Caps de Fortaleza atende dependentes de jogos eletrônicos
Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 09/09/2026 03:12:58

OBRAS tiveram investimento de R$ 700 mil
Usuários com dependência em jogos eletrônicos estão entre o público que busca tratamento no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD II) Dr. José Glauco Bezerra Lobo, no bairro Cidade 2000, em Fortaleza.
O perfil de atendimento foi divulgado pela gestora da unidade, Érika Nobre, durante a entrega da requalificação do equipamento, realizada pela Prefeitura de Fortaleza, na manhã de ontem, 8.
O Caps AD II compõe a Rede de Atenção Psicossocial (Raps) de Fortaleza e realiza atendimento exclusivamente ao público adulto. Sem informar números de atendimentos, Érika, que é terapeuta ocupacional, explica que o Plano Terapêutico Singular (PTS) do paciente considera a condição de dependência a jogos eletrônicos como um vício.
“Para dependência de jogos eletrônicos, ele (usuário) vai buscar aqui o Caps porta aberta também; vai passar pelo acolhimento inicial, onde a gente vai fazer toda a história e entender qual o papel desse jogo na vida dele. A partir daí, a gente vai destinar aos outros atendimentos”, detalha.
A gestora explica que o tratamento é feito a partir da necessidade da pessoa, considerando a rotina e a disponibilidade. “Muitos ainda trabalham, não têm tanta disponibilidade de estar vindo todos os dias, só têm disponibilidade de uma vez na semana. E aí tudo isso é feito dentro do PTS deles”, explica.
Caps AD da Cidade 2000 estava em obras desde 2025
O Caps AD II Dr. José Glauco Bezerra Lobo estava em obras desde outubro de 2025. Outras cinco unidades deverão ser entregues requalificadas até o final do mês, de acordo com o prefeito Evandro Leitão (PT). Ao todo, o Município conta com 16 Caps.
O equipamento possui acolhimento noturno, distribuído em três dormitórios, com seis vagas para homens e três para mulheres. Segundo o prefeito, este é o único Caps AD com funcionamento 24 horas, até o momento.
“A tendência que tem é essa, de nós procurarmos cada vez mais ampliar e estender os horários de atendimento. Mas antes temos que recuperar os equipamentos (…). Não adianta a gente estar querendo ampliar sem ter condições mínimas necessárias para o bom atendimento”, destacou.
Segundo o chefe do Executivo Municipal, desde janeiro, a unidade já realizou mais de 15 mil atendimentos. A requalificação contou com um investimento de R$ 700 mil.
“Colocamos como meta agora, em setembro, entregar dez equipamentos, os dez equipamentos para a rede Caps, requalificados em Fortaleza, num mês simbólico, que é o mês do Setembro Amarelo – o mês alusivo à saúde mental – para que a gente possa jogar luzes, dar uma importância maior a um problema que cada vez mais vem se alastrando na população”, destacou.
O equipamento integra um complexo de saúde que reúne, até agora, o Posto de Saúde Rigoberto Romero, e a Unidade de Acolhimento Dr. Marcus Vinícius Ponte de Souza. Durante a solenidade, sem informar data, o prefeito anunciou ainda a construção de uma nova Residência Terapêutica, que será instalada em um terreno localizado atrás da unidade.
O prefeito destacou que o objetivo é chegar a dez Residências Terapêuticas em Fortaleza. Atualmente, a Cidade conta com quatro unidades.
A secretária da Saúde de Fortaleza, Riane Azevedo, destacou que a escolha das unidades a serem requalificadas seguiu um relatório de urgência estrutural, priorizando aquelas com uma estrutura física mais comprometida.
Equipamento prioriza desintoxicação e internação curta
O Caps AD funciona em regime de portas abertas, de segunda-feira a domingo, com acolhimento inicial disponível de 7h às 17 horas. Atualmente, a unidade conta com nove leitos para atendimento 24 horas, sendo seis vagas para homens e três para mulheres.
A internação depende da avaliação e indicação da equipe clínica. O tempo de permanência no atendimento integral é de até 10 dias. Após esse período, o paciente poderá ser encaminhado para unidades de acolhimento, caso necessário.
O atendimento é exclusivamente ao público adulto. A terapeuta ocupacional e gestora da unidade, Érika Nobre, detalhou que, após o atendimento inicial, o Plano Terapêutico Singular (PTS) é construído em conjunto com o usuário.
“Caso ele precise da desintoxicação, ele solicita e a gente vai ver. Tendo vaga, ele já entra. E a gente fica com eles aqui 24 horas, por 14 dias, fazendo essa desintoxicação, não só química, é social também, muitas vezes”, explica.
Há nove dias, André Lucas, 24, é um dos usuários que está internado na unidade. A busca pelo acolhimento surgiu de uma iniciativa própria e contou com o apoio da mãe. Segundo ele, a internação se fez necessária após André começar a vender os itens da própria casa e cometer pequenos delitos para sustentar o vício, que começou ainda aos 15 anos.
O jovem conta que, no local, sua rotina inclui uma série de atividades que auxiliam na sua recuperação. “A gente faz umas leituras, joga bola, às vezes. Aí tem um dominó, tem uma dama para gente brincar também. Eu, particularmente, todo dia faço aqui umas flexões, um cardiozinho, porque eu tô ficando gordinho, aí eu tenho que ficar bom”, detalha.
André Lucas também destaca a importância de ter um local seguro e confortável para passar a noite. “Eu durmo aqui. A gente dorme aqui e é no ar condicionado ainda, viu?”, agradece.
Desde os 18 anos, Jacqueline Teixeira, 36, enfrenta problemas relacionados ao uso de drogas. Na manhã de ontem, ela foi ao Caps AD em busca de internação. “Eles não me julgam, não me apontam e não ficam dizendo que eu errei. Pelo contrário”, compartilha.
Atualmente desempregada, Jacqueline relata que sempre que precisa de ajuda, encontra apoio nos profissionais da rede Caps. “Eu tenho apoio psicológico, tenho acompanhamento psiquiátrico, tenho tudo que eu preciso, todo o aparato para ficar bem. Só eu que vacilo de vez em quando”, admite.
Inicialmente, ela informa que a intenção é conseguir uma vaga para internação rápida e, no futuro, voltar a participar dos grupos de acompanhamento. “Normalmente, eu merendo, eles dão almoço, dão tudo pra gente se sentir bem”.
“Ele, o Caps, também me fortalece porque eu escrevo poemas e poesias. Então, ele me dá muito apoio e as meninas sempre estão pedindo poesias, que é uma forma de eu trabalhar a minha mente para ficar ocupada”, defende.