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Trump tentou obrigar Lula a forçar compra de aviões da Boeing

Fonte: brasil247.com | Data: 17/09/2026 05:54:57

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247 – O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tentou incluir a compra de aviões da Boeing por companhias aéreas brasileiras entre as condições de uma negociação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após a imposição do tarifaço de 50% contra produtos do Brasil, em 2025. A proposta norte-americana previa uma meta de aquisição de até 90 aeronaves dos Estados Unidos e foi rejeitada pelo chanceler Mauro Vieira. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo, que afirma ter obtido e confirmado a autenticidade de documentos internos sobre as tratativas.

Segundo o jornal, a proposta norte-americana ia muito além de questões tarifárias. Washington apresentou demandas comerciais e industriais e incluiu temas políticos internos brasileiros entre os pontos que pretendia discutir com Brasília.

Entre eles estavam compromissos relacionados à realização de “eleições livres” em 2026 e à liberdade de dissidentes políticos, além de medidas de abertura da economia brasileira.

Mauro Vieira barrou proposta

Segundo o Estado de S. Paulo, a reação do chanceler Mauro Vieira foi imediata. O ministro considerou os termos inaceitáveis e orientou seus assessores a não levarem essas condições para a mesa formal de negociação com os Estados Unidos.

O governo brasileiro buscou, dessa forma, impedir que questões relacionadas ao processo eleitoral e a outros assuntos internos fossem incorporadas a uma negociação comercial.

O Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) não comentaram oficialmente o conteúdo dos documentos revelados pelo jornal.

Até 90 aviões americanos

Uma das exigências de maior impacto econômico dizia respeito ao setor aéreo.

Os documentos apontam uma meta de compras de 90 aviões americanos, numa iniciativa que beneficiaria diretamente a indústria aeronáutica dos Estados Unidos e, particularmente, a Boeing.

Na prática, porém, decisões sobre aquisição de aeronaves são tomadas pelas companhias aéreas, e não diretamente pelo governo brasileiro. A proposta, portanto, implicaria que o governo Lula atuasse para estimular ou viabilizar essas compras.

O episódio ganha relevância também pela existência da Embraer, uma das maiores fabricantes mundiais de aeronaves e empresa estratégica para a indústria brasileira.

Em 2025, a Embraer esteve diretamente exposta à ofensiva tarifária de Trump. A companhia chegou a estimar que a sobretaxa de 50% poderia representar um impacto de R$ 20 bilhões até 2030 caso atingisse suas aeronaves. Posteriormente, artigos de aviação civil foram excluídos da tarifa adicional de 50%.

Gol e Latam já operam Boeing

A Boeing já possui presença relevante no mercado brasileiro.

A Gol opera uma frota formada predominantemente por aeronaves Boeing 737 e mantém encomendas firmes de dezenas de unidades do 737 MAX.

A Latam também utiliza aeronaves da fabricante norte-americana, especialmente em rotas internacionais, com modelos como Boeing 767, 777 e 787.

Ao mesmo tempo, a Embraer mantém posição estratégica no mercado nacional e internacional. A Azul, por exemplo, anunciou novas encomendas de jatos da fabricante brasileira.

A disputa comercial envolvendo aeronaves tem ainda uma particularidade: Estados Unidos e Brasil possuem cadeias produtivas fortemente interligadas. A própria Embraer destacou em 2025 que parcela significativa dos componentes utilizados em seus aviões é produzida nos Estados Unidos.

EUA também queriam abertura de setores industriais

A proposta norte-americana não se restringia aos aviões.

Segundo os documentos obtidos pelo Estadão, Washington pretendia discutir uma abertura mais ampla de setores industriais brasileiros, além de condições relacionadas à exploração de minerais críticos.

Esses minerais assumiram importância crescente na disputa econômica internacional por serem essenciais para indústrias como veículos elétricos, baterias, eletrônica, defesa, inteligência artificial e geração de energia.

O tema tornou-se particularmente sensível para o Brasil diante da estratégia do governo Lula de utilizar as reservas nacionais de minerais críticos e terras raras como instrumento de industrialização, agregação de valor e desenvolvimento tecnológico.

Condições políticas entraram na negociação

Outro aspecto revelado pelos documentos foi a tentativa norte-americana de inserir questões políticas na negociação econômica.

Entre os temas mencionados estavam um compromisso com “eleições livres” em 2026 e garantias relacionadas à liberdade de dissidentes políticos.

A expressão “eleições livres e justas” voltou a aparecer publicamente em manifestações de integrantes do governo norte-americano em 2026. Representantes dos Estados Unidos afirmaram que respeitariam a escolha feita pelos brasileiros por meio de eleições “livres e justas”, formulação que provocou questionamentos sobre seu significado no contexto eleitoral brasileiro.

Tarifaço abriu crise entre Brasília e Washington

A negociação teve origem na crise provocada pelo tarifaço anunciado por Trump contra o Brasil em 2025.

A sobretaxa de 50% levou o governo Lula a mobilizar diferentes ministérios e setores empresariais para tentar reduzir os impactos sobre as exportações brasileiras.

No caso específico da aviação, a pressão também partiu de empresas norte-americanas. Companhias aéreas dos Estados Unidos defenderam junto ao governo Trump que os aviões brasileiros fossem poupados das tarifas mais elevadas, uma vez que aeronaves da Embraer possuem papel importante na aviação regional norte-americana.

A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou posteriormente o tarifaço em fevereiro de 2026. Novas sobretaxas foram adotadas pelo governo norte-americano em julho, mantendo as divergências comerciais entre os dois países.

As negociações entre Brasília e Washington continuam e uma nova rodada de contatos é esperada no âmbito do G20.

Os documentos revelados pelo Estado de S. Paulo mostram, porém, que a crise comercial aberta em 2025 envolveu muito mais do que tarifas: o governo Trump procurou vincular interesses da indústria norte-americana, acesso a setores estratégicos brasileiros e questões políticas internas a uma negociação econômica com o governo Lula.

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