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Hospitais estão preparados para todo tipo de corpo? Uma maca quebrada mostra que não

Fonte: estadao.com.br | Data: 18/08/2026 20:20:48

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Uma maca quebrou dentro de um hospital no litoral do Rio Grande do Sul. O paciente que estava em cima dela, de cerca de 380 quilos, passou a ser cuidado em uma cama improvisada sobre paletes. Ele morreu no dia 12 de agosto, aos 49 anos. Estava esperando uma transferência determinada uma semana antes por uma decisão judicial. Eu quero falar sobre a maca, porque ela não é um detalhe da história. A maca é a história.

A tentação, diante de uma notícia dessas, é tratar como tragédia individual. Falha de um hospital, azar de um paciente. Só que não.

Sistema de saúde brasileiro não está preparado para lidar com pessoas com obesidade

 

Foto: motortion/Adobe Stock

Um problema sistemático

Em janeiro de 2023, em São Paulo, um paciente chamado Vitor Augusto, de 25 anos e cerca de 190 quilos, passou por uma peregrinação de cerca de 30 horas entre uma UPA e três hospitais. Seis unidades recusaram a transferência pelo sistema de regulação. Ele morreu na chegada ao último hospital.

Nesse caso de São Paulo, as versões divergem. A família afirmou que faltou maca. A secretaria negou, dizendo que não tinha vaga. Uma sindicância foi aberta para apurar algo muito específico: o fato de a médica reguladora ter oferecido um leito em um hospital que não contava com tomógrafo capaz de examinar um paciente acima de 180 quilos. Repare que as duas versões chegam ao mesmo lugar: a rede não sabia onde aquele paciente cabia.

E isso vem de longe. Em 2007, no Rio de Janeiro, pacientes da rede pública com obesidade eram encaminhados ao Jockey Club para fazer tomografia em equipamento de animais de grande porte. Eu mesmo ouvi muito isso. Não foi boato de ativista desmentido pelo governo. A Secretaria Estadual de Saúde confirmou, por nota, e explicou o motivo: os tomógrafos da rede suportavam, no máximo, 120 quilos.

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Uma portaria do Ministério da Saúde de 2007 já exigia, do hospital habilitado, cadeira adequada na sala de espera, além de balança, cama e cadeira de rodas para alguém de 230 quilos. Quase 20 anos depois, isso ainda não é a realidade da maioria dos centros de saúde.

E tem uma segunda camada que mexe com a gente que é médico – e imagino que com vocês também. Mesmo se a decisão fosse cumprida à risca, a régua vai até 230 quilos. O paciente do Rio Grande do Sul pesava cerca de 380 quilos.

Eu não estou dizendo que a demora matou esse paciente. A sindicância do Conselho Regional de Medicina está em curso, existe a versão do plano de saúde e há a decisão da equipe de que ele não sobreviveria ao transporte. Isso tudo vai ser apurado.

O que dá para afirmar é outra coisa. A obesidade cresceu 118% no Brasil entre 2006 e 2024, e o mobiliário hospitalar não acompanhou esse movimento. Nós construímos rampa, banheiro adaptado, piso especial, mas nunca fizemos a conta do peso. E um sistema que só consegue atender quem cabe nos móveis que comprou não é um sistema universal. É limitado e discriminatório.