Condutores avançados em novas linhas aéreas de transmissão: é hora de ampliar as alternativas no Brasil? – O Setor E
Fonte: osetoreletrico.com.br | Data: 18/08/2026 12:35:27
Publicado em março de 2026, o CIGRÉ Technical Brochure 983, “Use of high temperature conductors in new overhead lines”, oferece uma base técnica sólida para ampliar no Brasil a avaliação de condutores avançados já na fase de concepção dos projetos de novas linhas aéreas de transmissão.
Do paradigma do uprating à linha nova
Durante muitos anos, os condutores HTLS (High Temperature Low Sag, ou alta temperatura e baixa flecha) foram associados quase automaticamente ao aumento de capacidade de linhas existentes. A associação é natural: sua capacidade de transportar correntes elevadas com menor crescimento de flecha tornou o reconduccionamento uma de suas aplicações mais conhecidas. O risco é transformar uma aplicação histórica em limite conceitual.
O CIGRÉ Technical Brochure 983, publicado pelo Study Committee B2 – Overhead Lines, recoloca a questão sob outra perspectiva: por que não avaliar condutores de alta temperatura também desde a concepção de uma nova linha aérea? O documento não prescreve uma tecnologia. Ao contrário, discute vantagens, limitações, perdas, aspectos mecânicos, instalação, manutenção e custos, mas inclui diferentes famílias de HTLS no espaço normal de alternativas de projeto, como por exemplo os condutores de núcleo de aço especial como o ACSS (Aluminum Conductor Steel Supported) e o ACCC (Aluminum Conductor Composite Core) entre outros.
A provocação brasileira
No Brasil, a discussão tem uma particularidade. Nas novas linhas, os condutores de liga de alumínio AAAC (All Aluminum Alloy Conductor), especialmente em liga 1120, consolidaram-se ao longo da última década como importante referência de projeto. Essa evolução teve fundamentos técnicos e econômicos e mostra que a engenharia brasileira sabe incorporar novas soluções quando elas demonstram valor.
A pergunta, portanto, não é substituir uma referência: é saber se o espaço de alternativas considerado hoje continua acompanhando a evolução tecnológica disponível.
Esse é o ponto central do debate. Uma tecnologia pode permanecer excelente e, ainda assim, deixar de ser a única alternativa que merece entrar na comparação inicial. O mérito do TB 983 é justamente estimular uma avaliação mais ampla e caso a caso.
Comparar condutores ou comparar linhas?
O custo do HTLS por quilômetro costuma ser uma das primeiras objeções. Mas uma linha de transmissão não é apenas o condutor. Estruturas, fundações, faixa de servidão, acessos, montagem, perdas elétricas, manutenção e capacidade futura também fazem parte da equação.
A menor flecha pode permitir estruturas mais baixas, vãos maiores e, em certas condições, menos torres ou menor faixa. A maior capacidade térmica pode acrescentar margem para contingências e fluxos futuros. Por isso, o preço isolado do condutor não determina necessariamente a solução de menor custo global.
O erro pode estar em comparar condutores quando deveríamos comparar linhas otimizadas para cada tecnologia.
O TB 983 mostra que, em determinadas premissas, economias em estruturas, fundações e outros componentes podem absorver um prêmio relevante no preço do HTLS. Não é uma regra geral; é uma demonstração de que a resposta depende da otimização da linha completa.
O exemplo econômico do TB 983
Um dos estudos do documento compara, para uma nova linha de 500 kV na região do Midcontinent Independent System Operator (MISO), cobrindo 15 estados nos EUA, uma solução com ACSR (Aluminum Conductor Steel Reinforced) Rail e outra com o Warsaw, identificado no TB 983 como Type 4 HTLS e correspondente à família ACCC. O ponto mais interessante é que o ACCC Warsaw não é usado como um condutor pequeno operando permanentemente a alta temperatura. No pico analisado, ambos operam praticamente na mesma faixa térmica, cerca de 54 °C e 53 °C.
O ACCC Warsaw considerado possui menor resistência elétrica e, para o mesmo perfil de carga, apresenta perdas aproximadamente 8% inferiores. Ao mesmo tempo, sua menor flecha permite reduzir custos associados às estruturas. Antes das perdas, os investimentos totais ficam praticamente empatados; após incorporar o valor presente das perdas no horizonte analisado, a alternativa Type 4 apresenta custo capitalizado cerca de 13,4% inferior. A Figura 1 resume de maneira simplificada essa lógica econômica.
Figura 1 – Exemplo do TB 983: comparação simplificada para a linha de 500kV analisada na região MISO nos EUA
Esse resultado não deve ser generalizado. Outro HTLS, com menor área de alumínio ou operando continuamente com maior densidade de corrente, pode apresentar perdas maiores. A lição é outra: capacidade de alta temperatura não significa operação normal em alta temperatura. Em uma linha nova, essa característica pode funcionar como reserva de capacidade, enquanto a operação cotidiana permanece em níveis eficientes.
Essa distinção é particularmente importante em linhas novas. O limite térmico superior do HTLS não precisa ser adotado como ponto de operação normal. Ele pode ser tratado como capacidade de reserva, preservando uma seção de alumínio compatível com perdas competitivas no carregamento usual e deixando a margem térmica para contingências, picos ou mudanças futuras. Nesse enquadramento, a pergunta deixa de ser “quanto mais corrente posso fazer passar?” e passa a ser “quanto de flexibilidade posso incorporar à linha sem penalizar sua eficiência cotidiana?”.
Flexibilidade também tem valor
Uma linha construída hoje permanecerá em serviço por décadas, enquanto geração, cargas e fluxos podem mudar profundamente. O TB 983 coloca flexibilidade e robustez da rede entre os motivos para considerar HTLS em linhas novas. A capacidade adicional pode ter valor em contingências N-1 — indisponibilidade de um elemento da rede —, picos de geração ou necessidades futuras que ainda não aparecem nos estudos atuais.
Nos Estados Unidos, essa discussão já integra a agenda de modernização da rede. O Electric Power Research Institute (EPRI) acumulou cerca de duas décadas de ensaios, especificações e experiências com Advanced Conductors, enquanto o Idaho National Laboratory (INL) vem avaliando tecnologias, desempenho e adoção por empresas de energia. O aspecto mais relevante não é afirmar que condutores convencionais foram substituídos, mas reconhecer que condutores avançados passaram a fazer parte do conjunto normal de alternativas técnicas.
Do planejamento ao leilão: ampliando o espaço de soluções
O planejamento brasileiro já dispõe de uma metodologia estruturada e tecnicamente consistente para avaliar novas instalações de transmissão. As diretrizes da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para os relatórios R1 e R2 — associados à viabilidade e ao detalhamento da alternativa de referência — incluem a definição do chamado “condutor econômico”, considerando carregamento, perdas e alternativas de projeto. Portanto, a provocação não é começar a fazer análise técnico-econômica; ela já existe.
A oportunidade agora é utilizar essa base metodológica para ampliar, quando aplicável, o conjunto de tecnologias considerado desde as etapas iniciais dos estudos.
Essa discussão é particularmente relevante nas etapas de planejamento, porque é nesse momento que se constroem as alternativas de referência que posteriormente dão suporte ao processo de licitação. A competição pela menor Receita Anual Permitida cria forte incentivo à eficiência. Mas, se uma tecnologia pode alterar vãos, número de estruturas, fundações, faixa e flexibilidade futura, o momento em que ela entra na análise importa.
Avaliar um HTLS apenas dentro de uma geometria já otimizada para outra família de condutores pode não revelar seu potencial técnico-econômico. A comparação mais informativa é aquela em que cada alternativa pode levar à sua própria linha otimizada. A Figura 2 sintetiza as principais variáveis envolvidas.
Para que a comparação seja justa, também é importante evitar um benchmark simplificado de R$/km de condutor. Cada alternativa deveria ser levada até uma solução de linha coerente, com seus próprios vãos econômicos, estruturas, fundações, faixa, perdas e critérios de operação. Só então o investimento (CAPEX), os custos operacionais (OPEX) e o valor da flexibilidade podem ser colocados lado a lado. Essa abordagem não favorece HTLS por princípio; ao contrário, cria condições para que ele seja descartado quando não agrega valor e selecionado quando a combinação global supera a referência convencional. Em outras palavras, a inovação entra como candidata no processo de engenharia, não como conclusão antecipada. É justamente essa neutralidade metodológica que pode tornar a discussão mais madura no Brasil.
Figura 2 – Como o condutor pode alterar a otimização da linha de transmissão aérea.
Ao definir o “condutor econômico” de uma nova LT, até onde podemos ampliar a análise para comparar não apenas diferentes condutores, mas diferentes linhas otimizadas para cada tecnologia?
Ampliar o espaço de engenharia
O CIGRÉ TB 983 oferece uma base técnica internacional sólida para trazer essa discussão ao Brasil sem criar preferência por tecnologia. O objetivo é ampliar o espaço de engenharia antes da decisão, permitindo que AAAC e diferentes famílias de condutores avançados — entre elas tecnologias HTLS como o ACCC — sejam avaliados conforme as características de cada empreendimento e dentro das metodologias já consolidadas de planejamento e projeto.
A pergunta relevante deixa de ser se HTLS “serve” para linhas novas. Passa a ser: em quais novas linhas brasileiras sua consideração pode levar a uma solução técnica e economicamente superior? Fazer essa pergunta de forma sistemática não antecipa a resposta. Apenas aumenta a chance de que a rede do futuro seja projetada com o melhor conjunto de soluções disponível.
Referências principais
1. CIGRÉ WG B2.78. Use of High Temperature Conductors in New Overhead Lines. Technical Brochure 983, março de 2026.
2. Electric Power Research Institute – EPRI. Advanced Conductor Specification Guide. 2024.
3. Electric Power Research Institute – EPRI. Advanced Conductor Experience: Utility Applications. 2024.
4. Idaho National Laboratory – INL. Advanced Conductor Scan Report. 2023.
5. Empresa de Pesquisa Energética – EPE. Diretrizes para a Elaboração dos Relatórios Técnicos para a Licitação de Novas Instalações da Rede Básica – Estrutura e Conteúdo dos Relatórios R1, R2, R3, R4 e R5. EPE-DEE-DEA-NT-004/2020-rev0.
6. Empresa de Pesquisa Energética – EPE. Estudo de Atendimento à Região Central do Estado de Goiás. EPE-DEE-RE-027/2019-rev2.
7. Empresa de Pesquisa Energética – EPE. Programa de Expansão da Transmissão (PET) / Plano de Expansão de Longo Prazo (PELP), Ciclo 2026 – 1º Semestre. EPE-DEE-RE-068/2026-rev0.
8. Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL. Regulação da Transmissão – receita regulatória e processo competitivo de leilão.
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Sobre o autor:
Marcondes Silvestre Takeda é gerente de Aplicações e Produtos do Grupo Prysmian.