Banco Master: Moraes manda investigar Mendonça após PF apontar abusos
Fonte: portaltucuma.com.br | Data: 03/09/2026 22:05:49
Manaus (AM) – O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), encaminhou nesta quinta-feira (03/09) ao presidente da Corte, Edson Fachin, informações da Polícia Federal que apontam fortes indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade atribuídos, em tese, ao ministro André Mendonça. O material foi produzido no contexto do Inquérito 4.781, que apura a disseminação de notícias falsas, ameaças e ataques contra o STF e seus integrantes.
A decisão de Moraes é baseada em relatórios de inteligência produzidos pela PF a partir de informações relacionadas às investigações das operações Sem Desconto e Compliance Zero. Os documentos citam possíveis irregularidades na condução dos procedimentos e levantam suspeitas sobre a atuação de Mendonça em medidas investigativas, negociações de colaboração premiada e no direcionamento de apurações envolvendo autoridades.
Segundo Moraes, os relatórios apontam que Mendonça teria, em tese, adotado medidas que poderiam comprometer a imparcialidade judicial e favorecer determinados grupos políticos. Entre os pontos levantados estão a suposta interferência na condução de investigações da PF, o acesso direto a elementos ainda não submetidos à análise técnica e questionamentos sobre a preservação da cadeia de custódia das provas.

Relatórios da PF apontam interferências em investigações
Um dos principais pontos citados pela PF envolve o acesso a dados extraídos de aparelhos eletrônicos apreendidos durante as investigações. Os documentos apontam que Mendonça teria tido contato direto com dados brutos antes da conclusão de procedimentos técnicos, o que, segundo os investigadores, poderia gerar questionamentos sobre a cadeia de custódia e sobre a integridade do material utilizado como prova.
Os relatórios também mencionam a atuação do ministro em possíveis negociações de acordos de colaboração premiada. Segundo as informações encaminhadas a Moraes, Mendonça teria questionado advogados sobre etapas e conteúdos de negociações e mantido contatos relacionados a potenciais colaboradores. A PF afirma ainda que o ministro teria demonstrado desconfiança em relação à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Um dos episódios citados envolve Maurício Camisotti, investigado no caso. De acordo com o relatório, Mendonça teria discutido possíveis benefícios relacionados à colaboração que não estariam previstos legalmente. A PF afirma que a proposta não teria sido aceita pelos investigadores, que consideraram inadequadas as condições discutidas.
Os documentos também fazem referência ao controle de materiais apreendidos na Operação Sem Desconto. Segundo a PF, parte relevante do acervo permanecia sob controle físico de uma única agente da corporação, Letícia Magalhães Espósito, que também possuía acesso ao sistema utilizado para análise das movimentações financeiras. A situação foi apresentada no relatório como um dos elementos relacionados à preocupação com o controle e a preservação das provas.
Outro episódio mencionado envolve uma informação publicada pelo site Piauí em agosto de 2026. A reportagem divulgou uma imagem retirada do celular do senador Weverton Rocha. Segundo os documentos, a imagem teria aparecido anteriormente apenas em uma versão preliminar de material produzido no curso da investigação, o que levou a PF a levantar questionamentos sobre como o conteúdo chegou à publicação.
Moraes, Alcolumbre e filho de Lula aparecem nos relatórios
Os relatórios também apresentam acusações mais diretamente relacionadas ao próprio Alexandre de Moraes e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Segundo a PF, haveria indícios de que Mendonça teria direcionado parte da atuação investigativa contra os dois por razões pessoais ou políticas, inclusive com discussões sobre possíveis medidas cautelares.
O material cita ainda uma suposta tentativa de utilizar o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, como interlocutor para chegar a Alcolumbre. A PF interpretou determinadas movimentações como indícios de que a investigação poderia estar sendo utilizada para atingir adversários ou produzir consequências políticas.
Outro trecho considerado relevante pelos investigadores envolve a comparação entre o tratamento dado a diferentes personagens políticos. Os relatórios apontam diferenças na avaliação de elementos relacionados ao ex-prefeito de Salvador ACM Neto e a Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A PF questiona se critérios diferentes teriam sido utilizados na análise das informações envolvendo os dois.
O nome de Fábio Luís aparece, portanto, em meio à discussão sobre os critérios adotados nas investigações. A menção não significa que o relatório tenha estabelecido qualquer crime cometido pelo filho do presidente Lula, mas integra a argumentação da PF sobre uma possível aplicação desigual de critérios investigativos.

Os documentos também relatam supostas diferenças de tratamento envolvendo os ministros Dias Toffoli e Nunes Marques. Na avaliação apresentada pela PF, determinados episódios indicariam que Mendonça teria adotado padrões distintos conforme as pessoas atingidas pelas investigações ou medidas judiciais.
Entre as alegações mais graves está ainda a afirmação de que Mendonça teria demonstrado interesse em mudanças no comando da Polícia Federal e feito comentários relacionados à atuação do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Segundo os relatórios, teria sido discutida inclusive a possibilidade de Gonet ser ouvido como testemunha.
Diante do conjunto de informações, Moraes determinou o encaminhamento do material à Presidência do STF. A decisão cita dispositivos da Constituição, da Lei Orgânica da Magistratura e do Regimento Interno do Supremo para justificar que fatos envolvendo um integrante da Corte sejam submetidos ao presidente do tribunal para as providências consideradas cabíveis.
O encaminhamento, porém, não representa uma condenação de André Mendonça nem estabelece que os crimes tenham sido cometidos. O que existe, até o momento, são acusações e indícios descritos em relatórios da Polícia Federal e considerados por Moraes suficientemente relevantes para justificar a adoção de providências institucionais. Mendonça deverá ter direito à manifestação e ao contraditório no curso de eventual apuração.