Empresas pedem que Brasil acelere agenda de adaptação diante dos riscos do El Niño
Fonte: exame.com | Data: 13/09/2026 20:02:44
Empresas brasileiras consideram que o Brasil tem que acelerar o máximo possível sua agenda de adaptação às mudanças climáticas diante dos riscos previstos com a chegada no final de 2026 do fenômeno El Niño, que pode ser o mais intenso das últimas décadas.
“Viemos falando de uma agenda de adaptação e de emergência climática há muito tempo, porque não podemos ignorar os efeitos adversos das mudanças climáticas, mas o El Niño nos mostra que não estamos fazendo as coisas na velocidade necessária”, afirmou em entrevista à Agência EFE a presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Marina Grossi.
De acordo com ela, os graves efeitos que o El Niño pode ter nos próximos meses na economia brasileira, como redução de água nas usinas hidrelétricas e inflação nos alimentos, devido a uma seca prolongada, exigem medidas de adaptação que deveriam ter sido adotadas previamente.
O CEBDS, organização que reúne mais de 110 grandes empresas brasileiras e diz representar cerca de um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do país, admitiu em um recente comunicado que o setor privado está em alerta diante da possibilidade de o Brasil enfrentar entre 2026 e 2027 o El Niño mais intenso das últimas décadas.
O fenômeno, segundo a entidade que é considerada a principal porta-voz das empresas que lutam por um desenvolvimento sustentável no Brasil, pode causar uma prolongada e grave seca na Amazônia e no Nordeste, assim como chuvas excessivas no Sul.
De acordo com o CEBDS, um El Niño mais severo em um contexto de mudanças climáticas impactará significativamente os sistemas hídricos do Brasil, as cadeias produtivas e os ecossistemas estratégicos, e pode gerar enormes perdas econômicas ao afetar a disponibilidade de água, a produtividade agrícola, a geração de energia e a estabilidade social.
“A ameaça deixa claro que nos falta adaptação. Temos políticas de adaptação, mas não temos recursos para implementá-las. Quando se trata de mitigação (das mudanças climáticas), podemos reduzir as emissões a qualquer momento. Mas a adaptação tem que ser imediata para enfrentar o que está acontecendo, e o El Niño já está acontecendo”, disse Grossi.
Segundo a dirigente, essas medidas de adaptação são necessárias para, por exemplo, evitar a forte alta do preço dos alimentos que é esperada, e o consequente repique da inflação, quando o El Niño se manifestar com maior intensidade.
“Nada menos que 90% da nossa agricultura depende do regime de chuvas, e por isso precisamos adotar medidas para melhorar a gestão da água quando enfrentarmos algum evento climático externo”, disse.
De acordo com o CEBDS, os boletins mais recentes de monitoramento do El Niño de órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam que há mais de 90% de probabilidade de alcançar a classificação de “muito forte” e de que o fenômeno persista até o início de 2027.
A expectativa é que o fenômeno alcance seu pico entre outubro e dezembro, período que coincide precisamente com o início do plantio da próxima safra brasileira.
Segundo a entidade, nas duas últimas vezes em que foi classificado como “muito forte”, em 1997-1998 e em 2015-2016, o fenômeno teve um impacto significativo na economia, com secas prolongadas, redução da geração hidrelétrica e aumento dos incêndios.
“O episódio de 2026 preocupa as autoridades precisamente pela possibilidade de ter uma intensidade comparável”, segundo o CEBDS.
A crise climática foi um dos principais temas discutidos na quarta edição do Fórum Latino-Americano de Economia Verde (FLEV), organizado pela Agência EFE em São Paulo no dia 3 de setembro com a participação de autoridades, especialistas e representantes do setor empresarial, entre eles o CEBDS.
O evento contou com o patrocínio da ApexBrasil e do WWF-Brasil, além do apoio de AYA Earth Partners, Imaflora e Observatório do Clima. EFE