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Saae inicia captação emergencial no rio de Peixe dias após descartar risco de desabastecimento em Itabira na estiagem

Fonte: viladeutopia.com.br | Data: 01/09/2026 17:55:06

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Fotos: Carlos Cruz

Autarquia havia afirmado no início de agosto que o abastecimento estava sob controle, mas estiagem já reduz vazões e obriga novo reforço temporário

Durou pouco o discurso otimista do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) sobre o abastecimento de água em Itabira neste período de estiagem que se inicia.

No início de agosto, a autarquia divulgou nota assegurando que o cenário deste ano seria mais favorável que o de 2025, quando o município decretou Situação de Emergência Hídrica, informando que não havia risco imediato de desabastecimento na cidade, que todo ano sofre com falta de água nesta época.

Dias depois, porém, o próprio Saae reconhece que os mananciais voltaram a apresentar queda de vazão. Daí que já inicia uma operação emergencial de captação no rio de Peixe, na região do bairro Ribeira de Cima, para reforçar o sistema Pureza durante a estiagem.

A operação teve início nesta segunda-feira (31), com captação de até 60 litros por segundo (l/s) em regime de 12 horas diárias. A água é enviada à Estação de Tratamento de Água Pureza, responsável pelo abastecimento de mais de 60 bairros.

Segundo o Saae, a medida é necessária devido à redução de cerca de 20% na capacidade de captação dos mananciais, podendo acrescentar até 5 mil metros cúbicos por dia ao sistema caso funcione em 24 horas.

A autarquia reforça que se trata de uma ação temporária, adotada para minimizar os efeitos da estiagem, e que a estrutura não representa fonte permanente de abastecimento.

Além disso, o Saae diz acompanhar diariamente o comportamento dos mananciais, que é para, se necessário, adotar outras medidas preventivas para garantir a segurança hídrica.

A experiência de 2025, quando Itabira enfrentou uma das estiagens mais severas dos últimos anos e precisou implementar racionamento por 68 dias, reforça a necessidade de antecipar ações neste ano.

Daí que a autarquia adverte também que, mesmo com o reforço emergencial, o uso consciente da água continua sendo fundamental. Isso porque a estiagem reduz a disponibilidade justamente quando as temperaturas elevadas tendem a aumentar o consumo.

Manancial da Pureza é ainda o principal sistema de abastecimento na cidade e não deve ser desativado mesmo depois de entrar em operação o projeto Rio Tanque
Dependência da Vale e atraso histórico na solução definitiva

A vulnerabilidade hídrica de Itabira não é novidade. Há mais de 25 anos, desde a aprovação da Licença de Operação Corretiva (LOC) da Vale em 2000, o município aguarda a “solução definitiva” para o abastecimento na cidade.

Só agora essa “solução definitiva” está para ser implementada com a captação, adução e tratamento da água do Rio Tanque, cujo projeto só deve ser concluído no final de 2027.

Essa obrigação de fazer é decorrente do fato de a mineradora deter quase todas as outorgas superficiais e subterrâneas existentes no entorno da cidade, na serra do Esmeril e Conceição, onde estão suas minas.

É esse quase monopólio que historicamente limita a disponibilidade de água para o município – e tem sido uma das causas das crises hídricas recorrentes.

Somente por força de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a Vale assumiu o projeto Rio Tanque, além de se ver obrigada a fornecer 160 l/s de suas outorgas para reforçar o abastecimento durante a estiagem.

Mesmo assim, com esse reforço, embora essencial, não tem sido suficiente para evitar crises, obrigando o Saae recorrer novamente à captação emergencial no rio de Peixe.

O projeto Rio Tanque prevê a transposição de 600 l/s,  200 a mais que a demanda atual de cerca de 400 l/s.

Assim que concluído, cogita-se descontinuar as captações das Três Fontes e até desativar as ETAs Pureza e Gatos, o que seria uma temeridade diante da instabilidade climática e da dependência excessiva de uma única fonte.

É que já se observa, empiricamente, queda de vazão no rio Tanque em anos recentes na estiagem, o que reforça a necessidade de cautela – e não deixar a cidade dependente de uma única fonte de abastecimento.

Energia limpa

Há também pendências relevantes relacionadas ao projeto Rio Tanque, especialmente quanto ao custo da energia para captação da água a mais de 25 quilômetros da cidade.

No TAC firmado com o MPMG em 2020, portanto 20 anos após a aprovação da LOC 2000, a Vale se comprometeu a arcar com esse custo enquanto também utilizasse a água captada até a nova estação de tratamento que está sendo construída no Alto do Pinheiro, no bairro Campestre.

Entretanto, com a disposição de estéril e rejeito em pilhas a seco, além do tratamento de minério também a seco, a mineradora já alega que não vai precisar mais desse recurso hídrico adicional.

Com isso, deixa implícito que o custo energético pode recair sobre a população, com aumento das tarifas de água cobradas pelo Saae.

É no mínimo contraditório que uma empresa que se diz comprometida com práticas ESG e com medidas de mitigação das mudanças climáticas não tenha incluído no projeto Rio Tanque a geração de energia limpa, seja eólica ou fotovoltaica.

Rio Tanque e o alerta climático
Rio Tanque na divisa de Itabira com Itambé: águas turvas no período chuvoso e vazão reduzida quando a seca se prolonga

Não se pode deixar de considerar também o El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial.

Esse aquecimento altera a circulação atmosférica em escala global. E, quando combinado às mudanças na pressão atmosférica medidas entre Taiti, na Polinésia Francesa, e Darwin, no norte da Austrália, forma o sistema conhecido como ENSO — El Niño–Oscilação Sul.

A diferença de pressão entre essas duas localidades, separadas por milhares de quilômetros no Pacífico Sul, indica o fortalecimento ou o enfraquecimento dos ventos alísios e ajuda a explicar por que o ENSO influencia diretamente o regime de chuvas em Minas Gerais, situada em uma zona climática sensível às oscilações do Pacífico.

Em uma nota técnica recente, o pesquisador Euler de Carvalho Cruz, do Instituto Fórum Permanente São Francisco, analisou mais de cinco décadas de medições no rio das Velhas, principal manancial da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

A nota técnica demonstra que os grandes episódios de El Niño têm impacto direto e significativo sobre as vazões do rio. Em um dos trechos, o pesquisador afirma: Após o verão maduro dos episódios de El Niño fortes e muito fortes (pico ONI ≥ 1,5 °C), o ano civil seguinte apresenta queda acentuada da vazão média anual em 6 dos 7 casos disponíveis.”

Em outro ponto, o pesquisador alerta que “o episódio forte de 2023/24 confirmou o padrão: queda de 19,8% em 2025, que se tornou o quarto menor valor anual dos 54 anos da série.”

O estudo também projeta cenários preocupantes para os próximos anos, diante do super El Niño previsto para o fim deste ano, possivelmente o mais intenso já registrado.

Segundo Euler de Carvalho Cruz, “o modelo projeta, para o ano hidrologicamente crítico de 2028, vazão média anual entre cerca de 12 e 20 m³/s nos cenários centrais, podendo descer a 7–12 m³/s nos cenários extremos.”

Embora o Rio Tanque pertença a outra bacia, nasce na mesma cadeia montanhosa do Espinhaço e depende de aquíferos de altitude semelhantes. Empiricamente, já se observa redução de vazão no Tanque em anos recentes, o que levanta a possibilidade de que o fenômeno climático possa afetá-lo de maneira semelhante.

Não há dados suficientes para afirmar que o rio Tanque seguirá o mesmo padrão estatístico do Rio das Velhas, mas a analogia climática é plausível e merece atenção, especialmente porque a transposição do Tanque é tratada como solução única para o abastecimento de Itabira.

Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais severas, confiar exclusivamente no rio Tanque como alternativa definitiva pode ser arriscado. Afinal, “não se deve colocar todos os ovos em uma só cesta”, assim como não se deve confiar em uma única fonte de abastecimento.

A manutenção das captações atuais com as Três Fontes e as ETAs Pureza e Gatos é estratégica para garantir a segurança hídrica futura, assim como não se deve deixar de cobrar, aí já mais para o futuro, o uso integral das águas dos aquíferos, prometidos no passado como legados da mineração exaurida para Itabira.

Definitivamente é importante repetir à exaustão: a cidade não pode depender de uma única fonte de abastecimento em um momento em que fenômenos globais têm mostrado capacidade de alterar profundamente o comportamento dos mananciais em toda parte do mundo. E por aqui não deve ser diferente.