Baixar Notícia
WhatsApp
Email

A missão indústria e a escolha do futuro brasileiro

Fonte: brasil247.com | Data: 15/09/2026 06:28:22

🔗 Ler matéria original

O Brasil já demonstrou no agronegócio que sabe construir competitividade mundial. O desafio é aplicar à indústria o mesmo método, combinando estratégia, ciência, capital paciente e cobrança por resultados. A tarefa é mais árdua, porque a fábrica disputa mercados em que tecnologia, escala e cadeias globais mudam mais depressa do que no campo. Mas é dela que depende um desenvolvimento capaz de impulsionar a economia brasileira de forma mais dinâmica.

Nenhum país populoso alcançou renda elevada exportando produtos primários e importando manufaturas. Em dois séculos e meio, as nações que enriqueceram seguiram caminhos distintos, mas compartilharam um fundamento: industrializaram-se, acumularam tecnologia e aprenderam a produzir bens cada vez mais complexos. Inglaterra, Estados Unidos, Japão, Coreia, Taiwan e China não obedeceram passivamente às vantagens comparativas. Construíram novas vantagens.

A história desmente a ideia de que a industrialização tenha sido obra espontânea do mercado. Inglaterra e Estados Unidos recorreram a tarifas, infraestrutura e compras públicas; Alemanha e França combinaram bancos, ensino técnico e pesquisa; o Leste Asiático vinculou crédito e proteção a metas de exportação. A diferença entre política produtiva e privilégio não está no apoio estatal, mas nas contrapartidas e na cobrança.

O Brasil conhece essa história. Entre 1930 e 1980, sua economia cresceu perto de 7% ao ano. Um país exportador de café construiu siderurgia, petróleo, automóveis, bens de capital e química, além de semear Embraer, Embrapa e Proálcool. Ao final, era a oitava economia industrial do mundo.

O modelo acumulou problemas: proteção prolongada, baixa disciplina exportadora e vulnerabilidade externa. A estabilização dos anos 1990 era indispensável. O erro foi tratá-la como estratégia suficiente. Abertura abrupta, câmbio apreciado, juros altos e retração do crédito expuseram a indústria sem criar condições para sua modernização.

O resultado foi uma desindustrialização precoce. Diferentemente dos países ricos, que perderam participação industrial depois de completar seu desenvolvimento e formar serviços sofisticados, o Brasil encolheu sua manufatura ainda na renda média. A indústria de transformação, que representava 27% do PIB em 1986, caiu para atuais 14%. Entre 1981 e 2003, o crescimento da renda por habitante ficou próximo de zero. A década de 2010 foi outra década perdida com crescimento zero na renda dos brasileiros. A estabilidade permaneceu, mas o salto de produtividade não veio.

Enquanto a América Latina desmontava sua estratégia, a Ásia avançava. A Coreia cobrou desempenho exportador; Taiwan incubou a TSMC em um instituto público; a China combinou escala, tecnologia, bancos e metas nacionais para liderar veículos elétricos, baterias e painéis solares. Vietnã e Indonésia confirmam que a rota industrial permanece aberta.

Agora, a ironia tornou-se explícita. Estados Unidos e Europa voltaram a usar subsídios, compras governamentais, conteúdo local, tarifas e crédito para proteger semicondutores, energia limpa e cadeias estratégicas. Pandemia, guerras e rivalidade com a China mostraram que eficiência sem resiliência produz dependência.

O Brasil chega à disputa com uma vantagem e uma contradição. Reúne energia renovável, biomassa, minerais críticos, escala territorial e mercado interno, mas estreitou sua estrutura produtiva quando o mundo voltou a valorizar capacidade industrial, segurança econômica e baixa emissão de carbono.

O agronegócio mostra como superar essa contradição. Seu sucesso não resultou apenas de terra, água e sol. O Cerrado tornou-se potência agrícola porque a Embrapa desenvolveu correção de solos, sementes tropicais, fixação biológica de nitrogênio e novas técnicas de plantio. Ao conhecimento somaram-se crédito rural, Plano Safra, instrumentos privados incentivados, desoneração tributária, seguro e renegociação de dívidas nas crises. O Brasil organizou, durante meio século, uma missão nacional para o campo.

O método funcionou e tornou o país líder mundial em alimentos. A lição não é retirar instrumentos do campo, mas reconhecer que competitividade se constrói com ciência, financiamento e continuidade. Isso não elimina os limites da dependência de commodities. Soja, minério, petróleo e carnes representam perto de metade das exportações; a China absorve mais de um terço das vendas externas e sete em cada dez sacas de soja. Não há crise iminente, mas há um risco estrutural na concentração em poucos produtos e compradores.

A indústria permanece decisiva. Em 2025, respondeu por 23,4% do PIB e por 67,7% das exportações de bens e serviços, incluindo a agroindústria. Em 2024, sustentava 11,9 milhões de empregos formais, um em cada cinco vínculos com carteira. Campo e fábrica já formam um sistema; a política econômica ainda os trata como agendas separadas.

Uma missão indústria deve partir dessa convergência. O objetivo não é restaurar o parque fabril do século passado, mas construir as capacidades da nova revolução tecnológica: usar energia limpa para atrair siderurgia, alumínio, química, fertilizantes, data centers e processamento de minerais críticos; transformar soja, cana, biomassa e biodiversidade em alimentos processados, combustíveis sustentáveis, bioinsumos e química verde; conectar a agricultura tropical a máquinas, sensores, drones, inteligência artificial e software.

A oportunidade não é automática. Apenas 9% dos projetos de hidrogênio de baixa emissão anunciados no mundo até 2030 haviam alcançado decisão final de investimento, e o aço verde ainda encontra poucos compradores. O Brasil não deve confundir potencial com mercado garantido: precisa reduzir custos e selecionar projetos comercialmente sólidos.

A reconstrução já começou. Lançada em janeiro de 2024, a Nova Indústria Brasil recolocou a política industrial no centro do debate e a organizou em seis missões, com metas para 2026 e 2033: cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais; um complexo industrial da saúde capaz de produzir no país metade das necessidades nacionais em saúde; infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade sustentáveis; transformação digital da indústria; bioeconomia, descarbonização e transição energética; e tecnologias de interesse para a soberania nacional. A lógica é a mesma que fez do Cerrado uma potência: eleger problemas nacionais e alinhar em torno deles crédito, ciência, compras públicas e regulação.

O motor financeiro é o Plano Mais Produção, executado de forma coordenada por BNDES, Finep, Embrapii, Banco do Brasil, Caixa e bancos regionais. Entre 2023 e o primeiro trimestre de 2026, o plano mobilizou R$ 862 bilhões, dos quais R$ 709 bilhões já contratados, em 494 mil projetos. A composição importa tanto quanto o volume. As aprovações de BNDES e Finep para inovação somaram R$ 96,7 bilhões desde 2023, quase cinco vezes o registrado entre 2019 e 2022; o crédito do Fundo Clima à indústria saltou de R$ 1,9 bilhão para R$ 28,8 bilhões; o financiamento à exportação, de R$ 73,4 bilhões, mais que triplicou a soma dos seis anos anteriores. Uma linha dedicada a máquinas da indústria 4.0 financiou mais de 82 mil equipamentos, três quartos deles para micro, pequenas e médias empresas. Em 2024, pela primeira vez desde 2017, a indústria voltou a superar a agropecuária nas aprovações do BNDES.

Ao crédito somaram-se instrumentos fiscais e regulatórios: depreciação acelerada para renovar máquinas, o programa Mover para a cadeia automotiva, incentivos ao hidrogênio de baixo carbono, regimes especiais para a indústria química, a Lei do Bem, o Combustível do Futuro, o mercado regulado de carbono e a recomposição de tarifas para aço, químicos e veículos eletrificados. Há R$ 27,9 bilhões estimados para o programa nacional de SAF, R$ 17,1 bilhões aprovados para biocombustíveis desde 2023, com recorde em 2025, e dezenas de projetos de fertilizantes. São passos reais e corretos, mas insuficientes diante do tamanho da janela e da coordenação dos concorrentes.

A NIB precisa, portanto, ganhar densidade e continuidade. A reforma tributária reduz a cumulatividade que penalizava cadeias longas. BNDES, EMBRAPII, Institutos SENAI de Inovação, universidades e encomendas tecnológicas podem aproximar pesquisa e produção. Crédito de desenvolvimento, garantias e compras públicas devem oferecer capital paciente. Educação profissional, engenharia e ciência de dados são infraestrutura produtiva.

Escolher prioridades é indispensável. Um país com restrições fiscais não pode apoiar tudo. As missões devem reunir vantagens concretas, capacidades existentes e demanda mundial crescente. Tecnologias para agricultura tropical, aço e alumínio de baixo carbono, química verde, combustíveis sustentáveis, minerais críticos processados no país, complexo industrial da saúde e defesa atendem a esses critérios. Em cada frente, apoio público deve exigir metas, prazos, investimento, exportação, tecnologia e cláusulas de encerramento. Subsídio sem cobrança é renda; com contrapartida e prazo, pode ser investimento.

Nada disso prosperará sob uma macroeconomia hostil ao investimento. Responsabilidade fiscal é condição da missão indústria, não sua adversária. Mas equilíbrio fiscal não basta quando o juro real permanece entre os mais altos do mundo, o câmbio se aprecia nos ciclos de commodities e o horizonte muda a cada ano. Em 2025, o Brasil investiu 16,8% do PIB, enquanto China e Índia superam 30% e Chile, Peru e México operam entre 20% e 24%. Sem ampliar o investimento, o crescimento continuará limitado.

A escolha brasileira não é entre indústria e agronegócio, Estado e mercado ou estabilidade e desenvolvimento. É entre permanecer uma economia eficiente na produção primária, mas dependente de tecnologias e decisões externas, ou transformar suas vantagens naturais em capacidades produtivas. O país já provou, no campo e na industrialização, que sabe fazê-lo. Precisa levar a mesma ambição, disciplina e continuidade à fábrica.

No comércio internacional, as nações não enriquecem apenas pelo que exportam hoje, mas pelo que aprendem a produzir amanhã. A pauta exportadora retrata o passado; o futuro depende das competências que uma sociedade decide construir. Depois de quatro décadas discutindo a fotografia, o Brasil precisa finalmente escolher o filme.

❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com [email protected].

✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.

Marque o Brasil 247 como fonte preferida no Google:

Apoie o jornalismo independente do 247:

Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.