Proibida no país, ‘caça esportiva’ reúne milhares de adeptos em comunidades nas redes
Fonte: veja.abril.com.br | Data: 06/09/2026 08:00:58

Em um grupo de Facebook com milhares de integrantes, um homem posa ao lado de uma paca recém-abatida. Em outro, caçadores exibem tatus alinhados no chão após uma incursão pela mata. Há ainda fotos de cães treinados para perseguir presas, anúncios de venda desses animais e discussões sobre armas, munições, GPS e equipamentos de visão noturna. “Uma das melhores sensações”, comenta um dos membros em um vídeo que mostra o exato momento em que um bicho é atingido. As publicações oferecem um retrato de um passatempo que desafia a legislação brasileira: matar espécies silvestres por puro prazer.
A chamada caça esportiva é proibida no país há quase meio século, mas continua reunindo milhares de adeptos em comunidades espalhadas pelas redes. Com a disseminação dessas plataformas, os praticantes passaram a compartilhar ali imagens de suas presas, transformando em espetáculo aquilo que antes permanecia restrito a círculos fechados. Tatus, cotias, capivaras, aves e pacas aparecem mortos ou agonizando diante das câmeras, enquanto os comentários se enchem de elogios, dicas e relatos de expedições.
O que para a lei configura crime ambiental é tratado nesses espaços como mais um hobby ao ar livre. E não é pouca gente que adere. A dimensão do fenômeno acaba de ser mensurada por pesquisadores do University College London (UCL), que decidiram destrinchar tal aberração no universo virtual. No estudo, recém-publicado na revista científica Biological Conservation, eles repousam a lupa sobre mais de 2 000 postagens disseminadas por perfis brasileiros, muitos falsos ou sem identificação clara. O levantamento constatou 4 658 exemplares abatidos de 157 espécies em cerca de um ano, algumas delas ameaçadas de extinção. Havia evidências da ação de caçadores em 790 municípios de todos os estados — Pará e Rio Grande do Sul no topo da lista. “A caça é muito difícil de medir e monitorar por se tratar de uma atividade dentro de imensas florestas, daí termos recorrido às redes para fazer a análise”, conta o biólogo Hani El Bizri, autor do estudo.
Ao mapear tais grupos, a turma baseada em Londres estabeleceu um elo entre o avanço da caça esportiva ilegal e a expansão do acesso às armas de fogo no país: foi justamente nas cidades com maior concentração de registro de espingardas e revólveres que a prática se espalhou. A ascensão da atividade se deu junto a mudanças promovidas a partir de 2019, no governo de Jair Bolsonaro, quando uma série de decretos ampliou os limites para compra de armas e munições por colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs). Ainda hoje é mais fácil obter armamentos do que uma década atrás. “Em paralelo, também se viu um enfraquecimento das estruturas de proteção e fiscalização ambiental, criando um clima de maior permissividade”, avalia a cientista ambiental Thais Morcatty, também da UCL.
A principal porta de entrada para o arsenal exibido por esses clubes está na única modalidade de abate autorizada no Brasil: o controle do javali. Espécie exótica que provoca prejuízos à agricultura e ameaça a fauna nativa, ela pode ser caçada por gente previamente autorizada por órgãos ambientais. A permissão foi concedida pelo Ibama em 2013, após a explosão populacional dos javalis e dos chamados javaporcos, híbridos do cruzamento entre javalis europeus e porcos domésticos. O que se verifica desde então são milhares de pessoas adquirindo, pela via dos CACs, armamentos sob a falsa justificativa de lutar contra o animal invasor.

Na prática, muitos usam a licença para fazer caça ilegal. Trata-se também de um crime contra o meio ambiente. Cada animal retirado da natureza exerce uma função que deixa de ser cumprida. Quando cotias e pacas (os que mais estão na mira) desaparecem, diminui a dispersão de sementes de diversas espécies vegetais, por exemplo. O resultado é um fenômeno conhecido como defaunação — um desmatamento invisível em que a floresta permanece de pé, mas perde progressivamente os animais que nela habitam. O desequilíbrio também atinge os humanos. “A caça leva a uma proximidade com espécies que sabidamente aumentam o risco de epidemias”, explica o biólogo Hugo Fernandes-Ferreira.
A combinação entre baixa fiscalização, punições brandas e a dificuldade de monitorar áreas tão extensas produz um cenário em que os praticantes apostam na impunidade. É verdade que a Lei de Crimes Ambientais prevê multa e detenção de seis meses a um ano para quem mata, captura ou persegue animais silvestres sem autorização, mas a responsabilização depende, na maioria das vezes, de denúncias ou flagrantes nas remotas regiões em que os abates proliferam.
Presente no planeta desde os primeiros hominídeos, que dela precisavam para sobreviver, a caça ganhou sua face recreativa na Antiguidade, foi abraçada pela nobreza europeia na Idade Média e mais tarde, no século XIX, se popularizou. Países como Estados Unidos, Alemanha e Espanha a liberam em certas condições e, em geral, sob uma vigilância que falta ao Brasil. “Grupos daqui exibem a atividade nas redes porque acreditam que jamais serão pegos”, diz Erika Bechara, especialista em direito ambiental. Já está mais do que na hora de ir à caça dos caçadores.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011