CRÍTICA: ‘Nosso Segredo’ é um filme de horror à mineira
Fonte: otempo.com.br | Data: 21/08/2026 07:03:56
GRAMADO. Os filmes mineiros sempre se pautaram pela jornada exterior, num sentido urgente de ir para a rua ou cair na estrada, desde os filmes de Carlos Alberto Prates Correia, passando por “O Grande Mentecapto” e os filmes de Cão Guimarães, até chegar em Helvécio Marins, Clarissa Campolina e Marília Rocha. Mas recentemente há um movimento contrário, do entendimento da casa como centro da narrativa, com “Nosso Segredo” como maior exemplo.
Apresentado na noite desta quinta-feira (20) no Palácio dos Festivais, dentro da mostra competitiva do Festival de Gramado, na serra gaúcha, o filme escrito e dirigido pela mineira Grace Passô se desenvolve praticamente do portão para dentro. Depois que um médium (ou pai de santo) observa para Gilson que ele teria deixado algo importante na rua, após o início de uma conversa sobre saudade, o carro do motorista de aplicativo entra na garagem e conduz o espectador para a sua casa.
Esta casa da periferia de Belo Horizonte vai, literalmente, ganhando vida, a começar por manchas no teto e um líquido marrom que escorre pela parede. Entendemos que cada membro da família ainda passa por uma espécie de luto, após a morte do patriarca. A casa absorve esse sentimento coletivo, sentindo-se abandonada. Barulhos diversos fazem parte desse dia a dia, numa poluição sonora crescente. O estranhamento se espalha, sem ninguém entender o que está acontecendo.
Entramos no universo do horror, um horror à mineira, em que a casa ganha outro significado, dentro da nossa identidade cultural. A casa é um espaço sagrado de unidade familiar, mas o que vemos é o afastamento gradual entre eles. Grace Passô trabalha esse lugar profanado com uma grande força sonora, aumentando o caráter fantasmagórico. Os seis integrantes da casa parecem surdos a esses avisos, como se fossem zumbis. Talvez falte amor, como uma amiga avisa a um dos filhos.
Uma das cenas finais traz Gilson deitado nu na cama, em posição fetal. Junto a uma vital reforma da casa, essa sequência de “Nosso Segredo” evidencia a necessidade do restabelecimento do vínculo familiar. As investidas no fantástico são simbolizadas por um animal, o que nos faz lembrar de algumas animações do diretor japonês Hayao Miyazaki, especialmente “A Viagem de Chihiro”, na qual os pais são transformados em porcos como uma metáfora sobre a falta de consciência.
O mundo de encantados que o filme evoca nos traz também o cinema sensorial e místico do tailandês Apichatpong Weerasethakul, principalmente no que diz respeito à memória e à culpa. Adaptação da peça “Amores Surdos”, que deu a Grace o prêmio Shell de melhor texto, “Nosso Segredo” se junta a um cinema mineiro que, em sua vanguarda, busca restabelecer o lugar da casa como tradição familiar, já visto em produções da Filmes de Plástico.
A busca por essa tradição tem uma nova geografia social, a partir da periferia e de corpos negros. Com Grace Passô, ela revestida de uma leitura religiosa. Ela é imprescindível neste momento em que é preciso se desnudar, a exemplo do que o personagem de Robert Frank faz, e sentir a beleza das vozes do passado. Mesmo que seja por uma gravação antiga de celular – apresentada numa das mais emocionantes imagens do cinema brasileiro atual.
(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Cinema de Gramado