Dólar com viés de alta e Ibovespa à prova diante de Copom, Fed e eleição: o que esperar de setembro
Fonte: estadao.com.br | Data: 31/08/2026 18:37:47
Dólar se impõe como principal risco no 2º semestre, diz economista-chefe da Ágora
Câmbio tende a se sobrepor a fiscal e eleições, em meio a juros elevados no Brasil e incertezas nos EUA, observa Dalton Gardimam. Crédito: Marilia Almeida
O dólar comercial hoje encerrou o último pregão de agosto cotado a R$ 5,118, enquanto o Ibovespa fechou aos 177.418 pontos. Os números desta segunda-feira (31) marcam o fim de um mês de forte oscilação para os dois ativos, comportamento que deve ser verificado também em setembro.
O mercado financeiro em agosto foi influenciado pela temporada de balanços corporativos, pela saída de capital estrangeiro, pelas tensões entre Estados Unidos e Irã e pela aproximação das eleições presidenciais de outubro.
Para setembro, economistas e especialistas em investimentos avaliam que tanto o dólar quanto o Ibovespa devem manter a instabilidade. Segundo eles, o mês reunirá uma combinação pouco comum de eventos.
Destaques para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central (BC) responsável por definir a taxa básica de juros, a Selic, a reunião do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, e o avanço do calendário eleitoral brasileiro.
De acordo com as projeções reunidas, a tendência é de dólar em alta e de um Ibovespa sem direção definida, à mercê de notícias políticas e do exterior.
Ibovespa passa por dois momentos distintos
Ao longo de agosto, o Ibovespa amargou uma primeira quinzena de perdas acentuadas. Milene Dellatore, especialista em finanças e investimentos e sócia-diretora do Grupo Mide, pontua que o índice chegou a cair para a região dos 166 mil pontos com uma sequência de onze pregões consecutivos de baixas. Depois disso, houve uma recuperação de nove altas seguidas, com avanço de 5,3% a partir do dia 18.
Segundo Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, o mês teve duas fases bem distintas. Na primeira metade, diz ele, a Bolsa de Valores sofreu com a saída de capital estrangeiro, o aumento da incerteza eleitoral e fiscal e a percepção de que a Selic deve cair menos do que se esperava, somados à alta do petróleo e às tensões no Oriente Médio.
Na sequência, afirma Perri, o índice recuperou parte das perdas com a melhora do fluxo estrangeiro, a recuperação de Vale (VALE3) e Petrobras (PETR3; PETR4) e pesquisas eleitorais mais equilibradas.
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Bruno Schmidt, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, explica que fatores externos também contribuíram para a retomada da Bolsa na reta final do mês.
“Do lado de fora, quem ajudou foi os EUA, o PCE (Índice de Preços para Gastos de Consumo Pessoal, em tradução livre) de julho veio dentro do esperado, o mercado ficou de olho no Jackson Hole com o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, falando, e o balanço da Nvidia, que hoje é praticamente o termômetro do apetite por risco global, veio bom e contagiou todo mundo, inclusive nós aqui”, diz o especialista.
Fluxo estrangeiro e resultados de empresas deixam marca na Bolsa
Além do desempenho setorial, o mês também deixou marcas na dinâmica de capital estrangeiro e nos resultados corporativos. Segundo Milene, o saldo do investidor estrangeiro no Ibovespa ficou negativo em aproximadamente R$ 18,7 bilhões em agosto, uma saída relevante considerando que o investidor não brasileiro responde por parcela importante do volume negociado na B3.
Entre as maiores altas do mês aparecem SLC Agrícola (SLCE3), Totvs (TOTS3), Fleury (FLRY3), Embraer (EMBR3) e MRV (MRVE3), favorecidas por balanços acima do esperado, enquanto Hapvida (HAPV3), Braskem (BRKM5), Lojas Renner (LREN3), Marcopolo (POMO4) e Copasa (CSMG3) lideraram as quedas, de acordo com o levantamento de Bruno Perri.
A Braskem, lembra o economista, pediu recuperação extrajudicial e acabou deixando a carteira teórica do índice, sendo substituída pela Smart Fit (SMFT3) na composição atual.
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Sobre as perspectivas para setembro, Perri afirma que o mês deve reunir mais de um fator decisivo ao mesmo tempo. “O principal ponto será a combinação entre a decisão do Copom, a possibilidade de alta de juros nos Estados Unidos e a evolução das pesquisas eleitorais”, diz o economista. Segundo ele, sem um alívio externo mais claro, o mais provável é um Ibovespa oscilando bastante, com dificuldade para se afastar da faixa atual de negociação.
De acordo com Schmidt, o mercado técnico já sinaliza dificuldade para a Bolsa avançar sem resistência, já que o Itaú BBA aponta uma resistência em torno dos 180.700 pontos, patamar que o índice não supera de forma sustentada desde maio. Ele afirma que o calendário eleitoral deve pesar mais a partir de setembro, à medida que o País entra na reta final antes do primeiro turno, com Petrobras e Banco do Brasil (BBAS3) entre os primeiros ativos a sentir o efeito de qualquer nova pesquisa ou declaração de candidato.
Altas e baixas do Ibov em agosto
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| Posição | Empresa | Variação | Motivo |
| Alta 1 | SLC Agrícola | +19,6% | Lucro acima do esperado e forte crescimento dos volumes |
| Alta 2 | Totvs | +11,6% | Expansão de margem, boa geração de caixa e leitura mais positiva sobre o uso de IA |
| Alta 3 | Fleury | +10,1% | Crescimento de lucro, Ebitda e geração de caixa |
| Alta 4 | Embraer | +7,6% | Receita recorde, força no segmento de defesa e revisão para cima das projeções |
| Alta 5 | MRV | +9,5% | Melhora da operação no Brasil, avanço na saída dos Estados Unidos e redução da dívida |
| Baixa 1 | Hapvida | -45,5% | Piora da sinistralidade, judicialização e resultado bem abaixo do esperado |
| Baixa 2 | Braskem* | -36% | Pedido de recuperação extrajudicial e aumento do risco para o acionista |
| Baixa 3 | Lojas Renner | -21,3% | Vendas fracas e redução das projeções para o ano |
| Baixa 4 | Marcopolo | -16,8% | Margens menores, mix de produtos pior e exportações mais fracas |
| Baixa 5 | Copasa | -14,7% | Resultado abaixo do esperado e realização de lucros após a alta ligada à privatização |
* Braskem integrou o índice durante a maior parte de agosto, mas foi retirada da carteira após pedir recuperação extrajudicial. Na composição atual do Ibovespa, ela é substituída pela Smart Fit, que caiu cerca de 14,6% no mês.

Ibovespa e dólar entram em setembro sob pressão de juros, eleições e tensão externa. Veja as projeções de especialistas para a Bolsa e o câmbio.
Foto: Divulgação/B3
Dólar adota viés de alta, mas setembro mostra sinais positivos
O dólar também viveu um mês de oscilação acentuada, com viés de alta ao longo da maior parte de agosto. Segundo Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, a moeda norte-americana começou o mês no nível mais baixo, próximo de R$ 5,08, e passou a subir com a queda inicial do petróleo e a expectativa em torno da reunião do Copom.
Em meados de agosto, afirma Kayo, o dólar atingiu o ponto mais alto do mês, superando R$ 5,22, em meio à saída de capital estrangeiro da Bolsa brasileira, às incertezas fiscais, ao avanço do calendário eleitoral e ao agravamento das tensões no Oriente Médio, com impasses no Estreito de Ormuz.
Segundo o economista, o câmbio chegou a arrefecer na segunda metade do mês. “Na segunda metade de agosto, o câmbio ensaiou breves momentos de alívio, favorecido por dados de deflação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) no Brasil e por medidas de liquidez do Tesouro norte-americano”, diz Kayo.
Ele completa que esse recuo foi passageiro, já que discursos mais duros de dirigentes do Fed no simpósio de Jackson Hole voltaram a atrair recursos para a renda fixa norte-americana na última semana do mês, fazendo o dólar encerrar agosto sustentado em patamar elevado.
De acordo com Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, o auge da valorização da moeda coincidiu com o pior momento da Bolsa no mês. “A moeda abriu o mês de agosto cotada a R$ 5,07 e atingiu sua máxima aos R$ 5,24, no dia 14 de agosto, que coincidentemente foi a mínima do Ibovespa no mês”, afirma Magno.
Segundo ele, o fluxo cambial negativo, as tensões no Oriente Médio e as expectativas em torno das decisões do Fed sobre os juros norte-americanos explicam boa parte da alta observada no período. A tensão no Oriente Médio, conforme lembra o especialista, voltou a se intensificar no fim de agosto, quando os Estados Unidos atacaram a ilha iraniana de Larak, elevando a aversão ao risco no mercado financeiro internacional.
Nicolas Gomes, especialista de câmbio da Manchester Investimentos, avalia que o suporte do diferencial de juros brasileiro não foi suficiente para conter a alta da moeda norte-americana. Segundo ele, o discurso mais duro do presidente do Fed, Kevin Warsh, combinado com o índice de inflação PCE, indicador de preços acompanhado pelo banco central norte-americano, ainda acima da meta, fortaleceu o dólar globalmente na reta final do mês.
“Ao mesmo tempo, o Brasil começa setembro com alguns fatores positivos, o IPCA-15 veio abaixo do esperado, os núcleos de inflação voltaram para abaixo de 4,5% e os dados de atividade começam a mostrar desaceleração”, diz Gomes.
Volatilidade do dólar deve persistir
Para setembro, a avaliação predominante entre os especialistas é de continuidade da volatilidade, com viés de alta para o dólar. Segundo Kayo, a alta deve se sustentar nas incertezas geopolíticas vindas do conflito no Oriente Médio, que levam investidores a buscar a segurança da moeda norte-americana, somadas à cautela com a proximidade das eleições no Brasil.
Ele acrescenta que o menor diferencial de juros entre os dois países, resultado da perspectiva de queda das taxas brasileiras e de alta nas norte-americanas, reduz a atratividade do mercado brasileiro e tende a drenar dólares do País.
De acordo com o Boletim Focus, pesquisa semanal do BC que reúne as projeções do mercado financeiro, a cotação média esperada para o fechamento de setembro está em R$ 5,15. Já Nicolas Gomes trabalha com a moeda próxima de R$ 5,20 até o fim deste ano, mas pondera que o ambiente está mais sensível, com o risco mais assimétrico para cima, ou seja, com maior chance de alta do que de queda da moeda.
Magno, por outro lado, prefere não arriscar um número fechado para setembro. Segundo ele, a combinação entre a tensão no Oriente Médio, a reunião do Fed sobre os juros e a reta final do primeiro turno das eleições torna qualquer projeção pontual pouco confiável, já que o mês deve ser bastante agitado para o câmbio.
Para setembro, os especialistas apontam setores mais suscetíveis a turbulências no Ibovespa. De acordo com Perri, o varejo e o consumo devem sofrer com juros elevados, crédito caro e o endividamento das famílias, enquanto construção e imóveis seguem sensíveis à curva de juros, ainda que empresas ligadas ao programa habitacional Minha Casa Minha Vida estejam relativamente mais protegidas.
O economista também cita os bancos, que devem conviver com maior preocupação com inadimplência e provisões, a saúde suplementar, marcada pela sinistralidade e pela judicialização, e os setores de petróleo, petroquímica, aéreo e de transporte, expostos às oscilações da commodity e ao conflito no Oriente Médio.
Milene Dellatore chama atenção especialmente para o varejo, ao apontar que mesmo empresas de qualidade não estão imunes a um consumo mais fraco. “Renner mostrou que nem mesmo uma empresa de boa qualidade está protegida quando o consumo desacelera e o resultado fica abaixo das expectativas”, afirma a especialista.
Segundo ela, juros ainda altos, crédito caro e renda comprometida devem seguir afetando as varejistas, enquanto a saúde suplementar tende a conviver com o temor renovado sobre sinistralidade e judicialização depois dos números da Hapvida.
Construção e educação, diz Milene, tendem a reagir com força a qualquer mudança na expectativa de queda da Selic, já que sobem rápido quando os juros futuros caem e devolvem os ganhos com a mesma velocidade quando as taxas voltam a subir.