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“Esse BO não é nosso”: por que o PT quer distância de Alexandre de Moraes

Fonte: brasil247.com | Data: 02/09/2026 13:06:42

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A divulgação do relatório da Polícia Federal sobre as relações de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, com o ministro Alexandre de Moraes criou um problema político de grandes proporções. Mas, do ponto de vista histórico e partidário, não se trata de uma questão que envolve o PT.

Em linguagem direta: esse BO não nasceu no governo Lula. A referência a BO é de um líder petista, a quem fiz a pergunta, quando surgiram as primeiras denúncias contra Alexandre de Moraes. “Por que vocês não estão defendendo Alexandre de Moraes?”, questionei. “Simples: esse BO não é nosso”, respondeu. E não é mesmo. Quem aproximou Alexandre de Moraes de Daniel Vorcaro foi um ex-ministro de Bolsonaro. E é Michel Temer quem tem influência sobre o ministro do STF.

O documento de 218 páginas, produzido em 27 de agosto de 2026, analisa dados extraídos do celular de Vorcaro no âmbito da Operação Compliance Zero. A investigação apura suspeitas de fraude na cessão de aproximadamente R$ 12 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master ao BRB. O relatório não apresenta uma acusação criminal conclusiva contra Moraes ou contra Michel Temer. Registra, porém, uma sucessão de contatos, encontros, contratos e articulações que exige explicações públicas e investigação.

O ponto de partida político é conhecido. Alexandre de Moraes foi ministro da Justiça no governo de Michel Temer. Em 2017, foi o próprio Temer quem o indicou para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal com a morte de Teori Zavascki. A escolha foi aprovada pelo Senado por 55 votos a 13. Na ocasião, o PT estava na oposição e criticou a indicação: a então líder da legenda na Casa, Gleisi Hoffmann, manifestou temor de uma atuação partidária do indicado.

Essa origem importa porque parte do debate contemporâneo – aquele que interessa à extrema direita – tenta apresentar Moraes como se tivesse ligação política com o PT. A cronologia conta outra história. Sua passagem pelo primeiro escalão federal ocorreu no governo Temer; sua chegada ao STF resultou de uma decisão de Temer; e o PT questionou sua indicação.

Segundo a Polícia Federal, o número atribuído ao contato salvo no aparelho de Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA” foi compartilhado pelo ex-ministro das Comunicações no governo Bolsonaro Fábio Faria em dezembro de 2023.

O relatório reconstrói reuniões anteriores e posteriores ao compartilhamento do telefone, além de uma série de encontros mencionados pelo banqueiro em conversas privadas, uma delas em Campos de Jordão, com direito a foto do ministro com o cozinheiro de Vorcaro.

A PF também analisou três textos escritos no aplicativo Notas do celular de Vorcaro. De acordo com os registros técnicos, segundos depois de produzir capturas de tela desses textos, o banqueiro enviou mensagens ao terminal associado ao contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”. 

Uma das notas pedia que fosse reforçada uma interlocução com “Andrei e Paulo” para impedir que alguém “de baixo” praticasse uma “sacanagem” capaz de colocar tudo “pro saco”. O documento atribui os termos a possíveis referências ao diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, mas não afirma que Moraes tenha atendido ao pedido.

As mensagens revelam que Vorcaro via Alexandre de Moraes como advogado ou consultor, atividades que juízes não podem exercer em nenhuma hipótese, direta ou indiretamente. Em 5 de novembro de 2025, o então banqueiro escreveu ao ministro:

– O Pierpaolo tava querendo fazer uma petição nos órgãos pra nos colocar à disposição e pra ter conhecimento se existem inquéritos. Acha que vale a pena? Não vou fazer nenhum movimento que você não achar produtivo. Estamos no escuro, o Paulo só disse que tava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem. Mas ontem ligou o alerta vermelho né? Uma ação desmedida coloca em risco milhões de clientes.

“Pierpaolo” seria o advogado Pierpaolo Cruz Bottini. “Paulo”, no contexto analisado pela PF, seria o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Nove dias depois, na sequência de uma mensagem enviada pelo número atribuído a Alexandre de Moraes – postada por imagem e apagada em seguida –, Vorcaro faz um agradecimento profundo.

– Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com a sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser 

Outro núcleo do relatório envolve o escritório Barci de Moraes, de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Uma minuta de contrato enviada a Vorcaro em janeiro de 2024 tinha, segundo os metadados examinados pela PF, uma última modificação atribuída ao usuário “Ministro Alexandre de Moraes”. 

A versão final previa pagamentos mensais superiores a R$ 3 milhões e também teria sido modificada por usuário com essa identificação antes da assinatura pelo Banco Master.

O relatório descreve ainda um segundo negócio envolvendo o escritório e empresas ligadas a Vorcaro. As tratativas incluíam cotas de um avião Legacy 650 e de um helicóptero Airbus EC 155 B1. Em julho de 2025, uma funcionária informou a Vorcaro que havia sido solicitado o pagamento de uma fatura de R$ 22,8 milhões emitida pelo escritório. Mensagens reproduzidas pela PF também indicam que integrantes do escritório já utilizavam as aeronaves.

Nada disso, isoladamente, equivale a prova de crime. Contratos advocatícios e encontros sociais ou profissionais não são ilícitos por natureza. O interesse público surge da combinação entre os valores, a proximidade registrada, a posição institucional dos envolvidos e o fato de as informações terem aparecido no celular de um banqueiro investigado por fraudes bilionárias. 

O mais grave é o que parece ser atividade de consultoria ou advocacia exercida por um ministro do STF.

Temer

Alexandre de Moraes e Michel Temer no velório de Teori Zavascki – Reprodução

Michel Temer aparece nominalmente no documento durante a análise da organização do I Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024.

Na página 186, a PF reproduz uma conversa em que Vorcaro pergunta a uma funcionária: “O alexandre sugeriu participacao do temer, o que acha”. A mensagem aparece no contexto da montagem da programação de um evento que o banqueiro havia descrito a outro interlocutor como “super exclusivo com alexandre de moraes em londres”.

A passagem registra uma afirmação de Vorcaro, não uma mensagem enviada diretamente por Moraes. Ainda assim, ela é politicamente significativa: o ministro teria sugerido a presença do presidente que o nomeou ministro da Justiça e depois o indicou ao STF.

Outro diálogo, de 18 de abril de 2024, trata do movimento inverso: a exclusão de um convidado. O participante vetado seria o empresário Joesley Batista, controlador da J&F e protagonista da crise que abalou o governo Temer em 2017.

Na conversa, Fábio Faria escreve a Vorcaro: “Mas eu acho que o Alexandre gosta que ele saiba que ele vetou”, acrescentando: “Ego dele” e “Mas a gente não precisa passar isso”. Vorcaro responde: “No final ele vetou mesmo, ficou claro”. A própria PF apresenta a Figura 195 como conversa “sobre veto de ‘Alexandre’ a participante do evento.

A reprodução visível no relatório começa no meio do diálogo e não exibe integralmente a mensagem anterior que identifica o convidado. Relatos publicados sobre o material apontam que se tratava de Joesley Batista. Essa limitação deve ser registrada: o veto é expressamente descrito pela PF, mas o nome de Joesley não aparece legível no recorte reproduzido na página 188.

O contexto político, contudo, é inequívoco. Joesley gravou uma conversa com Temer no Palácio do Jaburu, em março de 2017, e entregou o áudio às autoridades em seu acordo de colaboração. 

A gravação precipitou uma grave crise política, deu origem a denúncias contra o então presidente e rompeu a relação entre os dois. A própria PF concluiu posteriormente que o áudio da conversa não havia sido editado, conforme registro preservado pelo Senado.

A sequência descrita no celular de Vorcaro, portanto, sugere uma curadoria politicamente orientada do fórum: Temer seria incluído por sugestão atribuída a Moraes, enquanto Joesley, seu notório desafeto, seria mantido fora. Fábio Faria e Vorcaro ainda discutem se o empresário deveria saber que a exclusão partira de Alexandre.

A documentação mostra que a atuação atribuída a Moraes não teria se limitado a comparecer como palestrante.

O ministro participou de decisões sobre convidados, transporte de ministros, emissão de passagens e composição da programação. Em outras mensagens, o banqueiro afirma precisar aprovar listas com “Alexandre”; uma funcionária relata ter passado o dia com “Vivi Moraes e o ministro” fechando o programa.

A PF registra também que Vorcaro transmitiu a um contato associado ao Brazil Journal um pedido atribuído a Moraes para incluir em uma reportagem a informação de que três ministros do STF — Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes — haviam se reunido privadamente com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Na preparação da segunda edição do fórum, prevista para 2025 e posteriormente cancelada, surgiu outra resistência atribuída a Moraes. Em julho daquele ano, uma funcionária perguntou a Vorcaro se Antônio Rueda poderia atuar como moderador de um painel. O banqueiro respondeu: “De jeito nenhum”, e acrescentou: “Alexandre morre se vc fizer isso” e “Aliás, nos mata”.

Em outra mensagem, de 21 de julho de 2025, entre Daniel Vorcaro e a funcionária identificada como Ana Matos, durante a preparação da segunda edição do Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, Daniel Vorcaro demonstra a influência do ministro do STF.

“Alexandre reclamou MUITO do evento. Muito”, diz Vorcaro.

Ana Matos responde: “O que houve? Do programa?”

Daniel Vorcaro: “Sim. Tudo. Que tá desorganizado. Ninguém sabe de nada. Que colocamos Tarcísio em destaque.”

Ana Matos: “Podemos mudar tudo que ele quiser. Tarcísio não confirmou.”

As mensagens apresentam, portanto, Moraes como alguém que influenciava convidados, painéis, homenagens e até a comunicação pública do evento. Essa influência aparece sempre relatada por Vorcaro, Fábio Faria ou integrantes da organização.

Nos episódios centrais descritos pela PF, o PT não entra.

O partido não indicou Moraes ao Supremo, não comandava o governo quando ele chegou ao Ministério da Justiça e não aparece como responsável pelos contratos ou encontros narrados no relatório. O vínculo político originário de Moraes no governo federal é com a administração Temer, formada após o golpe contra Dilma Rousseff.

O atual governo permitiu investigações independentes, prestou informações e evitou qualquer tentativa de blindagem institucional. O próprio presidente da república disse que, quando o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o procuraram para relatar os crimes do banqueiro, ele encaminhou os dois para contar tudo o que sabiam para o procurador-geral da república, Paulo Gonet.

A tentativa de jogar o desgaste é favorecida por setores da militância petista, que fazem uma defesa cega do ministro do STF, confundindo convergência circunstancial, movida por interesses institucionais, com aliança. Como o governo e o PT nunca foram aliados de Moraes, essa posição alimenta a versão da extrema direita. 

É fato que Moraes se tornou alvo prioritário do bolsonarismo por sua atuação no STF e no TSE, mas isso não apaga sua trajetória anterior nem altera quem o levou ao Supremo.

Moraes deve explicar a natureza dos encontros com Vorcaro, sua eventual participação na elaboração dos contratos e o alcance de sua intervenção nos eventos de Londres. Também deve esclarecer por que teria sugerido Temer e vetado Joesley, caso confirme as versões transmitidas pelo banqueiro.

E também que tipo de conselho ou favor prestou a Vorcaro, para levar este a expressar “a gratidão da minha vida a você”.

O escritório Barci de Moraes deve explicar os serviços contratados, os valores e as operações envolvendo aeronaves. Temer, por sua vez, pode informar se recebeu o convite por sugestão do ministro e se teve conhecimento ou participação na exclusão de Joesley.

O que o relatório permite afirmar, até aqui, é mais restrito — e politicamente revelador. A teia descrita pela PF não foi criada pelo PT. Ela envolve um banqueiro, empresários, advogados, antigos integrantes de governos de direita e de extrema direita, membros do sistema de Justiça e um ministro cuja entrada no STF decorreu de escolha pessoal de Michel Temer.

Se houver irregularidades, elas devem ser investigadas sem proteção partidária ou institucional. Mas a conta histórica precisa ser apresentada a quem efetivamente participou da construção dessas relações.

Esse BO pode até alcançar grande parte de Brasília e de outros centros de poder. Sua certidão de nascimento, porém, não foi assinada pelo PT.

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Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.