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BRASILIANAS | Sem orçamento nem financiamento, compra dos 15 novos trens do metrô é paralisada pelo Tribunal de Contas

Fonte: correiodamanha.com.br | Data: 09/09/2026 06:43:41

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Decisão do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), tomada em 3 de setembro e tornada pública nesta terça-feira (08), travou o processo da licitação internacional para a compra de 15 novos trens do Metrô. A compra estava estimada em R$ 1 bilhão.

“Brasilianas” apurou que a decisão deve-se ao descumprimento das exigências da Lei de Responsabilidade Fiscal, que impede contratações de longo prazo sem cobertura fiscal definida no fim do exercício (fim de governo).

A decisão interrompe o processo porque o Governo do Distrito Federal (GDF) não indicou recursos nem fonte de financiamento para um investimento dessa dimensão. Contratações de alto valor e de longo prazo só podem ser autorizadas quando há previsão na Lei Orçamentária Anual (LOA) e indicação clara da origem dos recursos – nenhuma das condições foram atendidas pelo GDF.

Edital com efeito apenas eleitoral

A governadora Celina Leão (PP) havia lançado o edital no dia 3 de julho, durante uma cerimônia oficial marcada pela assinatura de uma ordem de serviço (sem efeito prático, apenas eleitoral). A medida ocorreu no último dia permitido pela legislação eleitoral para anúncios de obras e inaugurações, e foi apresentada como etapa decisiva para a modernização do sistema metroviário.

No entanto, como “Brasilianas” já havia registrado na edição de 6 de julho, o governo não possuía lastro financeiro para sustentar a concorrência internacional. A rubrica do Metrô-DF não tinha previsão de recursos, e o Distrito Federal enfrentava (e ainda enfrenta) baixa capacidade de endividamento devido à classificação de risco C, agravada pela situação envolvendo o BRB e o Banco Master.

“Obstáculo praticamente instransponível”

Segundo uma fonte ouvida ontem pela coluna, o obstáculo apresentado pelo TCDF é “praticamente instransponível”, já que a ausência de cobertura fiscal e de cobertura legal impede o avanço de qualquer contratação de grande porte.

Com a suspensão publicada ontem, o Metrô-DF não pode receber propostas (previstas para a próxima semana) nem avançar para a fase de julgamento, e o cronograma anunciado pelo governo para assinatura do contrato ainda em 2026 fica comprometido.

O processo permanece sob análise do TCDF – e está sob sigilo-, que aguarda esclarecimentos e ajustes do GDF para decidir sobre o prosseguimento da concorrência. Certamente, ficará para o próximo governo.

Macaque in the trees
A vistoria técnica identificou apenas 19 composições em circulação no horário de pico, sendo 12 em horários normais. Ao todo, o Metrô-DF tem (ou deveria ter) 32 trens | Foto: Divulgação/Metrô-DF

A suspensão da licitação interrompe o único processo em curso capaz de reverter o grave quadro operacional

A suspensão da licitação publicada ontem no Diário Oficial do DF ocorre em um momento crítico para o Metrô=DF, cujo balanço operacional de 2026 revela a pior crise do sistema em mais de uma década.

A frota circulante encolheu, a quantidade de falhas aumentou e o volume de reclamações atingiu o maior patamar do ano. Apenas 19 dos 32 trens disponíveis operam no pico, abaixo do mínimo necessário (22 trens) para manter o intervalo projetado, enquanto nove composições estão em manutenção e quatro foram classificadas como irrecuperáveis.

A Ouvidoria do GDF registrou 844 manifestações entre janeiro e agosto, sendo 91,5% reclamações formais, e julho concentrou o maior volume de queixas, com salto de 108% em relação ao início do ano.

A rede metroviária do DF enfrentou episódios graves que pressionaram ainda mais a operação. Em 28 de julho, um trem de manutenção descarrilou entre as estações 110 Sul e 112 Sul, bloqueando o Aparelho de Mudança de Via e fechando completamente o túnel da Asa Sul.

Passageiros tiveram de abandonar as estações e buscar alternativas de transporte, enquanto o sistema operou com velocidade reduzida por dias. Até hoje, não se apontou a causa real do problema – e nem se sabe de onde surgiu uma peça de aço que caiu nos trilhos e provocou a pane.

Em 24 de agosto, descargas elétricas decorrentes das chuvas atingiram a rede de energia e o sistema de sinalização, interrompendo a circulação entre a Estação Central e a Asa Sul. Passageiros desembarcaram no meio do túnel e caminharam pelos trilhos no escuro, em meio a tumulto e confusão na evacuação.

Falhas de sinalização provocaram episódios de ‘falsa ocupação’, travando o fluxo de viagens nas ramificações de Samambaia e Ceilândia e superlotando a Estação Águas Claras.

Em junho, seis pessoas ficaram presas por mais de 25 minutos em um elevador que sofreu trancos e parou repentinamente, com o botão de pânico falhando no acionamento inicial.

Câmara Legislativa acompanha de perto

A fiscalização da Câmara Legislativa do DF aponta defasagem histórica de investimentos que ultrapassa R$ 1 bilhão nos últimos sete anos e alerta para risco real de colapso caso medidas emergenciais não sejam adotadas.

O Metrô do DF perdeu mais de 35 mil passageiros nos primeiros quatro meses de 2026, indicando migração para outros meios de transporte diante da falta de confiabilidade do serviço.

A expansão das linhas em Samambaia (em obras) e de Ceilândia (em licitação), que soma cerca de 6 km e quatro novas estações, depende diretamente da entrada de novos trens para sustentar o intervalo projetado e absorver o fluxo diário do corredor Sudoeste.

Sem reforço da frota, o sistema não consegue reduzir os atuais 17 minutos entre viagens nem alcançar a capacidade estimada de até 450 mil passageiros por dia.