Quase cancelado, Festival de Brasília inicia 59ª edição com Julia Lemmertz e A Pele Morta
Fonte: brasil247.com | Data: 14/09/2026 11:31:26
Julia Lemmertz recebeu na sexta-feira (11), no Cine Brasília, o Troféu Candango pelo Conjunto da Obra durante o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Na mesma sessão, o público assistiu à estreia de A Pele Morta, último projeto idealizado pelo cineasta Geraldo Moraes.
A relação de Julia com o festival vem de longe. Aos 23 anos, ela ganhou o Candango de melhor atriz coadjuvante por A Cor do Seu Destino, de Jorge Durán. Quatro décadas depois, voltou ao Cine Brasília para receber o reconhecimento pelo conjunto da carreira. O longa, restaurado, também está na programação desta edição.
Ao agradecer o prêmio, a atriz dividiu o reconhecimento com quem esteve ao seu lado ao longo da trajetória. “A gente não faz nada sozinha nessa vida. Especialmente um trabalho artístico não se faz sozinho. Então, esse prêmio também é para todas essas pessoas que passaram pela minha vida e me ajudaram a fazer coisas incríveis, filmes, histórias e sonhos”, afirmou.
Julia também falou sobre o momento em que uma obra deixa de ser apenas de quem a criou e passa a pertencer ao público. “A gente sonha, chama um bando de amigos, pessoas que admira e de quem gosta, vai lá, realiza e entrega para o público. Alguém vai se identificar, outro não, mas aquilo vai formando uma consciência e um pensamento coletivos”, destacou.
No fim da homenagem, recorreu a A Tempestade, de William Shakespeare: “Somos todos feitos da mesma matéria de que os sonhos são feitos. E a nossa vida breve é circundada por um adormecer.” Depois, deixou um último recado ao público: “Não deixem de sonhar nunca”, encerrou.
Na sequência, foi exibido A Pele Morta, projeto que Geraldo Moraes não chegou a filmar. O cineasta morreu em 2017. Os filhos Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres assumiram a direção, Sol Moraes ficou responsável pela produção e Daniel Tavares assina o roteiro.
Falado em português, espanhol e guarani, o longa acompanha Saulo, jovem rapper guarani-kaiowá que enfrenta o luto pela morte do irmão. Ele começa a trabalhar com Justo, caminhoneiro uruguaio que percorre as estradas do Paraguai em busca de fretes. Em uma dessas viagens, os dois dão carona a Rosario, adolescente que procura a irmã.
Bruno contou que o projeto começou a tomar forma na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba, onde estudou e hoje é professor. Na apresentação do filme, agradeceu ao roteirista, às comunidades indígenas de Dourados, em Mato Grosso do Sul, e à equipe que conseguiu concluir a produção.
“Esse roteiro também é um sonho, um sonho coletivo. É uma grande emoção apresentar o filme no Festival de Brasília, ao lado de tantos talentos e pessoas maravilhosas”, comentou.
Para Denise, assumir um filme que seria dirigido pelo pai não significava tentar adivinhar o que Geraldo faria. Ela e o irmão precisaram encontrar o próprio caminho para contar a história. O filme reúne profissionais de diferentes nacionalidades e circula por vários países da América Latina.
“É um pertencimento que não está necessariamente ligado a um território fixo, mas que se constitui nos vínculos afetivos. O filme é esse lugar de estabelecer vínculos criativos e afetivos”, explicou.
Sol Moraes lembrou que A Pele Morta foi realizado com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual e chamou a conclusão do trabalho de “missão de ancestralidade”. Também destacou o protagonismo indígena.
“É um protagonismo indígena dentro de um contexto de resistência decolonial sobre o qual precisamos continuar refletindo”, pontuou.
Na plateia estavam dois amigos de Geraldo Moraes: o sociólogo, filósofo e escritor Eugênio Giovenardi e a jornalista e tradutora finlandesa Hilkka Mäki. Moradores de Brasília há mais de cinco décadas, os dois foram ao Cine Brasília especialmente para a estreia.
“O festival não poderia ter uma abertura melhor do que essa homenagem póstuma ao Geraldo Moraes, que foi um grande cineasta. Ele sempre foi muito dedicado à política e às relações não só de um país, mas da América Latina”, declarou.
Giovenardi também falou sobre o lugar do festival na vida cultural da capital. “Brasília também é um espaço de cultura. Trouxemos a nossa parte e ganhamos a parte que é de Brasília. O festival demonstra que a cidade merece esse espaço e tem gente preparada para realizá-lo”, avaliou.
Hilkka lembrou que a aproximação entre os países latino-americanos fazia parte do trabalho de Geraldo. Essa ideia permanece em A Pele Morta, na viagem dos personagens, nos três idiomas falados e nas diferentes nacionalidades reunidas na produção.
A sessão também voltou à origem do próprio Festival de Brasília. Antes de A Pele Morta, o público assistiu a Brasília: Planejamento Urbano, de Fernando Coni Campos, exibido na primeira edição do evento, em 1965, e incluído neste ano na programação dedicada à preservação do cinema brasileiro.
Eduardo Valente, diretor artístico do festival, leu uma mensagem de Luis Abramo, filho de Fernando Coni Campos e codiretor do documentário Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha. Abramo não pôde comparecer porque estava na última diária de outro filme, no qual trabalhava como diretor de fotografia.
Na mensagem, contou que o pai trabalhou como desenhista no escritório da Novacap com Lúcio Costa antes de se dedicar ao cinema. Brasília: Planejamento Urbano, seu primeiro trabalho cinematográfico, teve a colaboração de Maria Elisa Costa e do próprio urbanista.
“Para nós, da família, a exibição do curta é mais um passo na recuperação de sua cinematografia. Posteriormente, Fernando teve filmes premiados em festivais de Brasília e, com certeza, ficaria muito feliz com essa homenagem”, registrou na mensagem.
Valente defendeu a presença dessas obras na programação. “É muito importante essa junção que o festival faz entre a história e o presente do cinema brasileiro”, observou.
Poucas semanas antes, a realização desta edição esteve em dúvida. Em 10 de agosto, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa informou que não liberaria os R$ 3 milhões previstos para o evento. A decisão provocou reação de artistas, profissionais do audiovisual e entidades culturais. Depois, a governadora Celina Leão (PP) determinou o repasse.
O assunto voltou nas entrevistas feitas no Cine Brasília. Leandro Grass, candidato do PT ao Governo do Distrito Federal, ressaltou a importância do festival para a projeção de Brasília, a circulação de artistas e produtores e a economia da cultura.
“O nosso festival de cinema aqui de Brasília é tradicional e muito importante. Primeiro porque coloca Brasília na vitrine do cinema brasileiro e do cinema mundial”, afirmou.
Ele também criticou a instabilidade em torno da realização desta edição. “Jamais poderia ser atacado, fragilizado ou ameaçado por qualquer governo, como aconteceu recentemente. Chegaram a cancelar o festival, depois cancelaram o cancelamento”, acrescentou.
A secretária de Cultura do PT-DF, Ana Paula Cusinato, destacou a importância nacional do festival e o papel do cinema na preservação da memória. “A importância do Festival de Cinema de Brasília não é para o Distrito Federal apenas. Ele tem uma importância para a projeção do cinema nacional como um todo”, avaliou.
Para ela, o cinema também registra experiências e conflitos que fazem parte da vida do país. “A cultura garante a memória do povo. A gente acaba construindo a memória do povo brasileiro por meio da cultura, e o cinema é fundamental nisso”, ressaltou.
Jacy Afonso, candidato do PT a deputado distrital, chamou atenção para a situação do Cine Brasília e defendeu a criação de uma cinemateca na capital. “Tem aqui um cinema público, de rua, e que corre o risco de fechar. Então a gente está reforçando esse papel”, afirmou.
A proposta, segundo Jacy, é que a cinemateca leve o nome de Vladimir Carvalho, cineasta paraibano que viveu em Brasília e dirigiu O País de São Saruê. “A gente precisa fazer uma cinemateca com esse nome”, defendeu.
Na entrada da sala, integrantes da equipe acompanhavam quem precisava de apoio, procuravam lugares disponíveis e ajudavam na acomodação do público. O cuidado com a acessibilidade foi um ponto positivo da organização.
O 59º Festival de Brasília recebeu 1.928 inscrições e selecionou mais de 70 produções. A programação segue até 19 de setembro, com as mostras Competitiva Nacional e Brasília, sessões especiais, debates, oficinas, atividades de formação e encontros voltados ao mercado audiovisual.
As atividades também acontecem no Cine Cultura Liberty Mall, no Complexo Cultural de Planaltina, na Universidade Católica de Brasília, em Taguatinga, no Complexo Cultural de Samambaia e no Jovem de Expressão, em Ceilândia.
A entrega dos prêmios será realizada no dia 19, seguida da exibição de Verão da Lata, de Santiago Dellape.
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