Uber diz que carro autônomo no Brasil leva décadas – SpaceMoney
Fonte: spacemoney.com.br | Data: 24/08/2026 01:05:52
O avanço dos veículos autônomos dentro da operação global do Uber esbarra em uma realidade de custo imposta pelos mercados emergentes, especialmente Brasil e Índia. Em entrevista ao podcast 20VC, o COO da companhia, Andrew Macdonald, afirmou que a tarifa média paga pelos passageiros brasileiros fica entre US$ 3,50 e US$ 4, enquanto na Índia esse valor cai para uma faixa de US$ 2,50 a US$ 3. Segundo ele, será necessário esperar décadas até que a tecnologia embarcada nos carros autônomos se torne barata o suficiente para competir com o trabalho humano nesses países.
A declaração tem peso estratégico para o setor de mobilidade. Macdonald, que entrou no Uber em 2012 e hoje é o funcionário mais antigo da empresa, deixou claro que a meta de tornar a maioria das viagens totalmente autônoma depende, na prática, da viabilidade econômica em mercados de tarifa baixa. Enquanto isso não acontece, o crescimento da companhia continua apoiado na força de trabalho convencional, inclusive em praças onde a frota autônoma já circula, como San Francisco e Los Angeles.
Viagens autônomas ainda são fração mínima do negócio
Os números apresentados pelo executivo ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. O Uber realiza cerca de 300 milhões de viagens por semana em todo o mundo, mas apenas alguns milhões de corridas mensais são feitas com veículos autônomos. Na prática, a participação das viagens autônomas no total da plataforma segue ínfima, o que reforça a tese de que a revolução prometida pelo setor ainda está distante de se tornar hegemônica.
Macdonald usou esses dados para rebater a principal crítica que persegue o Uber na última década: o fato de a empresa não ter desenvolvido um projeto próprio de veículo autônomo. Para ele, a narrativa em torno da autonomia esteve, por muitos anos, muito à frente da realidade operacional e financeira do setor. O executivo lembrou que a companhia vendeu a ATG, seu braço de veículos autônomos, no auge da pandemia, em um momento em que o negócio de mobilidade perdeu 84% da receita bruta em apenas três semanas.
Estratégia de focar no core business parece ter acertado
A decisão de se desfazer da unidade de autonomia e concentrar esforços na operação de mobilidade tradicional é vista internamente como acertada. Macdonald afirmou que o Uber não se enxergava na liderança do desenvolvimento de veículos autônomos e preferiu focar no que sabe fazer melhor. Em termos de balanço, a leitura é de que a estratégia produziu resultados sólidos até aqui, com a companhia avaliada em cerca de US$ 160 bilhões na bolsa.
Quando questionado sobre o impacto competitivo de Waymo e Tesla, o COO adotou tom conciliador. Ele avalia que o setor terá espaço para múltiplos vencedores e demonstrou expectativa de que tanto Waymo quanto Tesla coloquem seus veículos para operar dentro do aplicativo do Uber. A postura indica que a empresa prefere atuar como plataforma agregadora de frotas autônomas de terceiros a investir pesadamente no desenvolvimento próprio dessa tecnologia.
Impacto para o mercado brasileiro
Para o Brasil, a fala do executivo funciona como um sinal de alerta sobre o ritmo de modernização da frota local. Se a autonomia plena depende de uma equação de custos que só se viabiliza com tarifas mais altas, o país dificilmente será prioridade nos primeiros ciclos de expansão dessa tecnologia. A expectativa, segundo a avaliação do COO, é de um processo lento, gradual e fortemente condicionado pela evolução dos preços dos componentes e sensores.
A posição do Uber também escancara uma contradição estrutural do setor: enquanto as grandes tecnologias de direção autônoma avançam nos países desenvolvidos, os mercados que mais geram volume de corridas para a plataforma permanecem dependentes de motoristas humanos. Essa combinação sustenta o modelo atual de negócios da empresa, mas adia qualquer perspectiva de transformação radical na experiência de mobilidade em economias emergentes como a brasileira.