Vazamentos do caso Master geram “salve-se quem puder” em Brasília
Fonte: brasil247.com | Data: 04/09/2026 07:07:22
247 – As recentes revelações decorrentes do rumoroso caso Master deflagraram, nos últimos dias, uma espécie de operação de “salve-se quem puder” envolvendo diferentes grupos de poder instalados em Brasília, informa Igor Gadelha, do Metrópoles. À medida que novas mensagens extraídas do telefone celular do empresário Daniel Vorcaro vêm a público e ampliam de forma significativa o alcance da crise institucional, esses diversos setores intensificam suas articulações para tentar preservar seus integrantes e reduzir os impactos políticos do episódio.
De um lado desse cenário, encontra-se o grupo composto pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e pelo diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Os três nomes foram citados nas mensagens do proprietário do Banco Master trazidas à tona recentemente. Diante do desgaste público resultante da exposição, as três autoridades passaram a atuar de forma coordenada para tentar atravessar o momento de turbulência com o menor dano possível às suas respectivas imagens.
Nesse movimento de autoproteção, o grupo conta com o apoio de um aliado de grande peso político na capital federal: o ministro Gilmar Mendes, atual decano do Supremo Tribunal Federal e reconhecido como uma das figuras mais experientes da cena política em relação à gestão de crises institucionais. Embora não tenha sido nominalmente citado no teor das mensagens vazadas, Gilmar Mendes mantém uma relação próxima de amizade e trabalho com Paulo Gonet, de quem já foi sócio no passado. O decano atuou como um dos principais padrinhos da indicação do atual chefe da PGR ao cargo. Além disso, o ministro pondera sobre o futuro do próprio tribunal e sobre os anos em que ainda atuará na Corte, avaliando que não lhe interessa a emergência de uma crise capaz de enfraquecer aliados estratégicos internamente.
Em uma tentativa de estruturar uma blindagem política, o grupo ligado a Moraes cobrou apoio do presidente Lula (PT). Como argumento para a cobrança, interlocutores enfatizaram que a Suprema Corte figurou como um dos pilares centrais de sustentação da governabilidade ao longo do terceiro mandato do governo federal.
Contudo, a reação do presidente da República não se deu nos moldes esperados pelos integrantes do grupo. Sem citar nomes de envolvidos, Lula divulgou um vídeo no qual defendeu abertamente a necessidade de apuração ampla sobre os fatos: “é fundamental que se investigue todo mundo sem blindagem, doa a quem doer”. A postura adotada pelo chefe do Executivo, a menos de um mês para a realização do primeiro turno das eleições, fundamentou-se em um cálculo político de que não poderia demonstrar omissão no atual momento, sob o risco de gerar prejuízos diretos para a sua campanha de reeleição.
Diante do impasse com o Palácio do Planalto, o grupo articulado em torno de Alexandre de Moraes voltou suas atenções contra o ministro André Mendonça. Foi Mendonça quem assinou a decisão responsável por autorizar o fim do sigilo judicial que permitiu a divulgação do conteúdo das mensagens de Daniel Vorcaro. Na noite de quinta-feira (3), Moraes formalizou ao presidente do STF, Edson Fachin, um pedido de investigação contra Mendonça pela suposta prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade.
Na petição encaminhada à presidência do tribunal, Moraes argumenta ainda que o colega deve ser investigado por um eventual favorecimento prestado a determinados grupos políticos. Na avaliação apresentada por Moraes, todos os supostos crimes teriam sido cometidos durante o exercício da relatoria dos processos relacionados ao Caso Master e às apurações relativas à Farra do INSS.
A contraofensiva do grupo atingiu igualmente o advogado-geral da União, Jorge Messias. O titular da AGU passou a ser alvo de críticas diretas por parte do comando da Polícia Federal, que o acusa de adotar uma postura omissa por não ter reagido formalmente às decisões proferidas por André Mendonça contra a corporação policial.
Jorge Messias, contudo, mantém proximidade com Mendonça e faz uma leitura diversa sobre os fatos. O advogado-geral da União interpreta as críticas dirigidas a ele como uma ação deliberada para provocar seu desgaste político, ao mesmo tempo em que busca resguardar o procurador-geral Paulo Gonet, autoridade que também detém competência legal para exercer o controle externo da atividade policial. O receio demonstrado pelo chefe da AGU é de que esse embate público venha a prejudicar seus planos de obter aprovação do Senado Federal caso seja indicado novamente pelo presidente Lula para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, conforme promessas feitas anteriormente.
Em meio ao acirramento das divergências entre as autoridades, o presidente do STF, Edson Fachin, vem medindo com cautela os passos de suas manifestações. O comandante da Corte busca equilibrar a complexa tarefa de preservar a imagem do tribunal perante a opinião pública sem comprometer a sua própria reputação de imparcialidade no processo.
Em outra ponta dessa dinâmica, encontra-se o ministro da Justiça e da Segurança Pública do governo federal, Wellington César Lima e Silva, que tenta transitar no episódio sem se desgastar. Mesmo estando à frente de uma pasta diretamente conectada aos principais órgãos envolvidos no conflito, Wellington tem mantido um perfil estritamente discreto. O ministro evita se expor publicamente, recusa-se a dar declarações sobre o tema e opta por não intervir nos embates travados entre a Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República e o Palácio do Planalto.
O panorama resultante é um ambiente de acentuada disputa e busca por preservação individual na capital do país. Cada setor envolvido busca consolidar sua versão sobre os acontecimentos, redefinir responsabilidades e estancar os desdobramentos das investigações do Caso Master sobre seus integrantes. A inserção de novos atores na controvérsia torna cada vez mais complexa a separação entre a apuração dos fatos e a disputa pela sustentação política dos envolvidos.
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