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10 anos sem subir o morro: Moradores ainda esperam o retorno do Teleférico do Alemão

Fonte: vozdascomunidades.com.br | Data: 03/09/2026 13:02:47

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Era para ser um símbolo de modernidade e inclusão. Inaugurado em 2011, o Teleférico do Alemão foi pensado para ligar o Complexo do Alemão à estação de trem de Bonsucesso, levando mais de 10 mil passageiros por dia. Eram 152 gôndolas que deslizavam por 3,5 quilômetros de cabos, passando por seis estações e encurtando o tempo de viagem de quem mora no alto dos morros. Mas, desde outubro de 2016, o sistema está parado. E completa agora uma década sem funcionar.

Novo atraso empurra volta para junho de 2027

De acordo com apuração da BandNews FM, a reabertura do teleférico foi adiada mais uma vez. Agora, a previsão é que as obras só fiquem prontas em junho de 2027. Antes, o Governo do Rio dizia que o serviço voltaria em outubro deste ano.

A empresa responsável pela instalação dos cabos afirma que a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Obras Públicas deixou de pagar R$ 20 milhões desde fevereiro, ainda na gestão do ex-governador Cláudio Castro, e que não há data para o pagamento ser normalizado. Mesmo assim, a empresa diz que manteve as obras com recursos próprios, o que já causou atraso de pelo menos oito meses.

Um documento obtido pela reportagem mostra que o ritmo das obras diminuiu. Hoje, os serviços estão concentrados na recuperação das 24 torres, na troca das roldanas por onde passam os cabos e na passagem dos guias que vão puxar os novos cabos de aço. Ao todo, são sete mil metros de cabo, comprados da empresa francesa POMA, que somam mais de R$ 105 milhões. Mas a garantia desse material vence em dois meses, o que pode atrasar ainda mais a instalação.

Em nota à BandNews FM, a Secretaria de Infraestrutura disse apenas que o prazo continua o mesmo, que os pagamentos estão sendo resolvidos e que o pedido de reajuste do contrato está em análise. O contrato, que já custa cerca de R$ 125 milhões, está sendo auditado pelo Governo do Rio.

O que disse o governo a nossa reportagem em agosto

Procurado pelo Voz das Comunidades, o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Infraestrutura e Obras Públicas, enviou uma nota oficial. O texto afirma que o governo trabalha para entregar as obras de modernização e recuperação do teleférico. Uma das primeiras medidas foi negociar o passivo financeiro com a empresa francesa POMA, que forneceu os equipamentos.

Atualmente, estão em execução os serviços de instalação de equipamentos nas seis estações, como elevadores e escadas rolantes, além da substituição de peças, como os cilindros hidráulicos responsáveis pelo tensionamento do cabo de tração. As tratativas para a licitação da operação do sistema também já foram iniciadas.

“Apertou meu bolso e deixei de ir para onde gostava”

Seu Antônio Gonçalves, de 80 anos, é aposentado. Ele conta que andava muito no teleférico. “Não tinha o que fazer e ia passear”, lembra. Com o fechamento, a vida mudou. “Apertou meu bolso e deixei de ir para onde eu gostava de ir”, desabafa. Hoje, ele não consegue usar o mototáxi, uma das poucas opções de transporte que restaram. “Eu não posso andar de moto.” E completa: “Me sinto mal porque eu não vou para onde eu quero.” O recado para o governante é direto: “Apressar isso aí para a gente andar.”

Dona Maria da Guia Pereira de Souza, de 61 anos, trabalha em um trailer na região e tem uma história especial com o teleférico. Ela foi uma das primeiras pessoas a andar no sistema, antes mesmo da inauguração oficial, ao lado do Filipe, da Ana Maria Braga. “Era muito bom”, recorda. Ela conta que, quando o teleférico parou, teve que subir o morro a pé porque não gosta de moto. O fechamento também afetou seu sustento: “Na época eu fazia almoço e servia para eles aqui do teleférico. Ficou ruim mesmo para a gente.” Sobre as estações abandonadas, ela sente medo. E o pedido é claro: “Que ele voltasse com o teleférico.”

Dona Adriana Vitorino Feliciano, de 53 anos, dona de casa, também andou no teleférico e guarda boas lembranças. “Dava medo, mas era boa. Era meu sonho andar.” Com a paralisação, ela passou a gastar com mototáxi e kombi. “Apertou muito”, afirma. Ao olhar para as torres fechadas, a sensação é de tristeza. “Coisa tão bonita, tão prática para a gente.” Ela ainda faz uma sugestão: se não for para reabrir, que o espaço vire uma escola ou creche para as crianças. “Tanta criança aí, tanto adolescente.”

Motoboy vê o sufoco dos idosos

Matheus, de 29 anos, é motoboy e nunca chegou a usar o teleférico, só ouviu falar. Mas ele vê no dia a dia a falta que o sistema faz. “Com certeza [o teleférico ajudaria]. É a esperança de muita gente aqui”, afirma. Ele conta que já levou dezenas de idosos de moto para a UPA e outros lugares. “A maioria que mora nos altos é tudo de idade. Já levei um monte de gente de moto lá para baixo.” Para ele, o teleférico seria um “adiantamento muito grande para a população, para as tias, para as senhorinhas que ficam subindo as escadas andando”. Sobre as estações abandonadas, ele critica o desperdício de dinheiro público: “A gente vê o dinheiro público sendo jogado fora.”

Uma porta para o turismo e para o dinheiro entrar na comunidade

Para quem trabalha com turismo, o teleférico é ainda mais do que transporte. É o que explica Alexandre Lourenço, de 55 anos, guia de turismo que roda roteiros pela Providência e Morro da Conceição. “A Zona Norte tá crescendo no seu turismo”, diz. Com o sistema de volta, ele já imagina roteiros unindo o morro a pontos como a Quinta da Boa Vista e o Maracanã.

O maior ganho, segundo Alexandre, é a mensagem que a reativação transmite: que o lugar é seguro. “É como se fosse um sinal, cara. Aqui eu posso vir, aqui eu estou seguro, aqui tem história”, resume. O impacto no comércio costuma ser rápido: bares, restaurantes e passeios culturais se movimentam assim que os turistas aparecem.

A reabertura já foi adiada dezenas de vezes. Enquanto isso, quem vive no Alemão enfrenta as ladeiras, a falta de acessibilidade e a insegurança. Mas a esperança de ver o teleférico de volta, com mais turismo e mais renda, ainda não acabou. Como resume Seu Antônio: “É importante voltar. E quanto antes.”

Edição: Jonas di Andrade