Um cinema que reverbera
Fonte: correiodopovo.com.br | Data: 22/08/2026 11:20:44
Um festival da dimensão de Gramado não pode abrir ou fechar por acaso. O primeiro filme anuncia um tom de experiência. O último deixa uma pergunta ecoando quando as luzes se acendem. Entre um e outro, existe uma programação inteira, mas são essas duas obras que funcionam como portas de entrada e saída de um acontecimento que, há 54 anos, faz do cinema brasileiro um dos protagonistas da cena cultural brasileira.
A abertura deste ano veio com Bruno Safadi e “Antártida”, produção que amplia a escala de sua produtora e busca no suspense um mergulho na urgente e contemporânea questão da violência contra a mulher. Na paisagem extrema da estação científica brasileira, o isolamento geográfico transforma-se em metáfora. Não há para onde fugir, não há socorro imediato e todos podem ser suspeitos. “Antártida” articula tecnologia, tensão e drama humano para construir um thriller psicológico em que sobrevivência e justiça caminham lado a lado. Como a maioria dos filmes apresentados no Festival, nos últimos 15 anos, logo ganha as telonas do país.
Para encerrar, o Festival de Gramado olhou para além das fronteiras e recebeu a obra da chilena Dominga Sotomayor, que já esteve na potente tela do Festival de Cannes. Em uma ilha remota do sul do Chile, uma mulher solitária resgata uma filhote e estabelece com ela um vínculo inesperado. O gesto aparentemente simples abre caminho para ressentimentos, relações rompidas e traumas que insistem em permanecer.
Do confinamento da “Antártida”, à solidão de uma ilha chilena, com Selton Melo no elenco, há uma espécie de diálogo secreto entre os filmes. Ambos falam de isolamento, sobrevivência, vínculos e feridas que não desaparecem simplesmente porque o mundo prefere não vê-las.
Abrir com provocação e fechar com delicadeza também é uma forma de curadoria. É afirmar que Gramado pode receber os diversos públicos, críticos e outros protagonistas da cadeia do audiovisual, e deixar marcas. O importante é que, em todos os círculos, o cinema permaneça reverberando depois das sessões, e depois dos Kikitos.