachia amplia arsenal brasileiro

A experiência de Belém com as estações disseminadoras integra um movimento mais amplo de modernização do combate às arboviroses no Brasil. Outra frente, implantada em diferentes cidades, é o método Wolbachia, conduzido pela Fiocruz em parceria com o World Mosquito Program.

É importante distinguir as duas tecnologias. A redução registrada em Belém está associada a um conjunto de ações municipais que inclui as estações com larvicida. Já o método Wolbachia utiliza mosquitos criados em laboratório e portadores de uma bactéria natural que reduz a capacidade do Aedes aegypti de transmitir dengue, zika e chikungunya.

As primeiras liberações desses mosquitos no Brasil ocorreram em 2014, no Rio de Janeiro. Atualmente, a tecnologia protege mais de 5 milhões de pessoas em oito cidades. Em Niterói, estudos apontaram redução de cerca de 70% nos casos de dengue nas áreas contempladas.

O Brasil também colocou em funcionamento, em Curitiba, a maior biofábrica de mosquitos com Wolbachia do mundo, com capacidade para produzir 100 milhões de ovos por semana. A previsão é ampliar a proteção para mais de 140 milhões de brasileiros em cerca de 40 municípios. Os dados são do World Mosquito Program.

Diferentemente dos inseticidas convencionais, que precisam ser reaplicados, a Wolbachia é transmitida pelas fêmeas aos descendentes. Depois de estabelecida na população local de mosquitos, tende a permanecer no ambiente, tornando o método autossustentável.

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A atenção americana à experiência brasileira não é casual. A elevação das temperaturas, as mudanças nos regimes de chuva e a expansão das áreas ocupadas pelo Aedes aegypti aumentam o risco de transmissão em regiões antes consideradas pouco vulneráveis. Os estados da Flórida e do Texas lideram os registros de transmissões domésticas, porém o  Centers for Disease Control and Prevention (CDC) – principal agência federal de saúde pública dos Estados Unidos, já detectou o espalhamento do vírus e do vetor por estados como Virgínia, Nova York, Califórnia e Arizona. O volume de infecções nos EUA saltou mais de 350% em comparação com a média histórica recente, ultrapassando a barreira de 1.400 casos notificados em território continental.

Embora a imensa maioria dos casos na parte continental resulte em recuperação após dores intensas nas articulações — o que conferiu à dengue o apelido de “febre quebra-ossos” —, territórios e ilhas americanas associadas, como Porto Rico, enfrentam surtos severos de nível epidêmico, operando com registros históricos de mortes pela forma grave da doença.

O grande gargalo americano reside na estratégia da dependência quase exclusiva de pulverizações químicas aéreas de emergência. Conforme destaca o painel internacional de especialistas do The New York Times, o controle eficaz exige mais do que derramar veneno nas cidades; requer a estruturação de divisões sanitárias locais robustas, treinamento rápido do corpo médico para identificar sintomas tropicais e a adoção de tecnologias de manejo biológico, exatamente como Belém e a ciência brasileira pavimentaram nos últimos anos.

Em 2024, os 50 estados americanos e o Distrito de Columbia registraram 3.798 casos de dengue, número 359% superior à média anual observada entre 2010 e 2023. Embora 97,2% das infecções estivessem associadas a viagens, houve 105 casos adquiridos localmente, principalmente na Flórida, na Califórnia e no Texas. Em 2026, o painel do CDC contabilizava 1.471 registros até 12 de agosto, ainda sujeitos a revisão.

O próprio CDC reconhece que os mosquitos capazes de transmitir a doença estão presentes em numerosas áreas do território americano. O órgão também alerta que o aumento das temperaturas pode ampliar a distribuição dos vetores, favorecer sua sobrevivência e alterar os ciclos de reprodução e alimentação. Os dados constam de relatório epidemiológico do CDC.

O desafio dos Estados Unidos, portanto, vai além de controlar casos importados. É necessário preparar médicos para reconhecer rapidamente os sintomas, reforçar a vigilância epidemiológica, identificar possíveis transmissões locais e substituir respostas emergenciais por programas permanentes de controle do mosquito.

É nesse ponto que Belém tem algo concreto a ensinar. A capital paraense mostrou que inovação não significa abandonar o trabalho tradicional de saúde pública, mas fortalecê-lo: agentes nos bairros, acompanhamento contínuo, planejamento orientado por dados e participação dos moradores.

Em um mundo acostumado a imaginar que as soluções sempre descem do Norte para o Sul, a dengue inverteu a rota. Desta vez, é Belém que aponta o caminho — e os americanos que tomam nota.