Entrevistas
Fonte: francisswim.com.br | Data: 16/08/2026 12:42:43
Nota do autor: Todos os nomes, apelidos e personagens mencionados nesta obra são fruto da minha imaginação e não correspondem necessariamente a pessoas ou fatos reais. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Ou talvez não… hehehe.
Há travessias que ficam na memória pelo tempo, pela distância, pela medalha ou pela paisagem.
E há aquelas que ficam porque, durante alguns momentos, o nadador começa a se perguntar se realmente teve uma boa ideia ao entrar na água.
A Travessia a Nado São José do Norte/Rio Grande, com seus 3.561 metros, é uma dessas.
Foram poucas as vezes em que encontramos condições realmente tranquilas para fazer aquela travessia. Naquele ano, desde a espera pela embarcação que nos levaria até São José do Norte, o tempo já dava sinais de que não estava disposto a colaborar.
Eu estava com o Jajá aguardando o barco quando vimos uma cena que parecia saída de um filme.
O professor Wilson Mattos, figura que já faz parte do folclore da natação em águas abertas, estava em um bote preparando a sinalização da prova.
Wilson era juiz raiz.
Para ele, se tinha água, era para nadar.
Se tinha vento, nadava contra o vento.
Se tinha chuva, melhor ainda.
E se a água estivesse daquele jeito que faria qualquer pessoa sensata pensar duas vezes antes de entrar, Wilson provavelmente pensaria que era uma excelente oportunidade para ganhar experiência.
Ele saiu do Clube de Regatas em direção ao píer de São José do Norte para posicionar as boias. O detalhe é que o vento e a correnteza estavam tão fortes que, quando ele soltava uma boia, ela era imediatamente arrastada em direção ao mar.
Nós tentamos chamar a atenção dele.
Mas chamar o Wilson no meio daquela ventania era praticamente como tentar conversar com alguém dentro de um avião.
Eu e o Jajá nos olhamos.
Não precisamos dizer nada.
A expressão era a mesma:
“Hoje não vai ser fácil.”
E o barco que deveria nos levar para São José do Norte não chegava.
Esperamos.
Esperamos mais um pouco.
Até que, quase uma hora depois, surgiu a embarcação.
Na proa estava o Bombeiro Nilo, agarrado a uma espécie de carranca com forma humana.
Olhei para aquilo e fiquei pensando:
“Afinal, quem vai espantar os maus espíritos? A carranca ou nós?”
Decidimos não questionar.
Embarcamos.
O vento sacudia o barco de um lado para o outro e, ao longe, uma tempestade começava a se formar.
Não era exatamente o cenário que alguém escolheria para um passeio turístico.
Mas nós não estávamos indo passear.
Estávamos indo nadar.
Ao chegarmos a São José do Norte, fomos recebidos pelo famoso Piri, um dos responsáveis pela organização da travessia.
E aqui preciso abrir um parêntese.
Existe uma história que circula pelo folclore da natação gaúcha para explicar como o Piri foi parar em Rio Grande, tão longe de Porto Alegre.
Dizem que tudo começou quando uma socialite de um tradicional clube próximo ao Parcão resolveu, já em novembro, praticamente às vésperas do verão, que precisava emagrecer para usar o biquíni.
Procurou o mestre Piri e explicou o objetivo.
Piri olhou para o desafio e respondeu, com a sinceridade que lhe era peculiar:
“Eu sou o Piri, não sou o Pitanguy!”
Segundo o folclore, essa teria sido uma das razões que levaram o famoso professor para Rio Grande.
Se a história é verdadeira?
Não sei.
Mas que ela ficou famosa, ficou.

Voltando à travessia…
Todos aguardavam a largada, que já estava atrasada, quando a Marinha do Brasil decidiu esperar a passagem do temporal.
A chuva finalmente diminuiu.
E veio a ordem:
Largada!
Wilson Mattos estava em uma embarcação.
Piri em outra.
E o Bombeiro Nilo em uma lancha.
Nós saltamos do píer e entramos na água.
Ao longe, nuvens escuras continuavam avisando que aquele dia ainda tinha algumas surpresas reservadas.
Logo no início, ouvimos gritos.
Alguns remadores estavam com suas canoas viradas pelo vento e pediam socorro.
Eu e o Jajá ajudamos alguns deles e acionamos os botes de apoio para fazer o resgate.
Olhei para o Jajá e pensei alto:
“Se os barcos que estão aqui para dar apoio estão pedindo socorro, imagina nós dois, que nadamos no nosso ritmo de tartaruga!”
Mas não havia mais volta.
Era seguir.
A correnteza estava tão forte que a orientação era nadar em direção a Pelotas, tentando cruzar à frente de um enorme navio ancorado no canal.
Só que, na prática, a correnteza tinha outros planos.
Em vez de conseguirmos passar pela proa do navio, acabamos passando pela popa, a parte traseira.
E, naquele momento, descobrimos uma verdade inconveniente:
estávamos indo mais rápido em direção ao mar do que em direção a Rio Grande.
Quando finalmente consegui cruzar o canal e me aproximar da ilha, encontrei uma cena que nunca esqueci.
Alguns nadadores estavam agarrados a varas de bambu, pedindo socorro e com medo de serem levados pela correnteza para o alto-mar.
Aquelas varas eram utilizadas como referência e apoio junto a estruturas de pesca existentes naquela região.
Gritei para eles que, naquele ponto, a profundidade era pequena e que poderiam nadar em direção à praia.
Avistamos um barco chegando para recolher os nadadores.
Continuei.
Braçada após braçada.
Até que o tempo resolveu piorar novamente.
Uma tempestade se aproximou.
A cerração aumentou.
E, de repente, desapareceu a referência de tudo.
Não se enxergava praticamente nada.
A correnteza, que antes nos empurrava para o mar, agora havia mudado.
E começou a nos levar na direção de Pelotas.
Foi aí que percebi que a brincadeira tinha ficado séria.
E, no meio daquela imensidão, quem aparece?
Ele mesmo.
Jajá.
Encontramo-nos no meio da lagoa, sem muita coisa para fazer além de continuar nadando e confiar que algum ponto de referência apareceria.
Como não aparecia, resolvi apelar para uma autoridade superior.
Comecei a rezar algumas Ave-Marias.
Não sei se foi intervenção divina, sorte ou simplesmente o momento em que a neblina resolveu colaborar.
Mas conseguimos avistar, ao longe, uma luz piscando.
Uma lâmpada.
Uma referência.
Rio Grande!
Seguimos naquela direção como quem segue uma luz no fim do túnel.
Mais tarde descobrimos que aquela “luz divina” não era exatamente Rio Grande.
Era a torre de uma empresa de telefonia.
Mas naquele momento não interessava.
Para nós, aquela torre era praticamente um farol celestial.
Seguimos em direção à luz.
E, finalmente, depois de correnteza, vento, chuva, cerração, barcos virados, navio, varas de bambu, orações e uma torre de celular, conseguimos chegar sãos e salvos ao Clube de Regatas Rio Grande.
Pouco depois, o temporal cessou.
Como se nada tivesse acontecido.
E então veio a melhor parte da travessia.
O tradicional galeto preparado pelo clube para comemorar o evento.
Depois de 3.561 metros de natação em condições que pareciam ter sido planejadas para testar nossa fé, o galeto não era simplesmente uma refeição.
Era uma recompensa.
Naquele dia aprendi uma coisa:
há travessias em que você conta a distância em metros.
E há travessias em que você conta a distância em histórias.
A de São José do Norte para Rio Grande tinha 3.561 metros.
Mas, na memória, ela continua até hoje muito mais longa.
Porque aquela não foi simplesmente uma travessia.
Foi uma aventura aquática com participação especial do vento, da correnteza, da tempestade, do Jajá, do Wilson, do Piri, do Bombeiro Nilo, de uma carranca, de algumas Ave-Marias e, finalmente, de uma torre de celular que salvou nossa orientação.
Só para os fortes.
