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Opinião | A saúde brasileira diante da 2.ª revolução quântica

Fonte: estadao.com.br | Data: 06/09/2026 03:00:00

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A próxima transformação da saúde será tecnológica e estratégica. Estamos vivendo uma nova era científico-tecnológica, a “2.ª revolução quântica”. Se a fase anterior viabilizou semicondutores, lasers e ressonância magnética, a atual se caracteriza pela manipulação de propriedades como superposição, emaranhamento e coerência, para medir, processar e transmitir informações. Esta transição já orienta políticas públicas e estratégias nacionais, deixando de ser uma perspectiva teórica para se tornar um pilar estratégico em curso.

Na saúde, alguns impactos já se tornam tangíveis, sobretudo no sensoriamento, dentro de um conjunto heterogêneo de tecnologias. A computação quântica promete avanços em simulação molecular e otimização; a comunicação quântica evolui na proteção de dados sensíveis; e o sensoriamento quântico, mais maduro, destaca-se em metrologia e, progressivamente, em diagnósticos médicos de alta precisão.

A saúde contemporânea é um sistema intensivo em dados, altamente complexo e sob pressão por eficiência e qualidade. Tecnologias quânticas podem atuar como infraestrutura habilitadora: desde a proteção de prontuários e dados genômicos até o apoio à modelagem de sistemas hospitalares, gestão de fluxos assistenciais e análise de grandes bases biomédicas. A computação quântica, ainda em maturação, já orienta pesquisas em simulação molecular e otimização, enquanto sua convergência com inteligência artificial aponta para uma ampliação da capacidade de prestação de serviços em saúde.

Na prática clínica, o avanço mais imediato ocorre no campo do sensoriamento. A magnetoencefalografia baseada em magnetômetros opticamente bombeados (OPM-MEG) ilustra bem esse movimento: ao permitir o registro da atividade cerebral com sensores posicionados mais próximos e flexíveis, amplia a aplicabilidade dos exames em populações antes limitadas, como crianças pequenas e pacientes com restrições motoras. Em neurocirurgia e neuropediatria, isso se traduz em melhor localização de focos epilépticos, apoio ao planejamento cirúrgico e acompanhamento mais preciso do neurodesenvolvimento. Mais do que isso, abre caminho para a detecção precoce de alterações funcionais em doenças neurodegenerativas e distúrbios do neurodesenvolvimento.

Sensores quânticos, como magnetômetros baseados em centros nitrogen-vacancy (NV) em diamante, permitem investigações em escala nanométrica, mapeando campos magnéticos e variações térmicas celulares. Essas capacidades abrem novas frentes de pesquisa biomédica, com potencial aplicação futura para a oncologia. Outras linhas de desenvolvimento em sensoriamento e metrologia de alta precisão também apontam para aplicações futuras em sistemas distribuídos de diagnóstico.

Na oncologia, o impacto não se limita ao diagnóstico por imagem. A simulação molecular, ainda em estágio inicial, pode acelerar a descoberta de fármacos e a compreensão de interações complexas entre moléculas, abrindo caminho para terapias mais direcionadas. Na neurologia e psiquiatria, a possibilidade de medir a atividade cerebral com maior precisão funcional pode contribuir para a compreensão de doenças da mente, hoje frequentemente diagnosticadas por critérios clínicos indiretos.

Um ponto central é que essas tecnologias não devem ser tratadas como curiosidade científica. Num sistema de saúde sob pressão como o brasileiro, ganhos em diagnóstico precoce, precisão terapêutica e eficiência operacional impactam diretamente custos, qualidade do cuidado e equidade de acesso. Na gestão hospitalar e nos planos de saúde, podem contribuir para melhor alocação de recursos, inclusive por meio de técnicas de otimização, favorecendo a integração entre o sistema público (SUS) e o privado.

O desafio, portanto, é estratégico: ainda que nem todas as promessas se concretizem no curto prazo, a escala, o potencial disruptivo e a velocidade da transformação exigem reflexão imediata sobre formação de recursos humanos, pesquisa e investimentos, integração entre centros de pesquisa e hospitais, além de regulação e governança.

A saúde oferece um campo privilegiado para essa construção. Ela combina escala, necessidade social e capacidade de orientar inovação. A revolução quântica, nesse sentido, não é apenas um fenômeno tecnológico, mas uma oportunidade para repensar como medimos, decidimos e cuidamos dos brasileiros, com mais precisão, segurança e capacidade de antecipação. Adiar esse movimento implica aceitar dependência tecnológica futura em áreas sensíveis, limitando o desenvolvimento e o bem-estar da sociedade.