Gui Ventura fugia do quartel para ser artista e agora vive Gilberto Gil no teatro
Fonte: veja.abril.com.br | Data: 21/08/2026 08:02:55

Antes de dar voz e corpo a Gilberto Gil, 84, Gui Ventura, 38, transformou a própria vida em uma extensa sala de ensaio. Mineiro de Santa Luzia, cantor e ator desde a infância, ele fechou a agenda profissional em abril, mergulhou em entrevistas e documentários e passou a estudar cada gesto, pausa e ressonância vocal do músico baiano. Quase ficou de fora: adiou a inscrição até os últimos momentos por medo de ser escolhido e não dar conta do papel. “Fiquei me autossabotando. Meu medo era me inscrever, ser chamado para fazer e não dar conta do recado. Sou muito fã do Gilberto Gil e tinha essa responsabilidade toda”, contou à coluna GENTE.
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A aprovação veio quando Gui estava de mochila nas costas, prestes a embarcar para São Paulo, onde gravaria outro trabalho. Entre a preocupação de não perder o avião e o impacto da notícia, ficou “meio estático”. Depois, não aceitou mais nenhum convite e iniciou uma rotina que começava oficialmente às 9 horas e terminava às 17 horas, mas continuava em casa, entre músicas, vídeos, textos e mapas desenhados para organizar tudo o que descobria. “Colocava o limite de trabalhar em casa até as 10 da noite para conseguir dormir. Se fosse até meia-noite, a cabeça não desligava. Chega uma hora em que mais trabalho não é eficiente. O descanso é mais importante”, afirmou.
O cuidado se estendeu ao prato e à academia. Para enfrentar as mais de duas horas do espetáculo, Ventura passou a controlar alimentos que poderiam prejudicar a voz e reforçou os exercícios físicos. “O musical é uma maratona maluca. Você precisa estar com o sono regular e cuidar da alimentação. Não pode comer alimentos inflamatórios, porque pode dar muito muco, nem muita gordura, porque pode dar refluxo. O corpo precisa estar forte para dar conta”, explicou. Os próprios ensaios, segundo ele, já funcionam como outra academia, com trabalho diário de voz, corpo, texto, coreografia e música.
A disciplina necessária para o papel não é exatamente uma novidade. Antes de viver exclusivamente da arte, Ventura passou seis anos no militarismo, embora já mantivesse uma carreira paralela e encontrasse maneiras criativas de escapar da farda. “Já era artista. Fugia do quartel para fazer show, dava atestado para fazer turnê”, revelou. Por ser um artista periférico, enxergava o emprego como uma ponte financeira, mas acabou percebendo que estava em um ambiente oposto à própria essência. Durante o período, procurou funções administrativas, deu aulas no Proerd e evitou ao máximo trabalhar nas ruas. “Em seis anos, devo ter trabalhado um ano na rua. E foi meio que uma punição, porque já não estava sendo um bom militar.”
O encontro com Gil ajudou a aliviar o peso que o ator carregava. Ao tocar com o ídolo, errou um trecho da letra e pediu desculpas. Ouviu como resposta: “Só não tropeça quem não anda”. Gil ainda o aconselhou a ser ele mesmo no palco. Quando Gui prometeu que faria o melhor que pudesse, o cantor corrigiu: “Tira o melhor. Faça o que você puder”. “Isso tirou de mim uma carga muito grande. Pensei: ‘Calma, vamos lá. É um trabalho, e a gente vai mergulhar e fazer o que pode’”, disse.
Com texto de Newton Moreno e direção de Falabella, Gil – Andar com Fé – O Musical estreia em 20 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo. O espetáculo, apresentado como a primeira biografia musical de Gil, percorre desde a infância na Bahia até a Tropicália, a prisão e o exílio em Londres.