Laura Cardoso e Glória Menezes: as duas grandes damas da televisão
Fonte: folhape.com.br | Data: 19/08/2026 07:13:46
Laura Cardoso se foi como desejou. Em paz, cercada de amor, ela “Respirou e partiu”, descreveu a neta Adriana Balleroni reforçando o que o bisneto da atriz, Fernando Faria, havia dito antes: “Como ela queria”.
Aos quase 99 anos – que seriam completados no próximo 13 de setembro – Laurinda de Jesus Balleroni já havia externado o desejo de partir dormindo.
E assim se fez, em sua casa, em São Paulo, na noite desta segunda-feira, 17 de agosto, deixando do lado de cá da vida, em toda sua inteireza, um legado inestimável – pessoal e profissional.
Um dia depois, aos 92 anos, foi Glória Menezes quem partiu. No início da tarde de ontem, terça-feira, 18 de agosto.
E, decerto, o tanto quanto Laura, da forma como ela gostaria: em sua casa, no Rio de Janeiro, ao lado do filho, Tarcísio Filho – que recentemente a representou em um evento na TV Globo, quando ela ganhou uma estrela na calçada da fama da emissora.
Na ocasião, o também ator, filho de Glória e de Tarcísio Meira (1935-2021), celebrou o momento e justificou a ausência da mãe, lembrando a coincidência das datas: foi também em um 12 de agosto que o seu pai se foi, aos 85 anos, vitimado pela Covid-19.
Versátil
Ao longo de oito décadas de trajetória como atriz, Laura Cardoso passou pelo rádio, pelo teatro, pelo cinema e pela televisão.
Aliás, ela nunca saiu dos palcos, esteve na ativa até os últimos dias. Em outro de seus dizeres clássicos, não hesitava em reafirmar a sua ‘querência’ em viver da/pela arte.
“Não, não, não! Não fala em aposentadoria. Você morre!”, bradou, em papo com o jornalista Pedro Bial, em 2020.
E foram muitos os papéis delegados a ela, irretocáveis todos eles, tamanha a sua versatilidade em viver dramas e comédias, como vilã ou mocinha, nas mais de 60 novelas e outras tantas atuações na dramaturgia.
Laura Cardoso morreu nesta segunda-feira (17), aos 98 anos | Crédito: Globo/Divulgação
De “Brilhante” (1981), a primeira novela na TV Globo, a “Dona do Pedaço” (2019), sendo este o seu derradeiro papel na televisão, Laura Cardoso viveu de tudo muito e de forma intensa, desde os primórdios da teledramaturgia brasileira – ela iniciou a carreira na TV Tupi, na década de 1950, época do teleteatro ao vivo na televisão.
Premiada com honrarias como o troféu Grande Otelo e o Mário Lado, além prêmios como o da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Shell, a atriz ganhou destaque, entre as dezenas de novelas das quais fez parte, em dois remakes consecutivos: “Mulheres de Areia” (1993) e “A Viagem” (1994). Sua última atuação se deu no curta-metragem “Dona Rosinha” (2025).
Céu em festa
Vale lembrar que na ficção, em “O Outro Lado do Paraíso” (2017-2018), a então Dona Caetana, dona de um bordel vivida por ela, morria no último capítulo da trama de Walcyr Carrasco.
Mas a cena do velório não foi convencional em tristeza e lamento, contexto que não combinava nem com o seu papel, tampouco com a Laura Cardoso da vida real.
Cercada de admiradores ao redor do corpo, Dona Caetana foi chamada de rainha e de diva, “ouviu” agradecimentos e um “bote pra quebrar lá em cima”.
Em meio a sentimentos de saudade unânimes, veio também a afirmação de que ela seria “a estrela mais brilhante do céu”.
Até que a sugestão de uma das personagens da cena foi de pronto acatada por todos: “Vamos cantar para esse mulherão subir”. E aí chega Pabllo Vittar e consolida “K.O.”, um dos hits que fez parte da trilha sonora da novela.
A cena da aparição de Laura Cardoso – viúva do ator e diretor Fernando Balleroni, ela duas deixa filhas, duas netas e um bisneto – colorida, em festa, reluzente, tal qual foi em vida, encerrou a passagem da atriz na novela.
No palco ou fora dele, os manifestos reiterados e lúcidos sobre a vida e a arte, seguirão como um dos grandes deleites para os que tiveram o privilégio de estar na mesma existência de uma das damas da arte no País.
Nilcedes Soares
Glória Menezes não se chamava Glória. De batismo seu nome era Nilcedes Soares de Magalhães, nascida em 19 de outubro de 1934 em Pelotas (RS).
Mas foi com o nome artístico que ela se tornou uma das maiores atrizes brasileiras, reverenciada aliás, em suas mais de seis décadas de arte – no cinema e na televisão, e também no teatro, palco em que foi revelada no final da década de 1950 quando ganhou prêmio como atriz revelação em um festival. Na mesma época ela estreou em “Um Lugar ao Sol”, na TV Tupi.
Glória Menezes morreu nesta terça (18), aos 91 anos | Crédito: Globo/Paulo Belote
Com Tarcísio Meira, Glória protagonizou um dos enlaces mais aclamados do meio artístico, inclusive os dois atuaram em uma série que tinha o nome deles, “Tarcísio & Glória”, em 1988 – a essa altura, o casal já celebrava mais de duas décadas de matrimônio.
Eles se casaram após o primeiro papel de ambos, juntos, na televisão, especificamente na Excelsior com “25499 Ocupado” (1963) – trama que deu início a novelas diárias no País.
Na Globo foi com “Sangue e Areia” (1967), novela de Janete Clair, que a trajetória do casal começou na emissora. Glória se despediu da TV, em novelas, com “Totalmente Demais” (2015-2016), já Tarcísio Meira fez sua derradeira aparição em “Orgulho e Paixão” (2018).
Entre outros tantos papéis de destaque de Glória Menezes, vale relembrar “Irmãos Coragem”, na década de 1970, também de Janete Clair. Tal qual, foi marcante a atuação da atriz em “Pai Herói” (1979).
Inseparáveis
Quando Tarcísio Meira se foi, havia uma preocupação iminente dos fãs de Glória – e do casal – sobre a separação dos dois após quase seis décadas de união.
Assim como o seu companheiro de vida, ela também contraiu a mesma doença e ficou no mesmo hospital e na mesma ocasião. Foram internados juntos.
Ele não resistiu. Ela voltou para casa, emocionalmente devastada, por óbvio.Com Tarcísio ela deixa um filho, Tarcísio Filho. Já de seu casamento anterior com Arnaldo Brito, ela foi mãe de Maria Amélia Brito e João Paulo Brito.
Glória Menezes e Tarcísio Meira foram casados por mais de seis décadas | Acervo Globo/Divulgação
Patrimônios da teledramaturgia, eles viveram um casal na novela de Manoel Carlos (1933-2026), “Páginas da Vida” (2006-2007). Ela, como Lalinha (Amália Martins), ele como Tide (Aristides Martins), assim como na vida real, foram icônicos.
Mas lá, foi a personagem dela quem partiu primeiro, nos braços dele, após declamar para o marido um poema – de autoria da poeta inglesa Elizabeth Barrett Browning (1806-1861).
Amor
Em interpretação livre, mas próxima a uma lógica do quão perene se faz Glória Menezes (e Tarcísio), o poema traduz bem o significado de um amor que não acaba após a vida física, como o de Glória Menezes, agora em encontro ‘do outro lado da vida’ com Tarcísio Meira:
“Amo-te com o doer das velhas penas, com sorrisos, com lágrimas de prece, e a fé de minha infância ingênua e forte; amo-te até nas coisas mais pequenas, por toda a vida. E se Deus, assim o quisesse, ainda mais te amarei depois da morte”.
O velório de Laura Cardoso ocorreu ontem, em São Paulo, restrito a familiares e amigos próximos. Até o fechamento destas linhas, não havia informações acerca da cerimônia de despedida a Glória Menezes.