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Febre do Nilo Ocidental: o que se sabe sobre vírus que matou uma pessoa no Brasil

Fonte: oglobo.globo.com | Data: 28/08/2026 03:09:58

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Na última segunda-feira, 24 de agosto, a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo confirmou os dois primeiros casos humanos de febre do Nilo Ocidental: uma mulher de 34 anos, de Ribeirão Preto, que já se recuperou, e uma jovem de 18 anos, de São José do Rio Preto, que permanece internada.

A primeira paciente viajou recentemente para a região amazônica, mas o local provável de infecção dos dois casos ainda está sob investigação. Até agora, a autoridades de saúde não divulgaram quais foram os sintomas específicos apresentados pelas duas pacientes.

No mesmo dia, Santa Catarina confirmou que uma senhora de 77 anos, moradora de Imbituba, no litoral do estado, falecida em 8 de agosto depois de apresentar febre e evoluir para um quadro neurológico grave, estava infectada pelo vírus do Nilo Ocidental. Santa Catarina registrou ainda um segundo caso, em um homem de 56 anos, de Caçador, que apresentou manifestações neurológicas, foi internado e já recebeu alta.

Com os dois registros paulistas e os dois catarinenses, o Brasil soma quatro casos confirmados em 2026, um deles com morte. Há ainda um caso provável no Piauí. A notícia assustou. Vamos por partes.

Causada pelo vírus do Nilo Ocidental (West Nile virus, WNV), cujo nome científico é Orthoflavivirus nilense, a doença não é uma novidade no país: o vírus circula no Brasil há quase 20 anos. Nós é que não estávamos olhando para ele. Também não vai se tornar uma epidemia como a dengue, como muita gente receia.

Que doença é essa? Quais são os sintomas?

O vírus do Nilo Ocidental é, originalmente, um vírus de aves. Ele circula entre aves silvestres e é transmitido principalmente por mosquitos do gênero Culex. Sim, é aquele pernilongo comum, que entra pela janela, zumbe no ouvido de madrugada e se cria em água com muita matéria orgânica, como a de fossas, valas e esgoto a céu aberto.

E o que acontece com quem é picado por um mosquito infectado? Na esmagadora maioria das vezes, nada. Cerca de 80% das pessoas infectadas não apresentam sintomas e nem sequer sabem que foram infectadas.

Vacinação contra a dengue no DF

Vacinação no DF contra a dengue deixou pais frustrados por restrição ainda maior na idade permitida — Foto: Karolini Bandeira / O Globo

Vacinação no DF contra a dengue deixou pais frustrados por restrição ainda maior na idade permitida — Foto: Karolini Bandeira / O Globo

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Vacinação no DF contra a dengue deixou pais frustrados por restrição ainda maior na idade permitida — Foto: Karolini Bandeira / O Globo

Júlia Louise, 10 anos e a equipe do SUS. A mãe Érica Kellen, 28, levou ela da escola para vacinar na UBS 2 do Guará, DF — Foto: Karolini Bandeira/ O Globo

Júlia Louise, 10 anos e a equipe do SUS. A mãe Érica Kellen, 28, levou ela da escola para vacinar na UBS 2 do Guará, DF — Foto: Karolini Bandeira/ O Globo

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Júlia Louise, 10 anos e a equipe do SUS. A mãe Érica Kellen, 28, levou ela da escola para vacinar na UBS 2 do Guará, DF — Foto: Karolini Bandeira/ O Globo

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Malu Araújo, 11 anos, e a mãe, Juliana Araújo, na UBS 2 da Asa Norte, no primeiro dia de vacinação contra dengue — Foto: Karolini Bandeira/ O Globo

Malu Araújo, 11 anos, e a mãe, Juliana Araújo, na UBS 2 da Asa Norte, no primeiro dia de vacinação contra dengue — Foto: Karolini Bandeira/ O Globo

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Malu Araújo, 11 anos, e a mãe, Juliana Araújo, na UBS 2 da Asa Norte, no primeiro dia de vacinação contra dengue — Foto: Karolini Bandeira/ O Globo

Natália, 10, e a mãe Adriana Ruppel 48, na UBS 2 da Asa Norte — Foto: Karolini Bandeira / O Globo

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Natália, 10, e a mãe Adriana Ruppel 48, na UBS 2 da Asa Norte — Foto: Karolini Bandeira / O Globo

Distrito Federal iniciou vacinação para crianças de 10 e 11 anos nesta sexta-feira, 9.

Outros 20% têm febre, dor de cabeça, dor no corpo e, às vezes, manchas na pele. É um quadro que, no Brasil, tem tudo para ser confundido com dengue e passar sem ser investigado.

E há uma minoria — menos de 1% das pessoas infectadas, algo como uma em cada 150 — que desenvolve a forma grave. Nesses casos, o vírus atinge o sistema nervoso. Aí sim aparecem meningite, encefalite (inflamação do cérebro) ou uma paralisia parecida com a da poliomielite. Entre essas pessoas, cerca de uma em cada dez morre — e o risco dobra depois dos 70 anos.

Não existe vacina para humanos em nenhum país do mundo, nem remédio que ataque especificamente o vírus. O tratamento é de suporte.

Por que nem incomoda alguns e pode vitimar outros?

Essa é a pergunta mais interessante a ser feita, e a ciência dos últimos vinte anos deu uma resposta bem concreta.

Tudo se decide numa corrida de poucos dias. De um lado, depois da infecção pela picada do mosquito que carrega o vírus, o microrganismo se multiplica dentro do corpo humano. De outro, entra em ação a primeira linha de defesa do corpo — um grupo de substâncias chamadas interferons, que o organismo dispara nas primeiras horas de qualquer infecção viral.

Se os interferons combaterem o vírus, você nem percebe que esteve doente. Se eles falharem, o vírus ganha tempo e pode chegar ao cérebro, um dos seus destinos preferidos.

Uma das razões para ocorrerem essas raras falhas na defesa contra o vírus está nos genes: certas variantes herdadas dificultam a chegada das células de defesa ao nosso cérebro. A outra é surpreendente — cerca de 40% das pessoas que desenvolvem a forma grave têm no sangue anticorpos que atacam os próprios interferons. É o corpo sabotando a sua própria defesa, sem que a pessoa jamais suspeitasse.

E é aqui que a idade entra. Esses anticorpos autossabotadores aparecem em menos de 1% das pessoas abaixo dos 65 anos e em cerca de 5% acima dos 70. Boa parte do que chamamos de “risco da idade” é, na verdade, isso. A mulher de Imbituba tinha 77 anos.

Isso pode virar uma epidemia, como a dengue?

Não, não vai. E vale entender o motivo, porque essa dúvida pode aparecer em muitos lugares nas próximas semanas.

A dengue explode em número de casos porque o mosquito Aedes aegypti pica gente, se infecta ao picar gente e transmite a doença para gente. É um ciclo fechado, urbano, que se retroalimenta. Por isso, um bairro inteiro pode adoecer em poucas semanas.

A Covid-19 no Brasil

Um grafite representando o presidente Jair Bolsonaro e o novo coronavírus contra profissionais de saúde, em São Paulo — Foto: NELSON ALMEIDA / AFP

Um grafite representando o presidente Jair Bolsonaro e o novo coronavírus contra profissionais de saúde, em São Paulo — Foto: NELSON ALMEIDA / AFP

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Um grafite representando o presidente Jair Bolsonaro e o novo coronavírus contra profissionais de saúde, em São Paulo — Foto: NELSON ALMEIDA / AFP

Um homem segura um tanque de oxigênio em Manaus. O sistema de saúde da capital amazonense está em colapso. Unidades de tratamento intensivo do hospital da cidade estão com 100% da capacidade nas últimas duas semanas, enquanto os profissionais da área médica lutam contra a falta de oxigênio e outros equipamentos essenciais — Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

Um homem segura um tanque de oxigênio em Manaus. O sistema de saúde da capital amazonense está em colapso. Unidades de tratamento intensivo do hospital da cidade estão com 100% da capacidade nas últimas duas semanas, enquanto os profissionais da área médica lutam contra a falta de oxigênio e outros equipamentos essenciais — Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

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Um homem segura um tanque de oxigênio em Manaus. O sistema de saúde da capital amazonense está em colapso. Unidades de tratamento intensivo do hospital da cidade estão com 100% da capacidade nas últimas duas semanas, enquanto os profissionais da área médica lutam contra a falta de oxigênio e outros equipamentos essenciais — Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

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Coveiro com roupas de proteção no cemitério municipal Recanto da Paz, durante o enterro de uma vítima da COVID-19, na cidade de Breves, a sudoeste da ilha do Marajó, no Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

Coveiro com roupas de proteção no cemitério municipal Recanto da Paz, durante o enterro de uma vítima da COVID-19, na cidade de Breves, a sudoeste da ilha do Marajó, no Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

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Coveiro com roupas de proteção no cemitério municipal Recanto da Paz, durante o enterro de uma vítima da COVID-19, na cidade de Breves, a sudoeste da ilha do Marajó, no Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

Enterro, em 1º de junho, de Bruno Koki, fundador da ONG Eu Amo São Cristóvão, projeto social que entregou doações para pessoas vulneráveis durante a pandemia. Bruno morreu em decorrência da Covid-19  — Foto: RICARDO MORAES / REUTERS

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Enterro, em 1º de junho, de Bruno Koki, fundador da ONG Eu Amo São Cristóvão, projeto social que entregou doações para pessoas vulneráveis durante a pandemia. Bruno morreu em decorrência da Covid-19 — Foto: RICARDO MORAES / REUTERS

Coveiros em trajes de proteção carregam o caixão de uma vítima do novo coronavírus no cemitério Recanto da Paz, no Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

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Coveiros em trajes de proteção carregam o caixão de uma vítima do novo coronavírus no cemitério Recanto da Paz, no Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

Artistas com balões vermelhos protestam em homenagem a pessoas que morreram pela COVID-19 no país, em Brasília — Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

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Artistas com balões vermelhos protestam em homenagem a pessoas que morreram pela COVID-19 no país, em Brasília — Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

Profissional de saúde trabalha na enfermaria da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) onde são tratados pacientes infectados com o novo coronavírus, no hospital Santa Casa em Belo Horizonte, Minas Gerais — Foto: DOUGLAS MAGNO / AFP

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Profissional de saúde trabalha na enfermaria da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) onde são tratados pacientes infectados com o novo coronavírus, no hospital Santa Casa em Belo Horizonte, Minas Gerais — Foto: DOUGLAS MAGNO / AFP

Suzana Lisboa abraça seu pai, Raul Lisboa, 89 anos, através de uma cortina de plástico instalada em abrigo para idosos em São Paulo — Foto: RAHEL PATRASSO / REUTERS

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Suzana Lisboa abraça seu pai, Raul Lisboa, 89 anos, através de uma cortina de plástico instalada em abrigo para idosos em São Paulo — Foto: RAHEL PATRASSO / REUTERS

Profissionais de saúde do governo viajam de barco para visitar uma comunidade ribeirinha de Santa Maria, a fim de testar os moradores como uma medida contra a pandemia de coronavírus no sudoeste da ilha de Marajó, no Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

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Profissionais de saúde do governo viajam de barco para visitar uma comunidade ribeirinha de Santa Maria, a fim de testar os moradores como uma medida contra a pandemia de coronavírus no sudoeste da ilha de Marajó, no Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

Funcionário de limpeza desinfecta uma rua no sudoeste da ilha do Marajó, no Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

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Funcionário de limpeza desinfecta uma rua no sudoeste da ilha do Marajó, no Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

Pessoas se exercitam no primeiro dia de praias reabertas para esportes individuais, na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro — Foto: PILAR OLIVARES / REUTERS

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Pessoas se exercitam no primeiro dia de praias reabertas para esportes individuais, na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro — Foto: PILAR OLIVARES / REUTERS

Agentes de saúde testam uma moradora da comunidade ribeirinha de Roli Madeira, em no estado do Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

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Agentes de saúde testam uma moradora da comunidade ribeirinha de Roli Madeira, em no estado do Pará — Foto: TARSO SARRAF / AFP

Um agente de saúde mostra um teste Covid-19 na comunidade ribeirinha de Roli Madeira — Foto: TARSO SARRAF / AFP

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Um agente de saúde mostra um teste Covid-19 na comunidade ribeirinha de Roli Madeira — Foto: TARSO SARRAF / AFP

Imagem de coveiros enterrando uma pessoa no cemitério de Nossa Senhora Aparecida, no bairro de Tarumã, em Manaus, durante pandemia de coronavírus Foto: MICHAEL DANTAS / AFP — Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

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Imagem de coveiros enterrando uma pessoa no cemitério de Nossa Senhora Aparecida, no bairro de Tarumã, em Manaus, durante pandemia de coronavírus Foto: MICHAEL DANTAS / AFP — Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

Manifestante contrário ao governo brasileiro segura um cartaz representando o caixão de uma vítima da Covid-19 com a mensagem "30.000 mortes, e daí?", durante um protesto chamado "Amazonas pela Democracia", em referência à fala do presidente Bolsonaro — Foto: BRUNO KELLY / REUTERS

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Manifestante contrário ao governo brasileiro segura um cartaz representando o caixão de uma vítima da Covid-19 com a mensagem “30.000 mortes, e daí?”, durante um protesto chamado “Amazonas pela Democracia”, em referência à fala do presidente Bolsonaro — Foto: BRUNO KELLY / REUTERS

Pessoas são vistas através de uma câmera térmica usada para detectar altas temperaturas do corpo na rodoviária central e na estação central do metrô, em meio ao surto da doença por coronavírus (COVID-19) — Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

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Pessoas são vistas através de uma câmera térmica usada para detectar altas temperaturas do corpo na rodoviária central e na estação central do metrô, em meio ao surto da doença por coronavírus (COVID-19) — Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

Movimentação de passageiros na rodoviária central de Brasília, em meio ao surto de coronavírus — Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

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Movimentação de passageiros na rodoviária central de Brasília, em meio ao surto de coronavírus — Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

Membro do Médicos Sem Fronteiras olha para um garoto da tribo Warao, o segundo maior grupo indígena da Venezuela, que sofre de sintomas do novo coronavírus, em Manaus, no Amazonas — Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

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Membro do Médicos Sem Fronteiras olha para um garoto da tribo Warao, o segundo maior grupo indígena da Venezuela, que sofre de sintomas do novo coronavírus, em Manaus, no Amazonas — Foto: MICHAEL DANTAS / AFP

Coveiros vestindo roupas de proteção enterram o caixão de uma vítima da COVID-19, no cemitério São Luiz, em São Paulo — Foto: AMANDA PEROBELLI / Reuters

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Coveiros vestindo roupas de proteção enterram o caixão de uma vítima da COVID-19, no cemitério São Luiz, em São Paulo — Foto: AMANDA PEROBELLI / Reuters

O presidente Jair Bolsonaro entrega, com um mês de atraso e no momento mais crítico da pandemia, hospital de campanha em Águas Lindas, no estado de Goiás — Foto: SERGIO LIMA / AFP

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O presidente Jair Bolsonaro entrega, com um mês de atraso e no momento mais crítico da pandemia, hospital de campanha em Águas Lindas, no estado de Goiás — Foto: SERGIO LIMA / AFP

Profissional de saúde cuida de um paciente na enfermaria da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde pacientes infectados com o novo coronavírus estão sendo tratados no Hospital Público Doutor Ernesto Che Guevara, na cidade de Maricá, no Rio de Janeiro — Foto: MAURO PIMENTEL / AFP

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Profissional de saúde cuida de um paciente na enfermaria da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde pacientes infectados com o novo coronavírus estão sendo tratados no Hospital Público Doutor Ernesto Che Guevara, na cidade de Maricá, no Rio de Janeiro — Foto: MAURO PIMENTEL / AFP

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Veja imagens marcantes da pandemia da Covid-19 no Brasil

A febre do Nilo Ocidental depende das aves infectadas para continuar existindo. Nós somos, para esse vírus, o fim da linha: quando um mosquito pica uma ave e se infecta e depois pica uma pessoa, cria-se aí um beco sem saída. A quantidade de vírus no sangue humano é pequena demais para infectar o próximo mosquito que picar essa pessoa. Além disso, nosso sangue carrega o vírus por cerca de um a três dias somente.

Por isso, seres humanos são considerados hospedeiros acidentais ou terminais: podemos adoecer, mas não mantemos o ciclo de transmissão. O mesmo acontece com os cavalos.

Em quase trinta anos de circulação do vírus do Nilo Ocidental pelas Américas, nenhum país registrou nada remotamente parecido com os milhões de casos anuais de dengue que temos no Brasil.

Então, a febre do Nilo Ocidental não é problema?

Errado. Ela é sim um problema, mas com diversos aspectos a serem considerados. O primeiro é que os casos dessa doença existem, mas não estão sendo vistos nem diagnosticados.

Um estudo publicado no ano passado por pesquisadores brasileiros foi atrás de 561 pacientes do Ceará que tiveram febre ou problemas neurológicos sem explicação. Os pesquisadores testaram todos os indivíduos e encontraram 68 casos de febre do Nilo Ocidental — 12% do total. No entanto, oficialmente, até julho deste ano, o estado do Ceará não havia registrado nenhum caso confirmado em humanos. Não há mistério nesses números. Quem não procura, não acha.

O segundo aspecto é que o vírus não é novidade. Nós é que finalmente olhamos para ele. A análise genética do mesmo estudo mencionado acima mostra que esse microrganismo está no Brasil desde o final de 2007. Ele foi encontrado em cavalos do Pantanal em 2009, depois na Bahia, no Mato Grosso do Sul e na Paraíba, e foi isolado pela primeira vez em um cavalo no Espírito Santo em 2018.

O terceiro aspecto é que a população brasileira está envelhecendo. O grupo de 65 anos ou mais cresceu 57% entre 2010 e 2022. Desse modo, aumenta, ano a ano, exatamente a população que a doença atinge com maior gravidade.

E o quarto aspecto é o mosquito. Todo o nosso combate aos mosquitos foi desenhado contra o Aedes. Agente de saúde batendo à porta durante o dia, prato de planta, pneu, água limpa parada. Nada disso, sozinho, alcança o pernilongo comum, que encontra condições para se reproduzir em águas com muita matéria orgânica, como esgoto, fossas e valas, e pica principalmente à noite. Espécies de Culex presentes no Brasil já foram testadas em laboratório e demonstraram capacidade de transmitir esse vírus. Combater o Culex não é campanha de mutirão no fim de semana. É também saneamento básico.

E o que fazer, na prática?

Quase nada de novo — só que agora valendo também para a madrugada. Repelente ao anoitecer e ao amanhecer, telas em janelas e portas, roupas cobrindo braços e pernas perto de mata ou de locais com água suja parada. E, se houver vala, fossa aberta ou córrego poluído perto de casa, isso é conta para cobrar do poder público. Não é uma tarefa doméstica.

Quem tem mais de 60 anos, fez transplante ou faz tratamento que baixa a imunidade deve redobrar o cuidado. Em caso de febre com confusão mental, rigidez de pescoço ou fraqueza nas pernas, deve-se procurar atendimento no mesmo dia, seja qual for o vírus.

Do lado do sistema de saúde, o caminho é igualmente conhecido: investigar até o fim as meningites e encefalites sem causa definida, levar a sério quando aves e cavalos adoecem numa região — eles avisam antes de nós — e discutir a testagem de doadores de sangue onde o vírus circula. Foi assim que a Holanda encontrou seu único caso do ano e a Itália identificou 40 doadores infectados sem nenhum sintoma.

A pergunta que fica não é quantos casos o Brasil tem. É quantos casos o Brasil ainda não viu.

*Klinger Soares Faico Filho é professor de Clínica Médica e Medicina Laboratorial na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons.
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