Relatório que expôs ligações perigosas de Vorcaro e Moraes dá ultimato a Fachin
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 03/09/2026 04:27:39
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O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, é craque em se expressar por códigos e indiretas. Há coisa de duas semanas, defendeu a ideia de que o Judiciário é alvo de “campanhas sistemáticas de descredibilização” e afirmou que, em matéria de malfeitos, é necessário separar o joio do trigo, mas na hora certa.
— Ao arrancar o joio antes da hora, corre-se o risco de arrancar também o trigo. É preciso aguardar a colheita para então separá-los.
As 52 mensagens trocadas clandestinamente entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro e pormenorizadas no relatório de 218 páginas da Polícia Federal não deixam dúvidas de que o Supremo está tomado por ervas daninhas.
Enquanto esteve no auge, sentado sobre bilhões captados à base da enganação de investidores, o dono do Master comprou todo mundo que estava à venda em Brasília. E, segundo ele mesmo, seu ativo mais valioso era Moraes. Foi com ele que Vorcaro negociou um contrato de R$ 130 milhões assinado com o escritório da mulher, Viviane Barci, pelo qual chegou a pagar R$ 80 milhões. Foi aos filhos dele que o dono do Master deu um cartão de crédito com limite de R$ 300 mil. Foi também por temer a reação dele que, quando a situação do Master degringolou, o dono do banco propôs completar os R$ 50 milhões que faltavam entregando cotas de um avião e um helicóptero.
O que Moraes deu em troca? No mínimo, assistência jurídica de luxo — “Acha que segunda tenho que estar fora?”, “Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei?” —, que o Código Penal traduz como advocacia administrativa ou tráfico de influência. No limite, corrupção passiva.
Não há como saber ao certo até onde a coisa chegou sem abrir um inquérito, mas quase todas as autoridades que por lei seriam capazes de tomar uma iniciativa se recusam. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, se apressou em dizer que tudo deve ser anulado, alegando que o ministro André Mendonça, autor da encomenda do relatório à PF, descumpriu a lei ao tentar investigar um colega sem aval do plenário. Como Gonet não questionou nenhum dos fatos apontados no documento, poderia perfeitamente pedir abertura de nova investigação, conduzida por outro ministro com autorização do Supremo. Mas não fez isso nem consta que fará, talvez porque, nesse caso, ele mesmo se tornará um alvo.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues — outro que se refestelou com Vorcaro em noite de uísque e charutos em Londres e passou meses fingindo que as mensagens não existiam —, tem dito nos bastidores que não há o que apurar no caso de Moraes. Uma guinada considerável para quem não se acanhou em entregar ao próprio Fachin um relatório semelhante sobre Dias Toffoli — que hoje, comparado a Moraes, parece um amador.
Para completar o cenário de bangue-bangue, de repente começaram a vazar fotos e mensagens mostrando que Mendonça tinha uma relação de amizade com o advogado-lobista de Vorcaro, Ciro Soares, e recebeu o banqueiro para para uma reunião em março de 2025, antes do início do caso Master, sobre uma ação relacionada a precatórios, mas acabou por votar contra os interesses dele. Se não surgir mais nada a respeito, terá sido uma situação constrangedora, mas nada diferente do próprio presidente Lula — que também recebeu Vorcaro meses antes, ouviu o que ele tinha a dizer e, ao que se sabe, não fez nada de concreto para protegê-lo.
Ainda que Mendonça venha a se enrolar de alguma forma nesse caso, não será possível esquecer o que Moraes e Vorcaro fizeram nos verões passados. Ao contrário, estará demonstrado, mais que nunca, que não haverá paz no Supremo enquanto essa crise não for enfrentada.
A única pessoa capaz de fazer isso é Fachin, que não se posicionou até agora. Depois de meses sofrendo ataques de colegas por defender um código de ética e tergiversando diante de perguntas difíceis, nesta quarta-feira ele afirmou que “os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional” e que os “sérios elementos de fato exigem desta Presidência serenidade, responsabilidade e firmeza”.
Não explicou o que fará e nem quando, mas sabe que não dá mais para se escudar atrás de metáforas de joio, trigo ou ervas daninhas. Não é difícil perceber que só se chegou a este ponto porque os omissos abriram caminho aos mal-intencionados. No futuro, quando o caso for estudado nos livros de história, tanto uns como os outros serão cobrados pela degradação do Supremo e, em consequência, da nossa democracia.
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