Viajar a trabalho virou um mercado de R$ 205,6 bilhões no Brasil
Fonte: revistahotelnews.com.br | Data: 14/09/2026 17:05:59
Por Joyce Macieri
Durante muito tempo, falar em viagens corporativas significava falar de passagens aéreas, hotéis, deslocamentos e prestação de contas. Essa visão já não corresponde ao tamanho nem à complexidade que o setor adquiriu. Em 2026, o mercado brasileiro de viagens corporativas caminha para movimentar R$ 205,6 bilhões, crescimento de cerca de 5% em relação ao ano anterior, segundo projeção do Levantamento de Viagens Corporativas (LVC), realizado pela Associação Latino Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (ALAGEV) em parceria com a FecomercioSP. É um volume que ajuda a dimensionar uma atividade que está diretamente relacionada ao funcionamento das empresas, à geração de negócios e à circulação de profissionais pelo país.
Quando um executivo visita um cliente, uma equipe técnica se desloca para acompanhar uma operação, profissionais participam de uma feira ou uma companhia reúne seus colaboradores, existe uma cadeia de serviços mobilizada para tornar esse deslocamento possível. Aviação, hotelaria, transporte terrestre, tecnologia, meios de pagamento, alimentação, eventos, agências e uma série de fornecedores fazem parte dessa engrenagem. Mas o impacto das viagens corporativas não termina no consumo desses serviços. Elas existem, sobretudo, porque empresas precisam encontrar clientes, negociar, capacitar equipes, visitar unidades, participar de eventos, desenvolver mercados e manter suas operações em movimento.
É justamente por isso que observar as mudanças desse setor também ajuda a compreender algumas das transformações pelas quais passam as organizações. Durante a GBTA Convention 2026, realizada em agosto, em Chicago, ficou evidente que a discussão internacional sobre viagens corporativas se afastou definitivamente de uma agenda concentrada apenas em preço e logística. Inteligência artificial, segurança, sustentabilidade, integração de dados, gestão de riscos e liderança ocuparam parte relevante dos debates.
A inteligência artificial talvez seja o exemplo mais evidente. Se há pouco tempo aparecia como uma possibilidade para o futuro, agora já está presente no atendimento ao viajante, na análise de dados, na prevenção a fraudes, nos pagamentos e na personalização de serviços. A discussão começa a migrar da adoção da tecnologia para a forma como ela será incorporada às empresas, com atenção à governança, à segurança da informação e aos ganhos efetivos de eficiência.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão para reduzir a fragmentação das operações. Reservas, pagamentos, hospedagem, transporte e gestão de despesas ainda podem passar por diferentes sistemas, gerando retrabalho e perda de informações. A integração desses processos tende a ganhar espaço justamente por sua relação direta com produtividade, controle e custos.
A gestão de riscos também avançou na agenda das empresas. Conflitos geopolíticos, mudanças nas regras de imigração, eventos climáticos e questões de segurança exigem capacidade de localizar, informar e prestar suporte aos profissionais durante os deslocamentos. A experiência do viajante passa, portanto, não apenas por conveniência, mas pela capacidade da empresa de responder a situações que podem afetar seus colaboradores e suas operações.
Na sustentabilidade, o movimento é semelhante. Descarbonização, combustíveis sustentáveis para aviação e critérios ESG começam a ser analisados também sob a ótica da eficiência e da competitividade. A tendência é que esses indicadores sejam cada vez mais incorporados às decisões sobre os programas de viagens.
E, em meio ao avanço da automação, a liderança humana permanece no centro dessa transformação. Influência, julgamento, negociação, desenvolvimento de equipes e tomada de decisão ganham importância justamente porque a tecnologia assume uma parcela maior das tarefas operacionais. O desafio não será escolher entre pessoas e tecnologia, mas definir como ambas podem contribuir para melhores decisões.
Essa transformação também amplia o papel do gestor de viagens corporativas, que passa a dialogar com áreas como finanças, tecnologia, recursos humanos, segurança e sustentabilidade. Em um mercado que caminha para movimentar mais de R$ 200 bilhões no Brasil em 2026, decisões sobre deslocamentos estão cada vez mais relacionadas à gestão dos negócios.
Talvez seja essa a principal mudança em curso. O setor começa a deixar para trás a pergunta sobre quanto custa fazer uma viagem para discutir qual resultado ela gera, quais riscos envolve, como pode ser mais eficiente e de que maneira tecnologia e pessoas podem trabalhar juntas para melhorar essa equação.
Joyce Macieri é presidente da Associação Latino Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas (ALAGEV).