Autopass parece um primo do “Banco Master da bilhetagem eletrônica”
Fonte: correiobraziliense.com.br | Data: 19/08/2026 07:21:52
O sistema de ingresso nos modais de transporte urbano no Rio e em São Paulo virou um caos com a criação dos cartões Jaé e Top. Por trás dessa confusão existe uma palavra de três sílabas: Autopass. A empresa pode estar se revelando uma espécie de “Master da bilhetagem eletrônica” na área de transportes. Guardadas as devidas proporções, o número de semelhanças chama a atenção. A possível equiparação com o fraudulento banco de Daniel Vorcaro se aplica ao modelo de negócio e, sobretudo, à instrumentalização das relações com pessoas de prestígio para levar seu projeto adiante — no caso em questão, a construção de um monopólio na bilhetagem.
As operações financeiras da Autopass chegam a guardar semelhanças com uma pirâmide, apoiadas na renovação contínua de passivos, no uso de recebíveis como garantia e na incorporação de novos contratos para sustentar compromissos assumidos em dívidas anteriores. Trata-se de uma construção frágil que ameaça ruir e, com isso, levar de arrasto serviços essenciais, atingir o direito constitucional de ir e vir da população e provocar um caos social nas duas maiores cidades do país. Por enquanto.
A mais nova peça nessa engrenagem, que guarda paralelos com um esquema Ponzi, é a terceira emissão de debêntures, no valor de R$ 185 milhões, lançada há cerca de um mês. Os papéis pagarão CDI 3,55% ao ano. O prêmio supera em quase 80% a média ponderada de 1,97% observada em emissões corporativas comparáveis realizadas ao longo do último ano. Também equivale a aproximadamente 2,6 vezes o spread médio de 1,36% registrado pelas debêntures indexadas ao CDI no mercado secundário.
Como se não bastasse a remuneração acima da média, a empresa ofereceu como garantia da operação os direitos do contrato de concessão do Consórcio Bilhete Digital (CDB) e da Associação de Apoio e Estudo da Bilhetagem e Arrecadação nos Serviços Públicos de Transporte de Passageiros do Estado de São Paulo (Abasp), holding controladora da Autopass. O CBD é o operador do Jaé, no Rio. A Abasp é a responsável por gerir, unificar e centralizar o sistema de pagamentos e bilhetagem eletrônica do cartão Top, em São Paulo.
As duas operações de bilhetagem não geram caixa. O Top opera no zero a zero. O Jaé registrou, no primeiro trimestre de 2026, prejuízo mensal médio da ordem de R$ 6 milhões. Ou seja: os ativos não dão resultado e, dessa forma, a Autopass não tem disponibilidade de recursos para remunerar seus financiadores. Esse “arranjo piramidal” se torna ainda mais preocupante diante dos planos expansionistas da Autopass. A empresa se movimenta para acrescentar à sua plataforma os sistemas da Região Metropolitana de Porto Alegre, da capital gaúcha, e da Região Metropolitana do Recife.
O caminho da Autopass é feito de controvérsias. A empresa assumiu a bilhetagem eletrônica em São Paulo sem licitação. A modelagem está sob investigação do Tribunal de Contas do Estado desde 2022. Os sinuosos itinerários se repetem no Rio de Janeiro. A empresa passou a operar a bilhetagem eletrônica na cidade por meio de estranhos ziguezagues e com o beneplácito do então prefeito Eduardo Paes. A licitação ocorreu em julho de 2022 e recebeu quatro propostas. O Consórcio Bilhete Digital, formado originalmente pela RFC Rastreamento de Frotas e pela Auto Tijuca Participações, ofereceu R$ 110 milhões pela outorga e ficou em primeiro lugar. A Autopass foi classificada apenas no quarto lugar, com uma proposta de R$ 34,3 milhões. O Consórcio Bilhete Digital chegou a ser desclassificado por problemas na documentação. Contudo, obteve decisões que permitiram seu retorno ao certame e sua posterior homologação como vencedor. Dois anos depois, eis que a Autopass ressurge e compra o CBD. Ou seja: o quarto colocado na licitação passou a controlar a bilhetagem eletrônica do Rio. Tacom e Sonda, respectivamente segunda e terceira colocadas, sequer foram chamadas a assumir a concessão. Resultado: a implantação do Jaé acumulou atrasos e sucessivas mudanças de cronograma. A operação deveria começar em 2023, mas a exclusividade do sistema foi adiada diversas vezes.
O CBD também enfrenta dificuldades no pagamento das parcelas da outorga de R$ 110 milhões. No momento, a Autopass discute com o Município do Rio um reequilíbrio econômico-financeiro do contrato, que lhe daria mais cinco anos para amortizar a dívida. Mesmo deficitário e dependente de uma recomposição contratual, o Jaé foi apresentado aos credores como uma das principais garantias da Autopass. Assim foi também com o cartão Top. E, pelo andar desse ônibus, será também em Porto Alegre e Recife, caso a empresa estacione na bilhetagem eletrônica das duas cidades. Trata-se de um escândalo até agora de alcance regional, mas sob risco de ganhar abrangência nacional.
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postado em 19/08/2026 06:01
