No coração da Antártida Oriental existe uma enorme cadeia de montanhas completamente enterrada sob quilômetros de gelo, com picos e vales comparáveis aos grandes sistemas montanhosos visíveis da superfície
Fonte: oantagonista.com.br | Data: 30/08/2026 01:33:28
Sob a extensa camada de gelo da Antártida Oriental existe um relevo que ninguém consegue observar diretamente da superfície. As Montanhas Gamburtsev formam uma paisagem alpina completa, com picos elevados, cristas e vales profundos preservados sob o gelo, oferecendo aos geólogos pistas raras sobre a evolução do continente e sobre o nascimento da própria camada de gelo antártica.
Como as Montanhas Gamburtsev foram encontradas se nunca aparecem acima do gelo?
A existência da cadeia começou a ser reconhecida durante uma expedição soviética realizada no Ano Geofísico Internacional de 1957–1958. Instrumentos geofísicos revelaram grandes irregularidades no terreno enterrado, indicando que sob a superfície aparentemente uniforme havia uma cadeia montanhosa de dimensões continentais.
Décadas depois, levantamentos muito mais detalhados mostraram sua verdadeira complexidade. O projeto internacional AGAP realizou extensos voos sobre a região utilizando radar de penetração no gelo, além de medições de gravidade, magnetismo e estudos sísmicos. Os dados revelaram montanhas com aparência alpina escondidas sob uma camada que, em determinados setores pesquisados, alcança vários quilômetros de espessura.
Como radares conseguem enxergar uma cadeia montanhosa através de quilômetros de gelo?
O radar aerotransportado envia ondas de rádio em direção à superfície. Parte do sinal atravessa o gelo, alcança a interface entre a camada congelada e a rocha e retorna aos sensores do avião. Medindo o tempo dessa viagem e analisando o sinal refletido, pesquisadores conseguem estimar a espessura do gelo e reconstruir a altitude do terreno enterrado.
Milhares de medições realizadas ao longo de linhas de voo permitem criar modelos tridimensionais do relevo. Foi assim que apareceram estruturas semelhantes às encontradas em grandes cadeias montanhosas expostas, incluindo cristas pronunciadas, cabeceiras de vales e depressões escavadas pela antiga ação de rios e geleiras.
- Picos e cristas elevados preservados sob o gelo.
- Vales profundos com características de erosão glacial.
- Antigos sistemas de drenagem formados antes da glaciação continental.
- Espessas sequências de gelo cobrindo completamente o relevo.
Este vídeo apresenta a cadeia escondida e explica como diferentes evidências científicas ajudam a reconstruir sua história.
Por que a origem das Montanhas Gamburtsev continua desafiando os geólogos?
O enigma está principalmente na localização. Grandes cadeias jovens costumam estar associadas a limites tectônicos ativos, enquanto os Gamburtsev ficam no interior antigo e relativamente estável da Antártida Oriental. Pesquisas anteriores identificaram sob a região uma crosta excepcionalmente espessa e um enorme sistema de riftes, levando à hipótese de que uma antiga raiz montanhosa tenha sido rejuvenescida por episódios tectônicos posteriores.
Estudos recentes acrescentaram novas peças. Análises de minerais transportados de antigas regiões interiores sustentam a possibilidade de que grandes eventos de colisão continental tenham começado a formar esse sistema há mais de 500 milhões de anos. Entretanto, detalhes sobre sua evolução, composição e sucessivos episódios de soerguimento continuam sendo investigados porque praticamente não existem afloramentos acessíveis para amostragem direta.
Como uma paisagem tão acidentada conseguiu permanecer preservada por milhões de anos?
A glaciação continental ampla da Antártida começou aproximadamente 34 milhões de anos atrás. Evidências do relevo mostram que rios inicialmente escavaram a região e que geleiras posteriores aprofundaram alguns vales. Parte dessa paisagem alpina já existia quando a camada de gelo começou sua expansão sobre o interior do continente.
Depois que uma camada espessa e predominantemente fria se estabeleceu sobre determinadas áreas, a erosão do substrato tornou-se muito limitada. Estudos indicam que partes importantes dessa topografia podem ter permanecido excepcionalmente preservadas sob o gelo durante cerca de 14 milhões de anos ou mais. O gelo, portanto, não apenas escondeu a paisagem como ajudou a proteger antigas formas de relevo.

O que os números revelam sobre as Montanhas Gamburtsev?
Estimativas e levantamentos mostram uma cadeia com escala comparável à de grandes sistemas montanhosos conhecidos. Fontes científicas descrevem relevo subglacial superior a 3.000 metros em alguns setores e vales locais com diferenças verticais próximas de um quilômetro. O aspecto surpreendente é que nenhuma dessas montanhas rompe de maneira significativa a cobertura central de gelo.
O projeto Antarctica’s Gamburtsev Province do British Antarctic Survey reuniu equipes internacionais justamente para investigar essa região praticamente inacessível. A combinação de radar, gravimetria, magnetometria e sísmica permitiu transformar uma paisagem invisível em modelos cada vez mais detalhados do interior antártico.
| Característica | O que se sabe |
|---|---|
| Localização | Interior da Antártida Oriental |
| Cobertura | Quilômetros de gelo em diversos setores |
| Relevo | Picos, cristas e vales de aspecto alpino |
| Investigação | Radar, gravidade, magnetismo e sísmica |
Por que estudar essas montanhas também ajuda a compreender a própria Antártida?
Os Gamburtsev provavelmente tiveram papel importante na formação inicial da camada de gelo da Antártida Oriental. Modelos e evidências geomorfológicas sugerem que geleiras começaram a crescer sobre regiões montanhosas elevadas antes de se expandirem e se unirem para formar uma cobertura muito maior.
Conhecer o relevo enterrado também é fundamental para compreender como o gelo se movimenta atualmente, porque montanhas, vales e bacias influenciam sua espessura e direção de fluxo. Assim, mapear essa cadeia invisível não resolve apenas um mistério geológico antigo: fornece informações importantes para modelos sobre a história e o comportamento futuro da camada de gelo antártica.
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