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O que a China quer dos jumentos brasileiros? Mais de 3 mil animais deixaram o Piauí em 2026 em uma rota que atravessa o

Fonte: tribunadejundiai.com.br | Data: 20/08/2026 17:49:30

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De quatro municípios do Piauí, 3.172 jumentos seguiram em 2026 para frigoríficos da Bahia. Quase 94% dessa movimentação se concentrou em apenas duas cidades, mas o destino dos animais é apenas a primeira etapa de uma cadeia que atravessa o oceano e ajuda a explicar por que a China passou a ter interesse nesses animais.

Os números revelam a dimensão de uma movimentação que passa quase despercebida fora do Nordeste. Levantamento da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Piauí (Adapi) aponta que 3.172 jumentos saíram do estado em 2026 com destino declarado ao abate em frigoríficos da Bahia.

Os dados são baseados nas Guias de Trânsito Animal (GTAs), documentos obrigatórios para controlar o deslocamento dos animais. Marcos Parente lidera a lista de origem, com 1.570 jumentos, seguido por Floriano, com 1.405, São Raimundo Nonato, com 147, e Campo Maior, com 50.

Somadas, apenas Marcos Parente e Floriano respondem por 2.975 animais — quase 94% de toda a movimentação registrada.

A concentração já chama atenção, mas a parte mais curiosa aparece quando se observa para onde esses animais seguem — e por que uma rota entre Piauí e Bahia acaba conectada a um mercado localizado do outro lado do planeta.

Os registros da Adapi apontam dois destinos na Bahia. 1.602 animais foram encaminhados para uma unidade em Amargosa e outros 1.570 para Itapetinga.

Isso significa que os milhares de jumentos não são embarcados vivos no Brasil e enviados diretamente para a China. A rota documentada pelas GTAs termina inicialmente nos frigoríficos baianos.

É depois dessa etapa que a história ganha uma dimensão internacional. E a explicação está em algo que, durante grande parte da história desses animais no Nordeste, dificilmente seria considerado sua parte mais valiosa.

Afinal, o que a China quer dos jumentos brasileiros?

Principalmente, a pele.

Ela contém o colágeno usado na fabricação do ejiao, uma gelatina tradicional chinesa. A demanda pelo produto transformou a pele do jumento em uma matéria-prima procurada internacionalmente e criou uma cadeia de abastecimento que alcançou países muito distantes da China.

A carne também pode ter destinação comercial, mas é o interesse pelas peles que colocou os jumentos no centro de uma discussão internacional sobre comércio, bem-estar animal e redução das populações da espécie.

A revelação responde à pergunta mais imediata da história, mas abre outra ainda maior: por que a China passou a procurar jumentos em outros países?

Um produto tradicional passou a exigir milhões de peles

A escala da indústria do ejiao ajuda a entender essa busca.

Relatório da organização internacional The Donkey Sanctuary, baseado em dados de fabricantes e estudos sobre o setor, estimou que a produção de ejiao demandava ao menos 5,9 milhões de peles de jumento por ano em 2021. Mantido o ritmo de crescimento calculado pela entidade, essa necessidade poderia chegar a 6,8 milhões de peles em 2027.

Ao mesmo tempo, a população chinesa de jumentos diminuiu drasticamente. Segundo o mesmo levantamento, o rebanho do país caiu de cerca de 11 milhões de animais em 1992 para menos de 2 milhões nos dados mais recentes considerados pelo relatório.

Foto: Tribuna de Jundiaí / Imagem ilustrativa gerada por IA

A combinação ajuda a explicar por que a cadeia ultrapassou as fronteiras chinesas. Se a indústria necessita de milhões de peles e a disponibilidade doméstica diminui, outros países passam a fazer parte do mercado de fornecimento.

É nesse cenário que jumentos encontrados no interior do Nordeste brasileiro entram em uma cadeia econômica com alcance global.

Como a Bahia entrou nessa rota internacional

A participação baiana nessa atividade não começou agora. Em julho de 2017, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia anunciou o início do abate de jumentos no frigorífico Frinordeste, em Amargosa.

Na época, o governo estadual informou que a unidade projetava produzir aproximadamente 300 toneladas de carne por mês para exportação ao mercado asiático. O plano também previa o aproveitamento do couro, destinado às indústrias de cosméticos e farmacêuticos.

Quase uma década depois, Amargosa continua aparecendo nos registros dessa cadeia. Segundo informações divulgadas neste ano a partir de dados da Adapi e de representantes do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia, a unidade instalada no município é a habilitada para exportar produtos derivados de jumentos para o mercado chinês.

Isso não significa, porém, que seja possível acompanhar individualmente cada um dos 3.172 animais registrados no Piauí até uma eventual exportação. GTA, abate e exportação são etapas diferentes. Os documentos comprovam a movimentação declarada em direção aos estabelecimentos baianos; não comprovam que a pele de cada animal tenha posteriormente chegado à China.

Uma decisão da Justiça mudou o cenário em 2026

Quando a rota parecia explicada, surge uma nova complicação.

Em 13 de abril de 2026, a 1ª Vara Federal da Seção Judiciária da Bahia determinou a proibição do abate de jumentos, muares e bardotos em todo o estado.

Segundo a Justiça Federal, a decisão ocorreu depois que o processo apontou práticas em desacordo com normas sanitárias e de bem-estar animal, incluindo casos de maus-tratos e transporte inadequado, além de risco à sobrevivência da espécie. A sentença também alcançou a captura, compra e confinamento quando destinados ao abate.

A decisão cria um ponto importante na interpretação dos números divulgados pela Adapi em agosto. As informações publicadas sobre as 3.172 GTAs de 2026 não apresentam a data individual de cada movimentação.

Por isso, não é possível concluir apenas a partir desse total quantos deslocamentos ocorreram antes ou depois da sentença nem afirmar que todos os 3.172 animais foram efetivamente abatidos.

Essa diferença é fundamental para compreender a história sem transformar a dimensão da rota em uma conclusão que os documentos disponíveis não permitem.

O número de jumentos despencou no Brasil e entrou no centro da disputa

A discussão ficou ainda maior quando deixou de envolver apenas as condições de transporte e abate e passou a incluir uma pergunta sobre o futuro da própria população de jumentos no país.

Durante audiência realizada na Câmara dos Deputados em maio de 2026, representantes da The Donkey Sanctuary apresentaram um dado contundente: o número de jumentos no Brasil teria passado de aproximadamente 1,3 milhão no fim da década de 1990 para 78 mil em 2025.

Isso representa uma redução de cerca de 94%. Cientistas e organizações de proteção animal relacionam a queda, entre outros fatores, à exploração comercial dos animais para abastecer o mercado internacional de peles.

O assunto também chegou ao Congresso. O Projeto de Lei 2.387/2022 pretende proibir o abate de equídeos e equinos para comércio de carne destinada ao consumo ou à exportação e, atualmente, consta na Câmara como pronto para pauta na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

O debate envolve interesses diferentes. De um lado estão especialistas e entidades que apontam risco para a população de jumentos e problemas de bem-estar animal. De outro, existe uma atividade econômica que, sob determinadas condições sanitárias e regulatórias, já foi reconhecida pela legislação brasileira e movimentou frigoríficos e exportações.

Do sertão brasileiro a uma indústria do outro lado do mundo

Durante gerações, o jumento esteve ligado ao cotidiano do sertão, carregando pessoas, água e mercadorias e ocupando um papel importante no trabalho rural. A chegada de motocicletas e outros veículos reduziu progressivamente essa função em muitas regiões.

Ao mesmo tempo, a milhares de quilômetros dali, uma indústria chinesa passou a demandar milhões de peles para fabricar um produto tradicional. Os dois movimentos acabaram se encontrando.

É isso que os 3.172 jumentos registrados no Piauí em 2026 ajudam a revelar. Uma movimentação que começa em municípios como Marcos Parente e Floriano, atravessa estradas até chegar à Bahia e se conecta a uma cadeia comercial que alcança a China.

A resposta à pergunta que abre essa história é, portanto, relativamente simples: a China tem interesse principalmente na pele desses animais por causa da produção do ejiao.

O que vem depois da resposta é mais complexo. A mesma cadeia que transformou uma parte do jumento em mercadoria internacional passou a ser confrontada por decisões judiciais, propostas no Congresso e alertas sobre a redução da população da espécie.

Entre o Piauí e a China existe uma rota que vai muito além dos quilômetros percorridos pelos animais — ela coloca frente a frente uma tradição centenária, um mercado global e o futuro de um dos animais mais associados à história do sertão brasileiro.