“Nosso Segredo” ganha o Kikito de melhor filme em noite de celebração negra no Festival de Gramado
Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 23/08/2026 04:44:46

Artistas negros dominaram a premiação do 54º Festival de Cinema de Gramado, na noite deste sábado (22). O Kikito de melhor filme foi para Nosso Segredo, que tem roteiro e direção de Grace Passô e que é sobre o luto de uma família negra de Belo Horizonte. A veterana Teca Pereira levou o troféu de melhor atriz, por Feito Pipa, que também valeu a Lázaro Ramos a vitória como ator coadjuvante. Christian Malheiros, protagonista de Justino: Nos Bastidores do Reino, recebeu o prêmio de melhor ator, categoria em que houve um empate — José Loreto, de Chorão: Só os Loucos Sabem, também ganhou. Naruna Costa triunfou como atriz coadjuvante por Pele de Rinoceronte. E o júri concedeu menções honrosas para as interpretações de Yuri Gomes (Feito Pipa) e Onna Silva (Justino).
O parágrafo acima permite vislumbrar outra marca da cerimônia no Palácio dos Festivais: o júri formado pelo cineasta Fabio Meira, pelos atores Marcelo Serrado, Helena Ranaldi e Cris Vianna e pela pesquisadora Kênia Freitas promoveu uma divisão quase igualitária dos Kikitos entre os longas-metragens brasileiros de ficção, e nenhum dos seis concorrentes saiu de mãos abanando. Em cartaz nos cinemas a partir de quinta-feira (27), Nosso Segredo conquistou três categorias no total — as outras duas foram fotografia (com Wilssa Esser) e direção de arte (Lucas Osório). Feito Pipa também ganhou três; Chorão, Justino e Leite em Pó ficaram com dois troféus cada; e Pele de Rinoceronte, com um (confira logo abaixo a lista completa de premiados).

Se parece política de boa vizinhança, também é verdade que o júri gerou e manteve suspense até o final sobre quem levaria o Kikito mais cobiçado. Já impulsionada pelos prêmios de atuação, a candidatura de Feito Pipa foi turbinada com a vitória de Allan Deberton em melhor direção — categoria que ele já tinha ganhado em 2019, por Pacarrete. E, como aconteceu naquele Festival de Gramado, seu novo filme também recebeu o troféu do Júri Popular.
Com estreia nos cinemas marcada para 5 de novembro, Feito Pipa é sobre Gugu (papel de Yuri Gomes), um guri queer do interior do Ceará que mora com a vó Dilma (Teca Pereira), que está começando a demonstrar sinais de Alzheimer. Por causa de sua sexualidade, o menino não tem uma boa relação com o pai (Lázaro Ramos) e sofre bullying na escola.

Ao ser anunciada como vencedora do Kikito de melhor atriz, Teca, 74 anos, foi aplaudidíssima e ovacionada — “Rainha!”, gritavam uns; “Saravá!”, diziam outros. No palco, agradeceu “a Deus em primeiro lugar, por me dar energia e saúde”, disse que tem receio de que aconteça com ela o que ocorreu com sua personagem e mandou “um beijo de amor” para seu companheiro, Sergio Amaral:
— O amor ainda existe, e a vida vale a pena.
Lázaro, ao agradecer por seu prêmio de coadjuvante, celebrou o seu encontro com Teca Pereira, com Yuri Gomes e com Allan Deberton, a quem ele conheceu no Festival de Gramado de 2019 — e, após ver Pacarrete, pediu para trabalhar com o diretor. O ator disse que realmente não esperava ganhar um Kikito:
— Em geral, ganha-se prêmio por cena de catarse, de grito, e este trabalho é de outro tipo. Obrigado ao Allan pela sensibilidade ao falar de preto, de homossexualidade e de família. E quero dedicar para o João Vicente e a Maria Antônia (seus filhos com a atriz Taís Araújo). Este filme também é sobre ser um pai melhor. Eu juro que vou continuar tentando!

Naruna Costa também falou sobre os temas de seu filme ao ser premiada como atriz coadjuvante por Pele de Rinoceronte, no qual encarna uma advogada que trabalha nas estratégias da acusação em um caso de feminicídio ocorrido quando o crime nem tinha esse nome no Brasil. Seu discurso foi um dos mais fortes da noite:
— Este prêmio significa uma boa vingança. A vingança das mulheres que foram assassinadas por seus maridos, seus namorados, seus colegas, homens que não aguentam ver as mulheres livres. A vingança das mulheres que foram assassinadas psicologicamente, pela violência doméstica, pelo abuso.

Suas palavras ressoaram no agradecimento de Onna Silva, que em Justino interpreta Danuza, uma travesti dedicada a socorrer e a acolher vítimas da epidemia de aids na Nova York do início dos anos 1990.
— Faz 10 anos que sou uma mulher trans e faz 10 anos que trabalho no audiovisual. É muito difícil ser artista, mas é impossível não ser. E é tão difícil ser travesti, mas eu sou uma mulher livre e grata.

Logo depois das menções honrosas a Onna Silva e Yuri Gomes, foi anunciado o Prêmio da Crítica, que consagrou Leite em Pó, filme rodado em Natal, no Rio Grande do Norte, com Vinícius de Oliveira no papel principal e ainda sem data de estreia. O diretor Carlos Segundo, que já havia subido duas vezes ao palco (primeiro para representar Waldir Xavier, laureado na categoria de desenho de som, depois com Rafael Copel, coautor do roteiro eleito o melhor do festival), brincou, fazendo referência a uma tradição do quadro de TV Os Gols do Fantástico:
— Acho que a gente pode cantar uma música agora.
Vale reproduzir na íntegra o texto que justifica a escolha da comissão formada pelos críticos Rafael Valles, Flavia Guerra, Pâmela Eurídice, Simone Zuccolotto e Victor Souza: “Sem ficar preso a um enredo óbvio, sua narrativa apresenta um personagem à deriva, atravessado por errâncias e indefinições diante da vida. Inventivo, autoral e ousado, o filme encontra o humor nas situações mais inusitadas, construindo uma abordagem que transita entre o estranhamento e o encantamento. De estrutura fragmentária e tom sóbrio, o longa evita excessos estilísticos ou dramáticos para se construir nas pequenas tensões do cotidiano. Em meio ao luto e a memória, o desfecho se mostra sinuoso e surpreendente”.

O luto e a memória também estão presentes no grande vencedor de Gramado 2026, que é o primeiro longa-metragem como diretora da atriz mineira Grace Passô, premiada no Festival de Brasília por Temporada (2018) e no Festival do Rio por Praça Paris (2017) e O Dia que te Conheci (2023). Nascido de uma peça de sua autoria (Amores Surdos), Nosso Segredo acompanha a tentativa de uma família negra de Belo Horizonte de reconstruir a rotina após a morte do pai.
Cada um tem seu jeito de esconder sua dor. A mãe, Suely (encarnada por Ju Colombo), mergulha nos afazeres domésticos. Gilson (Robert Frank), o filho mais velho, motorista de aplicativo, foge para o trabalho. Guto (Flip) vai para a boemia, e Grazi (Jéssica Gaspar) se prostra diante da TV e do computador. Vivem no mesmo espaço físico, mas não compartilham o campo emocional: há paredes entre eles. O silêncio ecoa.
Talvez quem fale mais — mesmo que através de um encanamento e sem um interlocutor aparente — seja o caçula Tutu (Efraim Santos). O menino serve de ponto de vista para o espectador diante do misterioso vazamento que se alastra pela casa e dos sons estranhos e pesados que são ouvidos.
Com quem Tutu fala? Qual é a origem do vazamento? O que produz esses sons?
Esses são alguns dos enigmas de Nosso Segredo, que tem coragem de cruzar o realismo cotidiano com a magia do absurdo. No comando do filme, Grace Passô rima firmeza com delicadeza. A diretora lança um olhar muito afetuoso para seus personagens, e o elenco retribui com uma atuação homogênea. Em todas as cenas do filme, resplandece o trabalho impecável da equipe técnica (incluindo a linda trilha sonora composta pelo pianista Amaro Freitas, muito mais merecedora do Kikito do que as genéricas canções em inglês criadas por Otávio de Moraes para a cinebiografia do Chorão).
Não por acaso, Grace Passô disse o seguinte ao receber o troféu de melhor filme:
— Era o prêmio que eu mais queria ganhar porque explicita a força coletiva deste filme. Este é um projeto longo e com muitas pessoas envolvidas. Foram mais de 150.

Grace agradeceu à sua equipe, à sua família, que emprestou a casa para o filme, ao seu terreiro, e, principalmente, ao ator mirim Efraim Santos — piá que, de terno, gravata borboleta e tênis, deu show de elegância no Palácio dos Festivais.
— Efraim, você nos fez muito melhor. Você nos uniu, você me tornou uma diretora melhor — disse Grace. — Maior do que esse prêmio foi eu ter te conhecido.
Todos os ganhadores dos Kikitos
- Melhor filme: Nosso Segredo, de Grace Passô
- Melhor direção: Allan Deberton, por Feito Pipa
- Melhor atriz: Teca Pereira, por Feito Pipa
- Melhor ator: José Loreto, por Chorão: Só os Loucos Sabem, e Christian Malheiros, por Justino: Nos Bastidores do Reino
- Melhor atriz coadjuvante: Naruna Costa, por Pele de Rinoceronte
- Melhor ator coadjuvante: Lázaro Ramos, por Feito Pipa
- Melhor roteiro: Carlos Segundo e Rafael Copel, por Leite em Pó
- Melhor fotografia: Wilssa Esser, por Nosso Segredo
- Melhor montagem: André Finotti e José Eduardo Belmonte, por Justino: Nos Bastidores do Reino
- Melhor direção de arte: Lucas Osório, por Nosso Segredo
- Melhor desenho de som: Waldir Xavier, por Leite em Pó
- Melhor trilha musical: Otávio de Moraes, por Chorão: Só os Loucos Sabem
- Menções honrosas de interpretação: Yuri Gomes, por Feito Pipa, e Onna Silva, por Justino: Nos Bastidores do Reino
- Melhor filme pelo Júri Popular: Feito Pipa, de Allan Deberton
- Melhor filme pelo Júri da Crítica: Leite em Pó, de Carlos Segundo
- Melhor documentário: Gonzaguinha, da Maior Liberdade, de Susanna Lira
- Menção honrosa: Empeleitada, de Micaele Xucuru, Chico Ludermir e Sergio Borges
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