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Caso Banco Master: BRB tem R$ 21,9 bilhões em ativos sob análise

Fonte: realnews.com.br | Data: 14/09/2026 16:43:15

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As operações realizadas entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master movimentaram dezenas de bilhões de reais entre 2024 e 2025 e deixaram um conjunto de ativos que ainda produz questionamentos sobre origem, qualidade, recuperação e eventual impacto financeiro para o banco controlado pelo Governo do Distrito Federal.

A análise de documentos públicos, manifestações oficiais e informações apresentadas ao Senado mostra que diferentes cifras divulgadas ao longo da investigação não representam necessariamente valores contraditórios. Elas se referem a etapas distintas das operações: dinheiro movimentado, carteiras adquiridas, substituições de ativos, patrimônio que permaneceu no BRB e provisões constituídas diante do risco de perdas.

Em audiência realizada na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, em junho, o presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, afirmou que aproximadamente R$ 30 bilhões foram transacionados entre o banco público e o Master. Desse montante, segundo ele, R$ 21,9 bilhões permaneceram vinculados a ativos recebidos pelo BRB, distribuídos em quatro grupos de investimentos.

O presidente informou ainda que cerca de R$ 12,1 bilhões desse conjunto estavam classificados como ativos irregulares ou de difícil recuperação. Após a análise da carteira herdada das operações com o Master, o BRB calculou a necessidade de constituir aproximadamente R$ 8,8 bilhões em provisões para possíveis perdas. Provisão contábil, porém, não significa necessariamente prejuízo definitivo: representa uma reserva constituída diante do risco de que determinados ativos não sejam recuperados integralmente.

PF aponta cerca de R$ 17 bilhões transferidos ao Master

Um relatório da Polícia Federal divulgado nesta segunda-feira acrescentou uma nova dimensão à apuração. Segundo a investigação, o BRB teria transferido aproximadamente R$ 17 bilhões ao Banco Master na aquisição de carteiras de crédito.

Desse conjunto, a PF aponta que aproximadamente R$ 12,2 bilhões estariam relacionados a Cédulas de Crédito Bancário, as chamadas CCBs, consideradas falsas pelos investigadores. Parte dessas operações teria origem na Tirreno, empresa que aparece no centro da apuração sobre a formação das carteiras posteriormente repassadas ao BRB.

Esse número não deve ser confundido com os R$ 21,9 bilhões mencionados pelo BRB. Enquanto a cifra apresentada pela investigação policial se refere a transferências realizadas em operações específicas de aquisição, os R$ 21,9 bilhões representam o conjunto de ativos que o banco informou ter recebido do Master.

É justamente a existência de diferentes bases de cálculo que torna necessária uma reconstrução detalhada de toda a relação financeira entre as duas instituições.

R$ 30,4 bilhões e mais R$ 10,8 bilhões

Em abril, outro conjunto de números provocou questionamentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Um ofício encaminhado ao BRB reproduziu informações segundo as quais o banco teria comprado R$ 30,4 bilhões em carteiras do Master desde julho de 2024. O documento mencionava ainda outros R$ 10,8 bilhões em substituições de ativos, operações nas quais uma carteira era devolvida e outro ativo entrava em seu lugar.

A soma matemática alcançaria R$ 41,2 bilhões. O BRB, entretanto, contestou essa interpretação.

Em resposta à CVM, o banco afirmou que agregar os valores e considerar as substituições como novas aquisições independentes não retrataria corretamente sua posição econômica. Segundo a instituição, as operações precisam ser analisadas de acordo com sua estrutura e dinâmica, já que uma substituição pode representar a troca de um ativo já contabilizado, e não necessariamente uma nova saída integral de recursos.

A explicação é relevante porque impede uma conclusão simplificada de que R$ 41,2 bilhões teriam sido efetivamente desembolsados pelo BRB.

Ao mesmo tempo, permanece uma questão de interesse público: qual é a conciliação completa entre tudo o que foi adquirido, substituído, devolvido, recuperado e permaneceu no patrimônio do banco?

Banco Central identificou inconsistências

O Banco Central confirmou oficialmente que sua área de Supervisão identificou inconsistências nas carteiras de crédito cedidas pelo Banco Master ao BRB.

Segundo a autarquia, as investigações realizadas internamente demonstraram a insubsistência de ativos integrantes das carteiras. O Banco Central informou ainda que comunicou os ilícitos identificados ao Ministério Público Federal e adotou medida prudencial para impedir novas operações que pudessem afetar a liquidez do BRB.

O BC também ressaltou que cabe à instituição compradora avaliar a qualidade dos créditos adquiridos e manter controles internos adequados para administrar os riscos envolvidos.

Posteriormente, em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A decisão foi fundamentada, entre outros fatores, em grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira do conglomerado e graves violações das normas que regulam o Sistema Financeiro Nacional.

Auditoria independente examinou operações

Após o avanço das investigações, o BRB contratou o escritório Machado Meyer Advogados, com suporte técnico da Kroll, para realizar uma investigação independente sobre as operações relacionadas ao Master.

O relatório foi concluído em abril e encaminhado a autoridades. Documentos públicos do próprio BRB mostram que o trabalho ultrapassou 200 páginas e examinou a cadeia decisória envolvendo a aquisição e a substituição das carteiras.

As conclusões integrais da auditoria, entretanto, não foram disponibilizadas ao público.

Em setembro, novos desdobramentos levaram o BRB a afastar cautelarmente funcionários e ex-diretores relacionados às operações investigadas. Os afastamentos têm caráter preventivo e não representam, por si só, declaração de culpa.

Tentativa de negociar ativos não avançou

Em abril, o BRB anunciou uma negociação com a Quadra Gestão de Recursos que previa uma estrutura financeira destinada a parte dos ativos oriundos das operações com o Master.

A tentativa, no entanto, não avançou.

Em fato relevante publicado em 17 de julho de 2026, o BRB informou que não estavam reunidas as condições necessárias para prosseguir com a operação nos moldes inicialmente previstos. Entre os motivos citados estavam a ausência de conclusão das diligências e mudanças relevantes no desenho da negociação.

A desistência aumentou a importância de saber qual parcela desses ativos permanece no banco e quais alternativas estão sendo adotadas para recuperar os recursos.

Os números medem coisas diferentes

A leitura conjunta dos documentos permite separar pelo menos cinco cifras relevantes no Caso Master:

Os aproximadamente R$ 30 bilhões mencionados pelo presidente do BRB representam o volume global transacionado entre as instituições.

Os R$ 21,9 bilhões correspondem ao conjunto de ativos oriundos do Master que, segundo o banco, permaneceram vinculados ao BRB após as operações.

Os R$ 17 bilhões aparecem no relatório da Polícia Federal como aproximadamente o volume transferido pelo BRB ao Master para aquisição de carteiras específicas.

Os cerca de R$ 12,1 bilhões a R$ 12,3 bilhões aparecem em diferentes apurações relacionados a ativos considerados irregulares, problemáticos ou com indícios de fraude, dependendo da metodologia utilizada em cada levantamento.

Já os R$ 8,8 bilhões correspondem ao valor que a atual administração do BRB informou ter provisionado diante das possíveis perdas relacionadas aos ativos recebidos.

Portanto, somar todas essas cifras produziria uma conclusão incorreta. Parte delas descreve os mesmos negócios sob perspectivas contábeis e investigativas distintas.

A pergunta que permanece

O ponto ainda não apresentado de forma simples ao público é a conciliação integral das operações.

Para compreender o impacto real do Caso Master sobre o BRB, é necessário identificar quanto dinheiro efetivamente saiu do banco público, quanto retornou, quanto foi apenas substituído por novos ativos, quanto já foi recuperado, qual é o valor atual das carteiras e quanto poderá se transformar em perda definitiva.

Essa diferença é fundamental.

Uma carteira contabilizada em bilhões de reais pode conservar valor econômico, sofrer deságio, ser parcialmente recuperada ou tornar-se prejuízo. Somente a identificação individual dos ativos e de seus fluxos financeiros permite calcular a dimensão final do impacto.

É nesse ponto que a investigação sobre o Banco Master deixa de ser apenas uma sucessão de cifras bilionárias e passa a envolver uma questão essencial de transparência: qual foi, afinal, o custo econômico das operações realizadas pelo BRB e quem tomou as decisões que permitiram sua execução?

Essa resposta ainda está sendo construída pelas investigações, pelas auditorias e pelos órgãos de controle.