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Brasil e Índia articulam plano para expandir comércio e modernizar acordo entre Mercosul e mercado indiano

Fonte: brasilinovador.com.br | Data: 03/09/2026 02:57:21

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A CNI, em parceria com a Confederação da Indústria Indiana (CII) e a ApexBrasil, reuniu lideranças governamentais e empresariais dos dois países na India-Brazil High-Level Business Reception, realizada em Brasília, para discutir a expansão das relações comerciais e a atração de investimentos produtivos. Durante o encontro de alto nível, os dois países debateram estratégias para superar os gargalos estruturais no fluxo bilateral, que saltou de US$ 5,6 bilhões para US$ 15,2 bilhões no período entre 2016 e 2025. O evento contou com a presença da secretária de Comércio Exterior do MDIC, Tatiana Prazeres, do secretário de Comércio do Ministério do Comércio e Indústria da Índia, Shri Rajesh Agrawal, do embaixador indiano Dinesh Bhatia e do presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (FIEG), André Rocha, além de executivos de grandes corporações industriais. A mobilização antecede a Cúpula dos BRICS, em que o setor produtivo apresentará propostas focadas na revisão de barreiras tarifárias, simplificação aduaneira e ampliação da cobertura do acordo comercial vigente.

Apesar de o volume financeiro das trocas bilaterais ter quase triplicado no intervalo de uma década, os dados divulgados na análise “Indústria no mundo sobre a relação Brasil-Índia” apontam um desequilíbrio na balança comercial em desfavor das empresas brasileiras. As exportações nacionais para o mercado indiano cresceram 117,2% no período, somando US$ 6,9 bilhões em 2025, enquanto as importações de bens indianos pelo mercado brasileiro dispararam 236%, alcançando US$ 8,3 bilhões no mesmo ano. Essa assimetria consolidou um déficit comercial contínuo para o Brasil nas trocas com a nação asiática, cenário mantido de forma ininterrupta desde o ano de 2019.

A expansão observada até o momento ocorreu predominantemente à margem das preferências tarifárias pactuadas no âmbito regional. Em 2025, a expressiva marca de 84,6% de tudo o que o setor produtivo brasileiro vendeu para a Índia e 60,6% de todos os produtos comprados do parceiro asiático tramitaram sem qualquer aproveitamento das vantagens do tratado em vigor entre o Mercosul e a República da Índia, sinalizando a obsolescência da estrutura jurídica e tarifária montada nas décadas passadas.

Limitações do Acordo Mercosul-Índia exigem revisão das linhas tarifárias

A defasagem do arcabouço comercial que rege as trocas entre os dois países reflete o reduzido alcance das concessões mútuas negociadas no passado. O atual Acordo de Preferência Tarifária abrange apenas 452 linhas tarifárias, de um universo total que supera 9 mil itens do comércio internacional, revelando um descompasso evidente em relação à dimensão econômica atual de ambos os mercados. Essa limitação estrutural faz com que as empresas operem sob alíquotas cheias e burocracia aduaneira desnecessária na maioria dos fluxos de importação e exportação.

A discrepância na utilização das preferências existentes demonstra que a estrutura atual tem servido com maior eficiência aos exportadores indianos do que aos fabricantes instalados no território brasileiro. A reformulação do marco regulatório bilateral é apontada pelo setor privado como a medida mais urgente para restaurar o equilíbrio do comércio e garantir previsibilidade jurídica para investimentos cruzados de longo prazo.

Indicador da Relação Bilateral Desempenho no Período (2016-2025) Impacto no Comércio Atual
Corrente de Comércio Salto de US$ 5,6 bi para US$ 15,2 bi Crescimento de quase 200% nas trocas totais.
Exportações Brasileiras Alta de 117,2% (US$ 6,9 bi) Concentração excessiva em poucas commodities.
Importações Brasileiras Alta de 236,0% (US$ 8,3 bi) Déficit comercial brasileiro mantido desde 2019.
Uso do Acordo Comercial 84,6% das exportações fora do acordo Tratado abrange apenas 452 linhas tarifárias.

A reformulação desse ambiente normativo exige a inclusão de novos capítulos dedicados à facilitação de investimentos, compras governamentais, propriedade intelectual e serviços. Sem a modernização desse tratado, a integração entre o parque industrial brasileiro e as cadeias globais de valor geridas por corporações indianas continuará limitada a balcões pontuais de suprimentos, sem o aprofundamento das parcerias tecnológicas e produtivas de maior valor agregado.

Governos articulam diversificação da pauta e cooperação em tecnologia

Diante da necessidade de superar a pauta concentrada em bens agrícolas e insumos energéticos, os representantes governamentais concordaram em priorizar a diversificação do comércio para setores industriais e tecnológicos de alto valor agregado. A estratégia apresentada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reforça que a oferta exportável brasileira para a Índia pode avançar rapidamente sobre segmentos como aeroespacial, soluções avançadas de engenharia, dispositivos médicos e tecnologias voltadas à sustentabilidade ambiental.

A delegação indiana defendeu que o adensamento dessa parceria seja fundamentado em quatro eixos estratégicos: investimento, inovação, integração e impacto econômico. O governo da Índia sinalizou forte interesse na criação de cadeias de suprimentos complementares, alinhando a liderança global do país asiático em serviços de tecnologia da informação, inteligência artificial e indústria farmacêutica à capacidade do Brasil na produção de alimentos, exploração sustentável de minerais críticos e soluções para a transição energética global.

  • Transição Energética: Desenvolvimento conjunto de cadeias de suprimentos focadas em biocombustíveis, etanol, biogás, hidrogênio verde, geração solar e descarbonização da produção fabril.

  • Minerais Críticos: Cooperação em mapeamento geológico, exploração sustentável, tecnologias de beneficiamento, reciclagem de terras raras e harmonização regulatória.

  • Convergência de Políticas Industriais: Articulação de ações entre a Nova Indústria Brasil (NIB) e os programas estatais indianos, incluindo o programa de corredores industriais (NICDP), a India Semiconductor Mission e a IndiaAI Mission.

  • Facilitação Aduaneira: Negociação de Acordo de Reconhecimento Mútuo entre os programas de Operador Econômico Autorizado para acelerar o despacho de mercadorias nos portos.

A complementaridade técnica entre os países abre espaço para a transferência de conhecimento em áreas estratégicas para a transição ecológica. O aproveitamento da vasta matriz limpa brasileira combinado com a capacidade de escala da tecnologia indiana é visto pelas autoridades governamentais como a principal alavanca para garantir soberania nos mercados regionais de energia e insumos estratégicos.

Mapeamento identifica centenas de produtos industriais com potencial de exportação

Levantamento técnico produzido pela confederação empresarial brasileira a partir de dados da agência de promoção de exportações identificou um catálogo de 377 oportunidades comerciais de exportação para a indústria de transformação no mercado indiano. Os setores com potencial imediato foram mapeados com base na competitividade da oferta brasileira no comércio global e na forte demanda importadora demonstrada pela economia indiana, abrangendo 19 segmentos fabris distintos.

Para destravar esse potencial represado pela falta de acordos abrangentes, as entidades empresariais apresentaram um pacote de reivindicações institucionais voltado à redução de custos operacionais. Entre as medidas propostas estão a eliminação de barreiras não tarifárias, o combate às exigências regulatórias desproporcionais e a ampliação da cooperação regulatória internacional para alinhar normas técnicas de fabricação em setores altamente controlados.

O plano de ação prioritário do setor produtivo inclui também a digitalização completa dos procedimentos alfandegários bilaterais, priorizando o uso de documentos eletrônicos e novos sistemas tecnológicos nos fluxos transfronteiriços. A implementação de rotas digitais padronizadas visa reduzir a permanência de cargas nos terminais aduaneiros e mitigar os efeitos das distâncias geográficas sobre a competitividade dos preços finais das mercadorias brasileiras.

Parcerias privadas evidenciam transferência de tecnologia e investimentos cruzados

Casos concretos apresentados no fórum empresarial demonstraram que o setor privado de ambos os países já executa estratégias de longo prazo para consolidar a presença física e produtiva nos dois mercados. A fabricante de aeronaves Embraer destacou a expansão de sua presença no continente asiático mediante acordos com conglomerados indianos do setor de defesa e aeroespacial, incluindo a estruturação de unidades locais focadas na transferência de tecnologia e na formação de mão de obra altamente qualificada.

No setor de equipamentos elétricos, a WEG compartilhou o histórico de suas operações na Índia, onde produz motores elétricos de alta eficiência há 15 anos. A experiência da multinacional brasileira reforça que o adensamento da relação econômica bilateral exige a superação do modelo tradicional focado unicamente na exportação de bens acabados, evoluindo para a instalação de plantas fabris integradas à infraestrutura industrial local.

Do lado indiano, grandes corporações globais como a multinacional de insumos agrícolas UPL Limited reforçaram a importância do mercado brasileiro como plataforma estratégica para suas operações no continente americano. A presença contínua de multinacionais indianas em setores essenciais da economia nacional, aliada ao interesse do setor privado brasileiro em fincar estaca no mercado consumidor da Índia, pavimenta a transição para um modelo corporativo baseado em investimentos cruzados e codesenvolvimento industrial.

Análise Brasil Inovador

A intensificação das relações comerciais entre o Brasil e a Índia sinaliza a transição irreversível da geopolítica de negócios rumo ao Eixo Sul-Sul, onde a complementaridade entre potências emergentes passa a ditar o ritmo da inovação e da reconfiguração das cadeias de suprimentos mundiais. O crescimento substancial da corrente de comércio nos últimos dez anos, contudo, expõe os riscos de uma integração baseada em modelos regulatórios ultrapassados, nos quais o país corre o risco de figurar apenas como fornecedor de matérias-primas e comprador de manufaturados e soluções de alto valor agregado.

O grande diferencial estratégico dos próximos anos dependerá da capacidade do setor produtivo nacional de transformar o diálogo diplomático em cooperação tecnológica profunda, explorando vetores críticos como a transição energética, a aviação avançada, a biotecnologia farmacêutica e o desenvolvimento de inteligência artificial aplicada à indústria. A modernização do acordo entre o Mercosul e o governo indiano deve ser encarada não como uma simples negociação de cotas ou alíquotas, mas sim como o estabelecimento de um corredor de inovação aberta e coinvestimento, capaz de conferir autonomia tecnológica e competitividade global às empresas instaladas em ambos os territórios.