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Terapias inovadoras controlam o câncer por anos, mas acesso ainda limita avanços no Brasil

Fonte: estadao.com.br | Data: 09/09/2026 14:47:04

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O avanço de terapias que atuam sobre características específicas dos tumores está mudando a forma de tratar o câncer. Em determinados casos, pacientes que antes tinham poucas alternativas hoje conseguem controlar a doença por anos, com qualidade de vida. A possibilidade de transformar alguns tipos de câncer em condições crônicas, porém, convive com um desafio central: garantir que a inovação chegue a quem precisa dela.

Esse foi o tema central do painel “Terapias inovadoras que mudam vidas e ampliam o acesso”, da 6ª edição do Retratos do Câncer, fórum realizado pelo Estadão Blue Studio.

A conversa contou com as participações de Carlos Gil Ferreira, oncologista e CEO da Oncoclínicas; Helaine Capucho, diretora de Acesso ao Mercado da Interfarma; e Helano Freitas, oncologista clínico e líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo Cancer Center.

Carlos Gil Ferreira (à esq.), Helaine Capucho (telão) e Helano Freitas participam do painel “Terapias inovadoras que mudam vidas e ampliam o acesso”, mediado pela jornalista Thaís Manarini

 

Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Essa transformação começou a ganhar força há cerca de 25 anos, quando os avanços no conhecimento da biologia dos tumores abriram caminho para estratégias terapêuticas mais específicas. Terapias-alvo, imunoterapia, anticorpos específicos e outras abordagens ampliaram as possibilidades de tratamento e passaram a ser utilizadas em diferentes momentos da jornada do paciente.

“São várias plataformas que hoje não são excludentes. Na verdade, elas são aditivas. A gente vai utilizando à medida que o paciente vai percorrendo a jornada, e isso permitiu esse grande avanço que a gente vê hoje, com impacto em termos de controle da doença e de qualidade de vida dos pacientes”, afirmou o oncologista Carlos Gil.

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A inovação também está no diagnóstico. No câncer de pulmão, por exemplo, os avanços no conhecimento da biologia tumoral permitiram identificar diferentes subtipos de uma doença que antes era tratada de maneira mais uniforme.

“Os conhecimentos de biologia tumoral levaram à multiplicação dos tipos de câncer. O adenocarcinoma de pulmão foi transformado em múltiplas doenças, algumas inclusive raras”, explicou Helano Freitas, do A.C.Camargo Cancer Center. “Conhecer isso faz uma diferença enorme na seleção do tratamento. Mas a gente só conhece isso fazendo teste molecular do tumor”.

Inovação tem custo elevado e acesso é desigual

Se o conhecimento cada vez mais preciso dos tumores abriu caminho para tratamentos mais eficazes, também tornou mais evidente a distância entre o que a medicina já é capaz de oferecer e o que chega aos pacientes. As novas tecnologias têm custos elevados, e a diferença entre os tratamentos disponíveis nos sistemas público e privado aumentou justamente à medida que a oncologia avançou.

“Se eu volto 20, 25 anos, quando eu estava na minha formação em oncologia, o privado e o público eram muito parecidos, porque a gente realmente tinha muito poucas ferramentas. Mas esse ‘gap’ foi aumentando”, comparou Helano.

Helano Freitas é oncologista clínico e líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo Cancer Center

 

Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Mesmo na saúde suplementar há exames moleculares que não estão contemplados pelo rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Em muitos casos, os pacientes conseguem realizá-los por meio de programas oferecidos pela indústria farmacêutica, mas a logística pode prolongar o tempo até o resultado.

“Imagina que a pessoa está lá em Maceió e a amostra vem sendo testada aqui em São Paulo. Às vezes o resultado demora 45, 60 dias para voltar. Isso vai impactar o início do tratamento”, explicou o oncologista clínico do A.C.Camargo Cancer Center.

No sistema público, o intervalo entre a incorporação de uma tecnologia e sua disponibilidade efetiva também é uma barreira, de acordo com Helaine Capucho, diretora de Acesso ao Mercado da Interfarma.

“Mesmo quando o medicamento é incorporado, nós estamos levando 37 meses para que ele seja adquirido pelo sistema de saúde. A gente já fala de três ciclos orçamentários”, afirmou.

Para ela, enfrentar o problema exige políticas públicas capazes de acompanhar a transformação da oncologia e uma visão mais ampla sobre os benefícios do tratamento.

Quando a gente fala de gerar valor, nós não estamos falando só diretamente de preço de medicamento. Nós estamos falando do quanto isso pode transformar a vida da pessoa. Uma coisa muito importante que a gente precisa fazer é pensar na saúde como investimento.

Helaine Capucho, diretora de Acesso ao Mercado da Interfarma

Como precificar a inovação

O desafio de ampliar o acesso implica em rever a forma como os medicamentos são precificados e financiados. A questão é como conciliar o alto custo das novas terapias com a necessidade de garantir que seus benefícios cheguem a mais pacientes.

Helano defendeu que o modelo precisa considerar não apenas a novidade de um medicamento, mas a dimensão do benefício efetivamente entregue.

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“Quando a gente fala em precificação, a gente tende, no mercado de saúde, a precificar a inovação do ‘first in class’, ou seja, aquele que chegou primeiro, uma nova estratégia, mas a gente não precifica a magnitude do benefício entregue”.

O oncologista também chamou a atenção para medicamentos cujo preço não diminuiu mesmo depois da expansão significativa de seu uso.

“Houve massificação, mas, ao contrário de outros mercados, o preço não cai. O que está trazendo pressão de queda hoje são novos entrantes, drogas que fazem a mesma coisa e estão chegando dez anos depois com preços mais baratos. A gente precisa esperar cair a patente para ter drogas menos caras?”, questionou.

Para Carlos Gil, a resposta ao desafio não virá apenas de novos medicamentos ou de reduções pontuais de preços. O próprio modelo de assistência e financiamento precisa inovar.

A inovação das moléculas é fantástica, dos testes diagnósticos, sem questionar a contribuição da indústria farmacêutica para isso. Só que a inovação também tem que ser de processo: de financiamento, de incorporação, de compra de medicamento.

Carlos Gil Ferreira, oncologista e CEO da Oncoclínicas

Os resultados já alcançados mostram o potencial das novas terapias. Ao mesmo tempo, o aumento da sobrevida implica em construir formas sustentáveis de financiar exames, medicamentos e cuidados ao longo de toda a jornada. “A gente vai ter que achar um equilíbrio. E vai ter que ser mais rápido”.