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A academia do ódio visual contra Kleber Mendonça

Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 16/08/2026 01:32:55

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A Academia Brasileira de Cinema empatou
Foto: CHRISTIAN RODRIGUES/PALAVRA ASSESSORIA/PRÊMIO GRANDE OTELO/DIVULGAÇÃO
A Academia Brasileira de Cinema empatou “Manas”, de Marianna Brennand, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, na categoria principal do Prêmio Grande Otelo

Na madrugada de quarta-feira, 4, a Academia Brasileira de Cinema empatou “Manas”, de Marianna Brennand, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, na categoria principal do Prêmio Grande Otelo. Um empate diplomático e covarde.

“O Agente Secreto” chegou com quatro indicações ao Oscar, Globo de Ouro, Critics Choice e dois prêmios em Cannes. Ainda assim, terminou em terceiro lugar em estatuetas, atrás de “Manas” e “Homem com H”. O empate tem endereço de classe.

De um lado, um cineasta que construiu sua obra e reconhecimento internacional ao longo de décadas. Do outro, uma diretora estreante, sem filme anterior relevante, com sobrenome Brennand, conhecido em Pernambuco pelo mecenato, e outras cositas mais, e nunca pelo cinema.

A Academia opôs Kleber a essa estreante como se fosse equilíbrio regional. Na prática, coroou capital herdado ao lado do capital cultural conquistado com talento. A reação contrária a Kleber não é nova.

As duas primeiras críticas duras ao “Agente Secreto” vieram de um cineasta e montador carioca, na Revista Piauí, Eduardo Escorel, e de um professor da Universidade de São Paulo (USP), na Folha, Pablo Ortellado. As duas críticas merecem uma análise mais completa, que não cabe aqui, pelos sintomas que apresentam: a primeira (quem é o agente secreto?) é de uma irritação crescente com o filme por se passar todo em Recife. A segunda (“O Agente Secreto” é um equívoco político) é um texto cheio de muito preconceito onde Ortellado fica bravo, particularmente, porque o filme mostra como o empresariado de “sucesso” do Sul/Sudeste se aliou e se locupletou na época da ditadura. A irritação voltou no Prêmio Grande Otelo.

O próprio Kleber nomeou o problema: “Há um ar forte sudestino que a gente precisa dissipar um pouco na Academia Brasileira de Cinema”. A presidente Renata Almeida Magalhães (viúva de Cacá Diegues) rebateu, negou resistência e citou os números da casa: 356 sócios, 78,3% do Sudeste, 8,4% do Nordeste. Um espelho, diz ela, da distribuição de produtoras ativas segundo a Ancine.

Mas esse espelho não prova neutralidade, prova o problema: a concentração de mercado no eixo hegemônico é desigualdade histórica. O cinema paulista, em boa parte medíocre, concentra a maior fatia dos investimentos públicos. O cinema nordestino, com bem menos recursos, segue mais expressivo artisticamente.

Uma academia que usa sua composição desigual como prova de normalidade, e ainda premia o sobrenome no lugar de obra, não é neutra: é cúmplice.

Para completar, me contou uma fonte que estava lá, só se comentava nos bastidores os presentes da produção de Brennand ao júri.

Uma tragicomédia.

Convite ao tédio

O filme “O Convite” é chato.

A diretora, Olivia Wilde, que também atua no filme, é uma excelente atriz e claramente bem-intencionada, mas boa intenção não segura quase duas horas de tela grande.

O centro do filme é um músico frustrado interpretado por Seth Rogen, insuportável do início ao fim, arrastando ressentimento contra o mundo como se fosse profundidade. O segundo personagem masculino (Edward Norton) não escapa: perde toda a virilidade construída ao longo da trama no instante em que assume, para si e para os outros, que é gay, como se identidade sexual e masculinidade fossem, ali, mutuamente excludentes.

Dois homens horríveis, frutos da psicótica cultura da classe média alta americana que gerou Trump, em um filme que não sabe o que fazer com eles além de expô-los ao ridículo.

Penélope Cruz, coitada, faz uma terapeuta e sexóloga de rasa formação que no filme passa por grande pensadora.

Imagine o mesmo assunto: desejo, frustração, neurose urbana, nas mãos de Woody Allen, sairia ácido, engraçado, incômodo de um jeito inteligente. Aqui, sai apenas arrastado.

O mais curioso é o sucesso do filme entre a geração Z, que assiste e gosta. Vale a pena entender o por quê, inclusive porque, do ponto de vista erótico, o filme também é careta: os personagens (masculinos e femininos) passam o longa inteiro falando de sexo, tentando, insinuando, e seguem, do início ao fim… vestidos. E sem umazinha. Não chegam nem a tirar a roupa.

Fala-se muito de desejo e ele nunca acontece em cena.

Enfim, um filme para quem saiu da adolescência e ainda tem espinhas e tabus à frente.

Não é à toa que a nova ídola dos teenagers, a crítica Isabela Boscov, aliás, de quem eu gosto demais, botou o filme nos céus.

Da sombra à luz

Poucos cearenses sabem que o Ceará manteve, por 55 anos, um manicômio judiciário: o Instituto Governador Stênio Gomes, inaugurado em 1969 para receber pessoas em sofrimento mental vindas do sistema prisional.

A promessa, na inauguração, era de “integração”. A realidade foi isolamento, celas sem colchão, mão de obra não remunerada e gente presa décadas depois de ter recebido alta judicial. O caso mais emblemático: Juvenal Raimundo de Araújo, internado aos 19 anos, ficou 43 anos trancafiado sem um único registro de violência e virou notícia nacional em 2013 como “o preso mais antigo do Brasil”.

A tese de doutorado “Entre a Loucura e o Crime”, da psicóloga Lirian Filgueiras Mascarenhas, desmontou a premissa que sustentou o manicômio por meio século: a de que essas pessoas seriam perigosas. Os registros mostram o contrário: estabilização do quadro, ausência de novos atos violentos após o tratamento. O que os relatórios do CNJ, da Defensoria e do Mecanismo de Combate à Tortura documentaram, ano após ano, foi violência institucional contra quem ali vivia.

O fechamento só veio em 2023-2024, sob a Política Antimanicomial do Judiciário: dos 102 internos, 63 voltaram para suas famílias.

Para contar essa história, que ela participou ao lado de outras mulheres geniais, Lirian dirigiu o documentário “Histórias de Vidas Infames: Sombras na Terra da Luz”.

Nesta quinta-feira, 20, no Cineteatro São Luiz, o filme é exibido às 20 horas, precedido por mesa redonda às 19 horas com a própria Lirian, o desembargador Luís Geraldo Lanfredi (CNJ) e a psicóloga Adriane Wolman (Ministério da Saúde). A entrada é gratuita.