Condephaat aprova reforma da Estação Várzea Paulista com mudanças em plataformas, rede aérea e prédios históricos
Fonte: diariodotransporte.com.br | Data: 17/08/2026 10:03:59
Publicado em: 17 de agosto de 2026

Projeto está inserido no rearranjo ferroviário da região, que envolve segregação dos trens de carga, modernização da Linha 7-Rubi e preparação do corredor para o Trem Intercidades; conjunto inaugurado em 1891 é tombado e intervenções terão de seguir uma série de exigências de preservação
ADAMO BAZANI
O Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) aprovou o projeto de reforma e adequação da Estação Ferroviária de Várzea Paulista, na Região Metropolitana de Jundiaí.
A decisão foi publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo desta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, e representa mais uma etapa de um processo que envolve não apenas a modernização da estação, mas uma reorganização bem maior da infraestrutura ferroviária entre São Paulo, Jundiaí e Campinas.
O projeto prevê intervenções nas plataformas, coberturas, rede aérea e sistemas associados à estação, além de medidas específicas de proteção das edificações históricas.
O Condephaat aprovou o parecer favorável por 19 votos e uma abstenção na sessão de 3 de agosto de 2026. O processo é o nº 010.00003437/2025-24, referente ao Bem 21804, situado na Rua Antonio Feres Sada, no Centro de Várzea Paulista.
A aprovação, entretanto, não é uma autorização irrestrita para que qualquer intervenção seja executada.
O Conselho estabeleceu uma série de condições que deverão ser atendidas durante o desenvolvimento dos projetos executivos, justamente porque a estação e outras estruturas do conjunto ferroviário possuem proteção histórica e arquitetônica.
Projeto terá de detalhar mudanças nas plataformas
Uma das exigências diz respeito às coberturas das plataformas.
O projeto executivo deverá detalhar como ocorrerá o encontro entre a cobertura nova e a cobertura existente, inclusive mostrando como será realizada a captação e o escoamento das águas das chuvas.
A preocupação é relevante porque a modernização da estrutura precisa conviver com elementos históricos que não podem simplesmente ser eliminados ou descaracterizados.
Também deverá ser apresentado o posicionamento dos novos pórticos e postes da rede aérea em relação aos edifícios tombados.
Na prática, o projeto ferroviário terá de demonstrar que a instalação ou mudança dos equipamentos necessários para alimentação elétrica dos trens respeitará o patrimônio existente.
Gradis e fechamento também terão padrão definido
O Condephaat também determinou que seja adotado gradil metálico instalado sobre mureta de concreto em todo o perímetro de vedação previsto no projeto.
A solução deverá aparecer nos projetos executivos encaminhados ao órgão de preservação.
Não se trata, portanto, apenas de preservar o prédio principal da estação.
A análise alcança a relação entre as novas estruturas ferroviárias, plataformas, rede aérea, cercamentos e o conjunto arquitetônico histórico.
Prédios tombados terão de receber projeto de restauro
Outra exigência é a apresentação de um projeto específico de restauro para as edificações tombadas.
O Condephaat também determinou a elaboração de um Plano de Conservação com cronograma para todos os bens protegidos, independentemente do uso que será dado às edificações e mesmo nos casos em que ainda não haja definição de utilização futura.
Isso significa que a aprovação da modernização ferroviária vem acompanhada de uma obrigação de tratamento do patrimônio existente.
A deliberação publicada nesta segunda-feira também deixa claro que a anuência do Condephaat não elimina a necessidade de outras aprovações e licenças exigidas para as obras.
Obra faz parte de uma transformação maior da ferrovia
A reforma da Estação Várzea Paulista não surgiu isoladamente.
Nos últimos anos, a região passou a fazer parte de uma grande reorganização ferroviária envolvendo pelo menos duas frentes que se encontram fisicamente no mesmo corredor: a separação da circulação dos trens de carga, vinculada à MRS Logística e à malha federal, e a modernização do sistema de passageiros que inclui a Linha 7-Rubi e o projeto do TIC (Trem Intercidades) Eixo Norte.
Em janeiro de 2024, a Prefeitura de Várzea Paulista informou que vinha discutindo com a MRS o projeto de segregação da malha ferroviária. A proposta prevê uma via exclusiva para os trens de carga, liberando capacidade da infraestrutura utilizada pelos serviços de passageiros. Na ocasião, a administração municipal informou que seriam 5,2 quilômetros de intervenções dentro de Várzea Paulista e que o conjunto das etapas de segregação entre São Paulo e Campinas envolvia investimentos federais então estimados em R$ 2,1 bilhões.
A própria prefeitura já relacionava naquela ocasião a segregação ao futuro Trem Intercidades e à modernização da estação.
ANTT já havia autorizado desapropriações para a segregação
Outra etapa importante ocorreu também em 2024.
A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), por meio da Decisão SUFER nº 7, de 24 de janeiro daquele ano, declarou de utilidade pública seis áreas nos municípios de Jundiaí, Várzea Paulista e Campo Limpo Paulista necessárias à implantação da Linha da Segregação.
A decisão autorizou a MRS Logística a promover as desapropriações necessárias, inclusive com possibilidade de invocar caráter de urgência nos processos judiciais.
Assim, antes mesmo do processo patrimonial que agora recebeu aval do Condephaat, já existiam procedimentos federais relacionados à preparação física do corredor ferroviário.
Projeto da nova configuração foi detalhado à Prefeitura em 2025
Em fevereiro de 2025, a MRS apresentou à Prefeitura de Várzea Paulista uma configuração mais detalhada das intervenções.
Segundo a administração municipal, a proposta incluía a criação da linha exclusiva para cargas e a ampliação da estação, com preservação da estrutura histórica e melhorias de acessibilidade.
Entre os elementos apresentados estavam um novo calçadão na Rua Isaac Galvão, nova passarela, nova plataforma e novo saguão com mezanino.
Também estava prevista uma reserva de espaço para a implantação do sistema relacionado ao Trem Intercidades.
É importante fazer uma diferenciação: isso não significa que o TIC expresso terá parada em Várzea Paulista.
O projeto oficial do Governo do Estado estabelece três estações para o serviço expresso: Palmeiras-Barra Funda, Jundiaí e Campinas. Várzea Paulista continuará sendo atendida pelo serviço metropolitano da Linha 7-Rubi, que também faz parte da concessão do TIC Eixo Norte.
Município começou análise patrimonial antes do Condephaat
Em março de 2025, representantes da Prefeitura e da MRS voltaram a discutir os próximos passos.
A Prefeitura informou naquela ocasião que, por envolver uma estação tombada, o projeto precisaria passar pela Comissão Municipal de Patrimônio e estar de acordo com as exigências do Condephaat.
A administração municipal também informou que as discussões sobre o projeto ferroviário com o município vinham sendo realizadas desde 2021.
No mês seguinte, em 24 de abril de 2025, o projeto foi apresentado à Comissão Municipal de Patrimônio Cultural.
No dia seguinte, representantes da Prefeitura levaram os apontamentos da comissão a uma reunião no Condephaat. O empreendimento estava, naquele momento, em fase de licenciamento patrimonial.
Participaram da reunião com o órgão estadual representantes da Prefeitura e integrantes da área técnica de preservação, incluindo o arquiteto responsável pela análise do projeto, Elizeu Marcos Franco, a coordenadora da UPPH (Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico), Mariana de Souza Rolim, e o diretor técnico do Conselho, Amer Nagib Moussa Junior.
Processo chegou ao plenário do Condephaat em agosto de 2026
O processo nº 010.00003437/2025-24 chegou à pauta do Condephaat para deliberação na sessão de 3 de agosto de 2026.
No procedimento consta como interessado Filipe Olival Gomes e o assunto é formalmente descrito como reforma do Bem 21804, na Rua Antonio Feres Sada, em Várzea Paulista.
O colegiado aprovou o parecer favorável por 19 votos e uma abstenção.
A decisão publicada agora detalha as condições que deverão acompanhar as próximas etapas do desenvolvimento dos projetos.
Linha 7-Rubi já é operada pela TIC Trens
Enquanto o processo patrimonial avançava, outra mudança importante ocorreu na ferrovia.
A Linha 7-Rubi passou à operação da TIC Trens dentro da concessão do TIC Eixo Norte. Registros operacionais da ARTESP de julho de 2026 já identificam oficialmente a concessionária como responsável pela linha.
O projeto concedido pelo Estado reúne três serviços: a Linha 7-Rubi entre Palmeiras-Barra Funda e Jundiaí, o TIM (Trem Intermetropolitano) entre Jundiaí e Campinas e o TIC expresso entre São Paulo e Campinas, com parada intermediária em Jundiaí.
As obras do TIC Eixo Norte começaram em março de 2026, inicialmente em Vinhedo, e o Governo do Estado informou que as frentes avançariam gradualmente pelo corredor em direção à capital.
Por isso, a Estação Várzea Paulista está num ponto importante desse rearranjo: embora não seja parada do TIC expresso, integra a Linha 7-Rubi e está localizada no corredor ferroviário que precisará acomodar os diferentes serviços e a segregação das cargas.
Reforma da estação já era discutida há mais de uma década
A modernização de Várzea Paulista, entretanto, é anterior aos projetos atuais.
Em dezembro de 2011, a CPTM lançou uma concorrência para contratação de serviços especializados de engenharia, arquitetura e meio ambiente destinados à revisão e elaboração dos projetos básicos e executivos das estações Várzea Paulista e Caieiras, então integrantes da Linha 7-Rubi.
Esse antigo contrato teve uma trajetória longa.
A CPTM registra que o contrato com o Consórcio SA – Estações Linha 7, formado por Sistran Engenharia, posteriormente Tylin Brazil, e Astec Engenharia, foi rescindido amigavelmente. A publicação da rescisão ocorreu somente em maio de 2026, com referência a parecer jurídico de novembro de 2017.
Não se deve confundir esse contrato antigo com o atual projeto aprovado pelo Condephaat, mas o registro mostra que a necessidade de remodelação da estação já vinha sendo estudada havia muitos anos.
CPTM contratou obras de acessibilidade em 2019
Outra intervenção ocorreu a partir de 2019.
Naquele ano, a CPTM contratou a Construmax Construções e Empreendimentos por R$ 4,969 milhões para obras civis destinadas à adequação de acessibilidade da Estação Várzea Paulista, em atendimento a um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta).
O contrato, assinado em agosto de 2019, tinha inicialmente prazo de 18 meses.
Em abril de 2021 foi firmado um aditamento de R$ 1,005 milhão, envolvendo readequação das quantidades e preços, acréscimos e decréscimos de serviços e prorrogação do prazo por mais quatro meses.
Essas obras também são anteriores ao atual processo de ampliação e reorganização ferroviária.
Tombamento obriga modernização a conviver com patrimônio
O ponto central da decisão do Condephaat é justamente a necessidade de conciliar uma infraestrutura ferroviária moderna com edificações de mais de um século.
O tombamento estadual teve origem no Processo Condephaat nº 60304/09 e foi formalizado pela Resolução SC nº 86, de 18 de outubro de 2011.
A proteção não se restringe ao edifício utilizado pelos passageiros.
O conjunto tombado compreende estação, armazém e vila ferroviária e possui proteção de caráter histórico e arquitetônico. Segundo a documentação do processo de tombamento, o conjunto representa a expansão da antiga São Paulo Railway e preserva características construtivas associadas à presença inglesa nas primeiras ferrovias paulistas, como alvenaria de tijolos e utilização de ferro fundido.
É justamente por isso que novos postes, pórticos, coberturas, plataformas e fechamentos não podem ser projetados apenas com critérios operacionais.
Eles também precisam demonstrar compatibilidade com o patrimônio existente.
O que acontece agora
A decisão do Condephaat permite o prosseguimento do projeto patrimonialmente, mas ainda exige o desenvolvimento e apresentação dos elementos determinados pelo Conselho.
Entre eles estão os projetos executivos das coberturas das plataformas, solução de drenagem, localização de novos pórticos e postes da rede aérea, fechamento por gradis, projeto de restauro das edificações tombadas e Plano de Conservação de todos os bens protegidos.
Além disso, continuam necessárias as demais aprovações técnicas, ferroviárias, ambientais e urbanísticas aplicáveis a cada frente de obra.
A publicação do Condephaat, portanto, não significa que toda a reforma esteja liberada para começar imediatamente em qualquer configuração.
Ela representa a aprovação patrimonial do conceito analisado e estabelece as condições que deverão ser respeitadas nas próximas etapas.
HISTÓRIA – Estação ajudou a formar a própria cidade de Várzea Paulista
A relação de Várzea Paulista com a ferrovia é anterior à criação do próprio município.
A estrada de ferro entre Santos e Jundiaí foi inaugurada em 1867 pela São Paulo Railway, construída para conectar o litoral ao planalto paulista. A região onde posteriormente surgiria Várzea Paulista era então uma área pouco ocupada atravessada pelos trilhos.
A Estação Várzea Paulista foi inaugurada em 1º de julho de 1891, com arquitetura e materiais de origem inglesa.
Segundo a história oficial do município, a parada ferroviária teve papel fundamental no desenvolvimento da localidade, servindo ao deslocamento dos moradores e ao transporte relacionado ao comércio e às atividades produtivas.
A ferrovia também ajudou a sustentar o crescimento das olarias e posteriormente das indústrias que marcaram a formação econômica de Várzea Paulista.
O conjunto preservado é formado pela estação, armazém e vila ferroviária. Para o Condephaat, essas estruturas ajudam a documentar tanto a implantação da antiga São Paulo Railway quanto o modo de vida dos trabalhadores ferroviários.
O processo de tombamento foi aberto em 2009 e resultou na Resolução SC nº 86, de outubro de 2011, publicada no Diário Oficial em novembro daquele ano.
Mais de 130 anos depois da inauguração, a estação permanece em atividade. Hoje integra a Linha 7-Rubi, operada pela TIC Trens, ligando Várzea Paulista ao restante do sistema metropolitano e a Jundiaí.
A reforma agora aprovada pelo Condephaat representa, assim, uma nova etapa para uma estação que não é apenas um ponto de embarque e desembarque: a ferrovia esteve diretamente associada ao nascimento, crescimento industrial e desenvolvimento urbano de Várzea Paulista.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes