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O custo geoeconômico do alinhamento brasileiro com a China

Fonte: revistaoeste.com | Data: 15/08/2026 19:17:51

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• Na última quinta-feira, 13, a Casa Branca divulgou o relatório “O Grande Transbordo da Fraude”;
• O material classifica o Brasil no nível 2 da rede paralela de negócios, ao lado de países como Vietnã e Turquia, devido ao desvio de tarifas chinesas; e
• O documento reflete a rivalidade entre Estados Unidos e China, impactando as cadeias produtivas brasileiras, com tarifas norte-americanas afetando exportações de US$ 7 bilhões a US$ 12,5 bilhões.

Na última quinta-feira, 13, a Casa Branca publicou o relatório “O Grande Transbordo da Fraude” e colocou o Brasil no nível 2 da rede paralela de negócios, ao lado de Vietnã, Indonésia, Malásia, Tailândia e Turquia. A acusação formal trata do desvio de tarifas chinesas, mas o documento serve também como um sinal do preço que a rivalidade entre Estados Unidos e China vem cobrando das empresas e das cadeias produtivas brasileiras.

O relatório classifica o Brasil como plataforma regional de produção e logística integrada a cadeias ligadas à China. Estimativas da Câmara Americana de Comércio para o Brasil e da Confederação Nacional da Indústria apontam que as tarifas norte-americanas já atingem entre US$ 7 bilhões e US$ 12,5 bilhões em exportações brasileiras, e a participação dos Estados Unidos nas vendas externas do país caiu ao menor patamar da série histórica.

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Nada disso é episódio isolado ou conjuntural. É a Nova Guerra Fria, na sua dinâmica geoeconômica, em funcionamento, com comércio, infraestrutura, energia e minerais críticos operando como instrumentos de coerção e projeção de poder. O Brasil aprofundou comércio e investimento com a China num formato conhecido: exporta commodities de baixo valor agregado, importa manufaturados e bens de capital. Em junho deste ano, a Moody’s Ratings chamou esse arranjo de “duplo risco”, pela pressão competitiva sobre a indústria local e pela vulnerabilidade a choques de demanda chinesa.

+ Entenda a geopolítica mundial no guia de Oeste

Os dados do ClearPath mostram a dimensão estrutural. Desde 2015, o financiamento chinês no setor elétrico brasileiro superou o norte-americano em mais de cem vezes, US$ 60 bilhões contra US$ 472 milhões, e estatais chinesas já controlam entre 10% e 12% da geração e da transmissão de energia no país. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada alerta que parte relevante dos bens de capital produtivos depende de fornecedores chineses. O Eurasia Group, no Top Risks 2026, observa que a desaceleração chinesa amplia a exposição das exportações brasileiras de minério de ferro e de outras commodities.

Para as empresas, a conta é em várias frentes simultaneamente. O compliance fica mais caro e o acesso ao mercado norte-americano, mais incerto. Fornecedores e mercados concentrados em um único parceiro reduzem margem de manobra. A dependência de infraestrutura e de componentes críticos chineses acrescenta risco operacional, que não se resolve com cálculo comercial. A diversificação de mercados é necessária, mas costuma acontecer de forma reativa e sob pressão, o que encarece o prêmio de risco geopolítico nas decisões de investimento.

Vale perguntar se ainda existe espaço real para uma posição de não alinhamento. Esse espaço se estreita. Washington usa tarifas e listas de risco como coerção, Pequim exerce influência por escala comercial e controle sobre ativos físicos, e tanto Estados quanto empresas precisam calibrar exposição a duas pressões que nem sempre são compatíveis. Ficar no meio deixou de ser vantajoso por si só e passou a exigir estratégia ativa de mitigação de risco geopolítico.

O cenário aposta para mais volatilidade nos fluxos comerciais, custo de adaptação mais alto e monitoramento político permanente. Nesse sentido, tratar a rivalidade entre Estados Unidos e China como ruído externo, significa subestimar o impacto dela sobre a própria competitividade ou mesmo sobrevivência. Portanto, incorporar o risco geopolítico como variável central de decisão é fundamental em um ambiente em que o comércio virou instrumento de poder.

E a aposta dos empresários em integrar-se a longa cadeia de valor capitaneada pela China, buscando capturar ganhos em algumas etapas internacionalizadas no Brasil, está exposta a perdas já no curto prazo com este avanço da estratégia comercial americana agora na fronte aduaneiro. No limite, algumas empresas podem sofrer sanções que podem as alijar do mercado norte-americano no longo prazo. Os riscos devem ser reestimados imediatamente.


*Lucas Rodrigues Azambuja é doutor em sociologia. Professor no Centro Universitário Ibmec de Belo Horizonte.