Receita Federal testa tecnologia em outubro para criar “fronteira inteligente” em Foz
Fonte: radioculturafoz.com.br | Data: 09/09/2026 00:20:43
A Alfândega da Receita Federal de Foz do Iguaçu começará em outubro a testar novas tecnologias no fluxo de pedestres da fronteira. A iniciativa faz parte do plano de gestão 2026–2028, que pretende transformar Foz no principal laboratório nacional de inovação aduaneira terrestre.
Em entrevista à Rádio Cultura, o delegado da Receita Federal em Foz, Marcelo Mossi Vendramini, informou que as tratativas estão em estágio avançado com o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), empresa pública responsável por soluções tecnológicas utilizadas pela Receita. “Vamos passar a implementar algumas mudanças para validação agora no mês de outubro, inicialmente no fluxo de pedestres, para agilizar o fluxo e ao mesmo tempo aumentar o controle”, explicou.
Segundo Mossi, a proposta é utilizar tecnologia para superar uma dificuldade histórica das aduanas: aumentar a fiscalização sem reduzir a capacidade de passagem de pessoas. “Eu saio daquela disputa do aumento do controle da fiscalização em prejuízo do fluxo e passo a ter uma situação em que aumento o controle, tenho melhores condições para fiscalização e, ao mesmo tempo, dou mais condições de fluxo”, afirmou.
Foz será laboratório de novas tecnologias de fronteira
O projeto integra o plano de gestão da Alfândega para o triênio 2026–2028, apresentado inicialmente ao Conselho Superior da Associação Comercial e Empresarial de Foz do Iguaçu (ACIFI). A estratégia é transformar a estrutura aduaneira da cidade em referência para outras fronteiras terrestres do país.
Atualmente, grande parte da fiscalização ainda depende de abordagens presenciais, verificações físicas e intervenções manuais. A proposta é avançar para um sistema baseado em informações antecipadas, inteligência, gestão de riscos, fiscalização seletiva, automação e monitoramento remoto.
Segundo o delegado-adjunto da Alfândega, Fabiano Diniz, a unidade deverá deixar de concentrar esforços apenas na implantação de estruturas físicas e passar a liderar uma transformação no modelo brasileiro de fiscalização terrestre. A Receita pretende desenvolver soluções que posteriormente possam ser replicadas em outras regiões do país.
Ponte da Amizade terá modelo de “Aeroporto sem Avião”
Um dos oito eixos estratégicos do plano prevê a modernização da Aduana da Ponte Internacional da Amizade. Com a transferência progressiva do transporte de cargas para a Ponte da Integração, a Receita pretende direcionar a Ponte da Amizade principalmente ao turismo, bagagens e fiscalização baseada em inteligência.
O conceito apresentado pela Alfândega foi chamado de “Aeroporto sem Avião”: controles semelhantes aos utilizados em terminais aeroportuários, mas aplicados a uma fronteira terrestre com grande circulação diária. Outro eixo prevê a consolidação dos modelos operacionais das novas aduanas da Ponte da Integração e da Ponte Tancredo Neves, estruturas físicas que já estão concluídas.
Black Friday terá medidas provisórias
Embora os primeiros testes tecnológicos estejam previstos para outubro, as novas soluções ainda não estarão totalmente implementadas para a Black Friday de Ciudad del Este, marcada para novembro.
Marcelo Mossi explicou à Rádio Cultura que a Receita trabalha paralelamente em medidas específicas para melhorar o fluxo durante o período de maior movimento de turistas. “Essa validação de outubro não vai estar disponível ou suficientemente implementada já para o mês de novembro”, afirmou.
A Receita iniciou reuniões com representantes da Câmara de Comércio e organizadores da Black Friday de Ciudad del Este para discutir as necessidades relacionadas ao aumento da circulação na Ponte da Amizade.
Segundo o delegado, pequenas alterações poderão ser realizadas utilizando a estrutura existente. “Nós já temos pensadas algumas medidas para que a gente consiga, com a estrutura que a gente tem hoje, dar a melhor fluidez possível. Vamos fazer algumas mudanças pequenas ali que vão dar mais fluxo, com certeza, para aqueles dias específicos”, disse.
Oito eixos estratégicos
O planejamento da Receita Federal para Foz do Iguaçu foi dividido em oito frentes: consolidação das novas aduanas; fronteira inteligente e gestão de riscos; modernização da Ponte da Amizade; novo Porto Seco e logística; combate ao contrabando e descaminho; gestão de pessoas; governança patrimonial; e inovação com possibilidade de replicação nacional.
O plano também prevê a criação de um Centro Integrado de Enfrentamento aos ilícitos transfronteiriços, destinado a funcionar como uma segunda camada de fiscalização sobre rotas alternativas, pontos de transbordo e estruturas utilizadas fora dos pontos oficiais de entrada e saída do país. Outro projeto é a criação de uma Universidade Corporativa de Fronteiras e de um Laboratório Nacional de Inovação.
Fronteira movimenta 126 mil pessoas por dia
Os números apresentados pela Alfândega ajudam a dimensionar o desafio. Os principais pontos de fronteira sob responsabilidade da unidade registram cerca de 50 mil veículos e 126 mil pessoas por dia em trânsito internacional. O Aeroporto Internacional de Foz recebe aproximadamente 2,5 milhões de passageiros por ano.
Já o Porto Seco registra cerca de 215 mil veículos de transporte internacional de cargas anualmente, enquanto a corrente de comércio sob responsabilidade da unidade movimenta cerca de US$ 5,3 bilhões por ano.
Para a Receita Federal, a combinação entre a abertura de novas aduanas, o novo Porto Seco, mudanças na Ponte da Amizade e o avanço da tecnologia cria uma oportunidade para transformar o modelo de fiscalização da fronteira nos próximos três anos.