Met Office prevê El Niño de 2026 como o maior da memória viva; pico pode superar 3 °C
Fonte: sopacultural.com | Data: 21/08/2026 18:48:02
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O Met Office afirmou nesta sexta-feira, 21 de agosto, que o El Niño em desenvolvimento no Pacífico pode se tornar o maior da memória viva e provavelmente o mais intenso desde o século XIX. Seu sistema de previsão aponta anomalias superiores a 3 °C na temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 nos próximos meses. A marca ainda é uma projeção, não uma temperatura já observada. A NOAA também elevou substancialmente suas estimativas: em agosto, calcula mais de 90% de chance de um evento “muito forte” no segundo semestre e no inverno 2026-2027 do Hemisfério Norte. O avanço do fenômeno amplia riscos para agricultura, preços de alimentos, geração de energia, hidrovias e cadeias globais de suprimentos.
Destaques
- O Met Office prevê anomalias superiores a 3 °C na região Niño 3.4 nos próximos meses.
- O órgão britânico classifica o episódio como potencialmente o maior da memória viva e provavelmente o maior desde o século XIX.
- A NOAA estima mais de 90% de chance de um El Niño muito forte no outono e inverno de 2026-2027 no Hemisfério Norte.
- Para outubro a dezembro, a NOAA calcula 69% de probabilidade de um evento histórico em sua métrica RONI, acima de +2,5 °C.
- O Programa Mundial de Alimentos estima que o episódio pode empurrar ao menos 49 milhões de pessoas adicionais para insegurança alimentar aguda até o fim de 2027.
- No Brasil, os riscos incluem excesso de chuva no Sul, seca e calor no Norte e impactos distintos sobre café, açúcar, transporte fluvial e energia.
O El Niño de 2026 está ganhando força mais rapidamente do que as projeções feitas no início do fenômeno e pode atingir uma intensidade sem equivalente nos registros climáticos modernos. Nesta sexta-feira, 21 de agosto, o Met Office, serviço meteorológico nacional do Reino Unido, afirmou que suas previsões apontam para o maior El Niño da memória viva e “provavelmente” o maior evento do tipo desde o século XIX.
A previsão mais extrema do órgão britânico mostra anomalias superiores a 3 °C na temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, área do Pacífico equatorial usada como referência para acompanhar o fenômeno. O valor é projetado para os próximos meses e não deve ser confundido com uma temperatura já observada.
“Um El Niño típico” eleva as temperaturas do Pacífico equatorial entre cerca de 1 °C e 2 °C, segundo o Met Office, que considera 2 °C um episódio de grande magnitude. Adam Scaife, chefe de previsões de longo prazo da instituição, disse que nunca havia visto um sinal tão intenso nos modelos do órgão e ressaltou que o cenário continua condicionado à confirmação das previsões.
NOAA também elevou drasticamente a probabilidade de um evento extremo
A trajetória das previsões mostra como a avaliação mudou em poucos meses.
Em junho, quando a NOAA declarou oficialmente o início do El Niño, sua estimativa apontava 63% de probabilidade de um evento “muito forte” entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Dois meses depois, o cenário ficou significativamente mais extremo.
Na atualização de 13 de agosto, o Climate Prediction Center da NOAA passou a indicar mais de 90% de chance de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno de 2026-2027 no Hemisfério Norte. Para o trimestre outubro-dezembro, o órgão calculou ainda 69% de probabilidade de um evento “histórico”, definido nessa projeção por um RONI médio de pelo menos +2,5 °C.
As probabilidades oficiais de intensidade publicadas em agosto chegam a 95% para a categoria de pelo menos +2 °C entre outubro e dezembro e a 90% entre novembro e janeiro.
As métricas da NOAA e do Met Office não são perfeitamente intercambiáveis. O Met Office apresenta projeções de anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, enquanto a NOAA também trabalha com o Relative Oceanic Niño Index, ou RONI, que ajusta o índice ao aquecimento médio dos trópicos. Ainda assim, os sistemas apontam na mesma direção: um episódio situado no extremo superior da distribuição histórica.
Mais de 3 °C é previsão, não observação atual
Essa distinção é especialmente importante porque uma leitura apressada das projeções pode dar a impressão de que o Pacífico já ultrapassou a marca de 3 °C.
Não é o caso.
Na avaliação da NOAA publicada em 13 de agosto, o índice Niño 3.4 de julho estava em +1,4 °C. Na região Niño 1+2, mais a leste, o valor chegava a +2,9 °C. O sistema oceano-atmosfera já mostrava sinais claros de fortalecimento, mas o pico previsto ainda estava à frente.
O próprio Met Office afirma que seu modelo GloSea projeta valores acima de 3 °C na região Niño 3.4 nos próximos meses.
Essa diferença entre observação e projeção é central para interpretar o anúncio: a intensidade excepcional é hoje sustentada por vários sistemas de previsão, mas o recorde final só poderá ser determinado conforme o episódio evoluir.
El Niño não produz o mesmo impacto em todos os lugares
Um El Niño mais intenso aumenta a probabilidade de determinados padrões climáticos, mas não transforma efeitos regionais em certeza.
A própria NOAA alerta que a intensidade do fenômeno não determina automaticamente a intensidade de seus impactos em uma região específica. Eventos fortes tendem a elevar a confiança em determinados padrões, mas não os garantem.
O Met Office espera maior risco de seca no sul da África e no nordeste da Austrália, além de condições mais úmidas e tempestuosas no noroeste da Europa, incluindo o Reino Unido, durante o outono e o início do inverno boreais. Também aponta riscos de chuva abaixo da média em partes da América Central, oeste do Pacífico e América do Sul tropical.
Brasil terá riscos opostos entre regiões
Para o Brasil, o efeito econômico não é uniforme.
No Sul, o padrão associado ao El Niño tende a favorecer mais chuva. Em julho, a precipitação nas bacias hidrelétricas da região chegou a 256% da média histórica de longo prazo, segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico citados pela Reuters. Isso pode favorecer reservatórios, mas excesso de chuva também aumenta riscos de enchentes, doenças agrícolas, perdas de nutrientes e interrupções logísticas.
No Norte do país, o risco caminha na direção contrária. Condições mais secas podem afetar a bacia amazônica, navegação fluvial, produção agropecuária e geração de energia. O transporte de grãos é particularmente sensível à redução dos níveis dos rios.
Para empresas, portanto, o El Niño deve ser acompanhado não como um único “choque climático”, mas como um conjunto de riscos regionais com efeitos diferentes sobre produção, logística, energia e preços.
Café, açúcar e outras commodities entram no radar
O fortalecimento do fenômeno também amplia a volatilidade esperada nas chamadas soft commodities.
No café robusta, temperaturas mais altas e redução das chuvas podem prejudicar as safras de Vietnã e Indonésia, dois dos maiores produtores globais. Já para o arábica brasileiro, os efeitos são mais ambíguos: temperaturas mais altas reduzem inicialmente o risco de geadas durante a colheita, mas seca e calor no quarto trimestre podem ameaçar o desenvolvimento da safra de 2027.
No açúcar, excesso de chuva no Brasil durante o segundo semestre pode interromper a colheita e reduzir a qualidade da cana. Ao mesmo tempo, essas chuvas podem melhorar as condições para a safra seguinte. Índia e Tailândia enfrentam o risco inverso, com redução das precipitações.
O resultado é que um El Niño extremo não significa automaticamente alta generalizada nos preços das commodities. Os efeitos dependem da cultura, do momento do ciclo agrícola, da região produtora, dos estoques disponíveis e da resposta de outros grandes exportadores.
Há, inclusive, um amortecedor que não existia na mesma escala em episódios anteriores: estoques elevados de diversos produtos agrícolas, avanços em irrigação e sementes mais resistentes e a expansão de grandes exportadores, entre eles Brasil e Rússia. Esses fatores podem limitar parte dos impactos sobre a oferta global.
Insegurança alimentar pode crescer até 2027
Para países mais vulneráveis, entretanto, a margem de proteção é menor.
O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas estima que o El Niño de 2026-2027 possa levar pelo menos 49 milhões de pessoas adicionais à insegurança alimentar aguda até o fim de 2027. A análise abrange 45 países onde a população já enfrenta insegurança alimentar e nos quais alterações de chuva, temperatura, secas e enchentes associadas ao fenômeno podem provocar impactos relevantes.
Segundo o WFP, 274 milhões de pessoas nesses 45 países poderão estar em situação de insegurança alimentar aguda até o fim de 2027. Os efeitos podem persistir além do pico climático porque secas ou enchentes ocorridas agora afetam colheitas futuras e renda das famílias por vários meses.
A instituição já acionou medidas antecipatórias em países como Sudão do Sul, Chade, Mauritânia, Uganda, Guatemala e El Salvador.
Países começam a preparar respostas antes do pico
O Nepal é um exemplo da mobilização crescente.
Nesta sexta-feira, o ministro de Energia, Recursos Hídricos e Irrigação, Biraj Bhakta Shrestha, participou em Lalitpur da abertura de um encontro nacional sobre “Super El Niño e Risco Climático”, dedicado aos efeitos sobre água, alimentos, energia e resiliência a desastres. Ele defendeu preparação antecipada diante dos riscos para chuva, temperatura, geração hidrelétrica, irrigação e produção de alimentos.
O uso da expressão “super El Niño”, porém, exige cuidado. Ela é comum em reportagens e análises de mercado, mas não é uma categoria oficial adotada universalmente pelos serviços meteorológicos. Em abril, o próprio Met Office afirmou que não utilizava formalmente o termo, embora reconhecesse que as projeções apontavam para um episódio excepcionalmente forte.
El Niño pode empurrar 2027 para novo recorde global de calor
Outro efeito esperado está na temperatura média global.
O Met Office afirma que grandes eventos de El Niño liberam mais calor do oceano para a atmosfera e costumam produzir impacto particularmente forte no ano civil seguinte ao pico do fenômeno.
Por isso, o órgão considera “muito provável” que 2027 substitua 2024 como o ano mais quente da série global iniciada em 1850. Também projeta que o próximo ano deverá voltar a ficar temporariamente mais de 1,5 °C acima do nível pré-industrial.
Esse efeito não substitui a tendência de aquecimento causada pelas emissões humanas. O El Niño é uma oscilação natural que se soma a um planeta já mais quente, amplificando temporariamente a temperatura global e alguns extremos climáticos.
O que acompanhar agora
O principal período de atenção está concentrado no último trimestre de 2026, quando os modelos indicam que o El Niño poderá atingir sua intensidade máxima.
A próxima atualização mensal do Climate Prediction Center da NOAA está prevista para 10 de setembro de 2026. Até lá, as observações de temperatura do Pacífico, circulação atmosférica e chuvas ajudarão a mostrar se a evolução real continua acompanhando as projeções extremas.
Mais importante do que um único número será observar se as projeções acima de 3 °C se confirmam e como a intensidade do fenômeno se traduz, região por região, em chuvas, secas, produção agrícola, hidrologia e preços.
