Também implicado no caso Master, Flávio Bolsonaro pede renúncia de Moraes
Fonte: brasil247.com | Data: 01/09/2026 13:20:35
247 – O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta terça-feira (1º) que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), deveria renunciar ao seu cargo na Suprema Corte após a revelação de que o magistrado editou um contrato de R$ 131 milhões firmado pelo escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
“Isso é muito grave. Eu acho que o Alexandre de Moraes deveria renunciar ao Supremo Tribunal Federal. Não tem a menor condição de continuar sendo ministro do Supremo”, declarou o parlamentar antes de participar de uma sessão da Comissão de Segurança Pública do Senado.
A manifestação do senador ocorreu após o jornal O Estado de São Paulo revelar que metadados do arquivo digital do contrato, enviado por aplicativo de mensagens a Vorcaro, indicam que o documento foi editado por um usuário identificado no sistema como “Ministro Alexandre de Moraes”. Na avaliação do parlamentar, os dados sugerem uma suposta proteção institucional ao ex-banqueiro.
“Um integrante da mais alta Corte redigindo o contrato da esposa para devolver ao Vorcaro. Quer dizer, tudo indica, sugere que há uma proteção do próprio Moraes dada ao Vorcaro, tanto da parte da PGR [Procuradoria-Geral da República] como da parte da Polícia Federal. Isso é uma completa distorção do devido processo legal, das garantias institucionais da mais alta Corte. É muito grave isso aí”, completou Flávio Bolsonaro.
Outro lado
Em resposta à revelação, o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes divulgou uma nota oficial para prestar esclarecimentos. A banca informou que seu setor de integridade e conformidade regulatória, “como faz em outros casos semelhantes, solicitou informações” ao ministro “na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente”.
A nota acrescenta que, após checar o teor do documento, o magistrado atestou a ausência de impedimentos legais para a concretização do negócio. “Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”, sustentou a banca.
Relatório do Coaf desmente declarações de Flávio sobre financiamento de Dark Horse
Apesar dos ataques dirigidos ao integrante do STF, revelações vindas a público também nesta terça-feira apontam que o próprio Flávio Bolsonaro prestou declarações falsas sobre seus vínculos com Daniel Vorcaro. Segundo reportagem da revista piauí, o parlamentar mentiu ao afirmar, em entrevista concedida à GloboNews, que o banqueiro havia interrompido em maio de 2025 o envio de verbas para ‘Dark Horse’ — cinebiografia sobre seu pai, Jair Bolsonaro (PL).
Um relatório elaborado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) comprova que, em 16 de setembro de 2025, Vorcaro realizou mais uma transferência no valor exato de US$ 1.666.667 para o Havengate Development Fund, fundo norte-americano incumbido de gerir os recursos da produção cinematográfica.
A operação bancária ocorreu exatamente oito dias após Flávio Bolsonaro enviar uma mensagem de texto cobrando do banqueiro as parcelas que se encontravam em atraso. Com a confirmação deste novo repasse, mantido em segredo até o momento, a quantia total enviada por Vorcaro para o projeto subiu de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões — o equivalente a mais de R$ 65 milhões na cotação da época.
Diálogos inéditos travados por aplicativo de mensagens entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda — profissional atuante na captação de recursos para o longa-metragem — indicam a ocorrência de uma oitava transferência. Em 22 de outubro de 2025, Miranda perguntou ao banqueiro: “Consegue liberar as parcelas do filme?”, complementando na sequência: “Se não vai parar tudo por lá 😐”.
Vorcaro confirmou a liberação da quantia: “Sim. Liberei mais uma hoje”. O publicitário respondeu que avisaria a equipe e informou que Flávio Bolsonaro também faria uma ligação telefônica para ele, momento em que o dono do Banco Master solicitou que Miranda apresentasse suas desculpas ao senador pelos atrasos. Caso essa movimentação adicional de US$ 1,6 milhão tenha se efetivado, o valor total destinado pelo banqueiro à produção alcança US$ 14 milhões (cerca de R$ 72 milhões). O contrato original estipulava um aporte global de US$ 24 milhões, divididos em sete parcelas comprovadamente pagas até setembro e uma oitava em outubro.
Histórico de contradições e apurações da Polícia Federal
O levantamento detalha um histórico de declarações contraditórias prestadas pelo senador. Em março de 2025, após ter seu telefone identificado na agenda de Vorcaro, o parlamentar alegou à colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, que jamais mantivera contato com o empresário. Mais tarde, questionado pelo repórter Thalys Alcântara, do portal The Intercept Brasil, sobre o financiamento do filme por Vorcaro, Flávio negou a informação e a classificou como mentira.
Já durante a entrevista à GloboNews, o senador sustentou que o Havengate Development Fund era fiscalizado pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) e que a estrutura fora encerrada assim que surgiram as primeiras denúncias contra o banqueiro. No entanto, o fundo não possui registro perante a SEC e continua ativo nos cadastros fazendários do estado do Texas.
A Polícia Federal investiga a engenharia financeira utilizada na movimentação das verbas. Os investigadores apuraram que os valores não saíam diretamente das empresas de Vorcaro e tampouco eram creditados na conta da produtora Go Up Entertainment LLC nos Estados Unidos, fluxo que seria o padrão. As operações eram intermediadas pelo doleiro Antonio Freixo Junior, conhecido como “Mineiro” e proprietário da empresa Entre Investimentos e Participações, profissional que já se declarou publicamente especialista em operações de câmbio de saída.
O destinatário final das transferências era o fundo Havengate, sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado especializado em imigração sem histórico de trabalho no setor cinematográfico e ligado ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Como cabe ao fundo Havengate repassar os recursos para a produtora Go Up, a Polícia Federal busca esclarecer se a totalidade do dinheiro foi empregada na produção do filme ou se parte dos recursos permaneceu no fundo ou financiou a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O deputado passou a residir no país em fevereiro de 2025, mês em que Vorcaro efetuou a primeira transferência de US$ 2 milhões para o Havengate.
Em declarações prestadas à rádio CBN, Eduardo Bolsonaro minimizou sua participação no projeto, alegando ter investido US$ 50 mil de recursos próprios para garantir a contratação do diretor, valor que lhe teria sido devolvido posteriormente. Contudo, em documentos oficiais da produção nos Estados Unidos, o deputado é qualificado alternadamente como “produtor executivo” e “financiador”. A produtora Go Up não forneceu respostas objetivas ao ser questionada sobre a extensão do controle de Eduardo Bolsonaro sobre a conta do fundo. Até o momento, as apurações policiais não encontraram provas materiais de que os valores tenham sido desviados para despesas pessoais do deputado.
❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com [email protected].
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.
Marque o Brasil 247 como fonte preferida no Google:
Apoie o jornalismo independente do 247: