O SUS não pode continuar remunerando por procedimento, mas pela qualidade do trabalho’, diz Ludhmila Hajjar
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 08/09/2026 05:10:42
Mais qualidade nos procedimentos de alta complexidade, acesso a bons planos de saúde e medicamentos, redução drástica nas filas das consultas do SUS, estão entre os grandes buracos. Para discutir os temas que terão forte influência na escolha do próximo presidente da República, o GLOBO convidou cinco médicos de especialidades diferentes para escreverem semanalmente, até o fim deste mês, sobre o que tem de melhorar.
Batizado de A Saúde nas Eleições, esse projeto começa hoje com a intensivista e cardiologista Ludhmila Hajjar expondo os desafios na área da alta complexidade. Nas quatro semanas seguintes serão o sanitarista Gonzalo Vecina, a ginecologista Marianne Pinotti, o cirurgião Ben-Hur Ferraz Neto e o oncologista Fernando Maluf.
A seguir, as propostas de Ludhmila Hajjar.
“O próximo presidente da república terá diante de si uma escolha que pode definir o futuro do SUS: continuar administrando filas ou transformar a alta complexidade brasileira em uma rede nacional de inteligência, velocidade e resultados.
Não basta fazer mais cirurgias. Não basta incorporar novos medicamentos. Não basta abrir novos serviços. O Brasil precisa fazer melhor, mais rápido, com mais integração e, sobretudo, com mais inteligência.
A alta complexidade é onde o SUS mais salva vidas e onde mais pode desperdiçar recursos quando funciona de maneira fragmentada. É ali que estão as cirurgias cardíacas, transplantes, tratamentos oncológicos, terapias gênicas, medicamentos de altíssimo custo, neurologia, ortopedia complexa, radioterapia, hemodinâmica e tantos outros procedimentos que podem significar a diferença entre viver, sobreviver com sequelas ou morrer.
O problema é que ainda tratamos essa rede como um conjunto de hospitais e procedimentos, quando deveríamos tratá-la como um único sistema.
O próximo presidente deveria assumir uma meta nacional: nenhum brasileiro deveria esperar meses ou anos por um procedimento de alta complexidade sem que o Estado saiba exatamente quem ele é, qual seu risco, onde está e qual é o melhor lugar e o menor tempo possível para tratá-lo. Isso exige uma mudança radical de lógica.
A primeira revolução é a da fila. Fila não pode ser apenas uma lista. Deve ser um instrumento clínico de gestão. Cada paciente precisa ter uma classificação de risco, diagnóstico, tempo de espera, necessidade terapêutica e previsão de atendimento. Inteligência artificial pode ajudar a identificar quem está piorando, quem corre maior risco de complicação e quem precisa ser antecipado. O cidadão não pode desaparecer dentro de uma planilha.
O Brasil já avançou ao criar mecanismos de redução de filas e integração da atenção especializada. Agora precisa dar o passo seguinte: transformar dados dispersos em uma verdadeira Central Nacional Inteligente de Acesso à Alta Complexidade, conectada aos estados, municípios e hospitais.
O segundo ponto é a cirurgia. Precisamos parar de medir sucesso apenas pelo número de operações realizadas. Uma cirurgia realizada depois de um ano de espera não representa o mesmo resultado que uma cirurgia feita no tempo clinicamente adequado. O indicador nacional deveria ser o tempo entre a indicação médica e o tratamento efetivo.
E os hospitais deveriam ser avaliados por indicadores que realmente importam: tempo de espera, mortalidade, complicações, reinternações, permanência hospitalar, desfechos clínicos e experiência do paciente.
O pagamento também precisa mudar. O SUS não pode continuar remunerando predominantemente procedimento por procedimento, como se cada ato assistencial fosse independente do resultado. O futuro é o financiamento orientado por valor: pagar melhor quem entrega qualidade, resolutividade e acesso no tempo adequado. É perfeitamente possível criar contratos de desempenho para hospitais de alta complexidade. Mais recursos para quem reduz filas, diminui complicações, melhora resultados e utiliza adequadamente os recursos públicos. Menos espaço para desperdício, ineficiência e produção sem impacto real na saúde.
O terceiro grande desafio são os medicamentos de alto custo. O Brasil não pode escolher entre duas posições igualmente ruins: negar inovação ao paciente ou incorporar qualquer tecnologia nova sem considerar sustentabilidade, sendo refém da indústria farmacêutica. Precisamos de uma política nacional de acesso inteligente à inovação.
A Conitec já avalia eficácia, segurança, efetividade e impacto econômico das tecnologias. O próximo governo deveria fortalecer esse modelo com mecanismos mais modernos: acordos de compartilhamento de risco, pagamento por resultado, incorporação escalonada e renegociação de preços quando o volume de utilização crescer.
Se um medicamento custa milhões e promete transformar a vida de um pequeno grupo de pacientes, o Estado precisa saber não apenas quanto gastou, mas quantos pacientes realmente responderam ao tratamento. É possível fazer isso. O paciente recebe. O sistema acompanha. O resultado é medido. O pagamento pode estar parcialmente vinculado ao benefício produzido. Isso é inteligência aplicada à saúde pública.
O quarto ponto é a integração. Hoje, um paciente pode passar pela atenção básica, fazer um exame em um município, consultar um especialista em outro, ser internado em um terceiro e voltar para casa sem que todas essas informações estejam efetivamente conectadas. Isso é caro. E é perigoso.
O SUS precisa de uma infraestrutura nacional de dados clínicos interoperáveis. Um prontuário que acompanhe o cidadão, e não o hospital. Uma inteligência que permita ao gestor enxergar, em tempo real, onde existem filas, leitos, equipamentos, especialistas, salas cirúrgicas e capacidade ociosa. Se um hospital está com 100% de ocupação e outro, a poucos quilômetros, tem capacidade disponível, o sistema precisa saber. Se uma máquina de radioterapia está parada enquanto pacientes aguardam tratamento, o sistema precisa saber. Se uma sala cirúrgica está ociosa durante determinado período, o sistema precisa saber. E, principalmente, o paciente precisa saber. Transparência também é tecnologia.
O quinto ponto é talvez o mais importante: o Brasil precisa parar de confundir alta complexidade com grandes hospitais, inaugurações e novos leitos. Alta complexidade deve ser organizada em redes regionais de excelência. Nem todo hospital precisa fazer tudo. Aliás, tentar fazer tudo em todos os lugares pode ser justamente a maneira mais cara e menos segura de organizar o sistema. Procedimentos raros e extremamente complexos precisam de centros de excelência com volume suficiente para garantir qualidade. Ao mesmo tempo, diagnóstico, acompanhamento e parte importante da recuperação podem estar mais próximos do cidadão. É preciso regionalizar sem fragmentar. Concentrar expertise quando necessário e distribuir acesso quando possível.
O próximo presidente também terá de enfrentar um tabu: o SUS precisa comprar melhor. Medicamentos, órteses, próteses, equipamentos, exames e serviços de alta complexidade movimentam bilhões de reais. O poder de compra do Estado brasileiro é gigantesco. Ainda usamos pouco esse poder para negociar preços, estimular produção nacional, desenvolver tecnologia e reduzir custos. Compras centralizadas, contratos de longo prazo, competição, transparência e negociação baseada em volume podem liberar bilhões para aquilo que realmente importa: atender mais pessoas.
E existe uma última transformação: inteligência artificial (IA). Não como substituta de médicos, enfermeiros ou gestores. Mas como uma camada de inteligência sobre o sistema. A IA pode prever demanda, identificar risco clínico, organizar filas, detectar desperdícios, apoiar diagnóstico, otimizar centros cirúrgicos, prever ocupação hospitalar e acompanhar resultados.
O hospital do futuro não será necessariamente o que tiver mais equipamentos. Será o que souber coordenar melhor pessoas, dados, tecnologia e recursos. O próximo presidente deveria, portanto, apresentar ao país um Plano Nacional de Alta Complexidade 2030, com cinco compromissos claros: reduzir drasticamente o tempo de espera; integrar dados e regulação; financiar por qualidade e resultado; acelerar o acesso responsável à inovação; e criar uma rede nacional de centros de excelência conectada digitalmente.
O objetivo não deve ser gastar mais. Deve ser entregar mais saúde com cada real gasto. Essa talvez seja a maior oportunidade do próximo governo: mostrar que responsabilidade fiscal e SUS forte não são conceitos opostos. Ao contrário. Um SUS inteligente desperdiça menos. Um SUS integrado demora menos. Um SUS que mede resultados melhora mais. E um SUS que utiliza tecnologia para tomar decisões melhores pode atender mais brasileiros sem precisar simplesmente aumentar a conta.
O desafio da próxima década não será apenas financiar a alta complexidade. Será fazer o Brasil abandonar definitivamente a cultura da espera. Porque, na medicina de alta complexidade, tempo não é apenas uma variável administrativa. Tempo é tratamento. Tempo é prognóstico. Tempo é vida.”