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Ulbra no novelo do Master: jornalista mostra como Canoas aparece em uma complexa rede de negócios e processos

Fonte: seguinte.inf.br | Data: 17/09/2026 14:34:34

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Uma série de documentos e processos judiciais revela conexões entre a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), sua mantenedora, a Associação Educacional Luterana do Brasil (Aelbra), o Banco Master e fundos de investimento ligados ao grupo. E parte importante dessa história passa por Canoas, onde está instalada a universidade e onde tramita a recuperação judicial da mantenedora.

A investigação foi publicada na terça-feira (15) pelo jornalista Orestes de Andrade Jr., no Poder RS, sob o título A Ulbra no novelo do Master. Em conversa com o Seguinte:, Orestes contou que passou cerca de um mês apurando as informações, cruzando documentos, processos judiciais, manifestações de órgãos públicos e versões apresentadas pelos envolvidos.

O resultado é uma reportagem extensa que reconstrói uma relação iniciada ainda na mudança de controle da Aelbra, em 2022, e que posteriormente passou pela recuperação judicial, pela tentativa de venda da unidade de Medicina, pela conversão de créditos em participação societária, pela indicação de executivos e por uma disputa relacionada à abertura de cursos de Medicina que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).

É importante destacar que as conexões apresentadas na reportagem não significam, por si só, que a Ulbra tenha sido controlada pelo Banco Master ou que as relações descritas sejam ilícitas. A própria Aelbra sustenta que a universidade nunca foi controlada pelo banco e afirma ter sido prejudicada pelas circunstâncias envolvendo o grupo.

A Aelbra entrou em recuperação judicial em maio de 2019, em processo que tramita na 4ª Vara Cível da Comarca de Canoas. Na época, a instituição estimava seu endividamento financeiro e trabalhista em aproximadamente R$ 8,2 bilhões, segundo os documentos citados na reportagem. A mudança de controle da mantenedora ocorreu em fevereiro de 2022, quando a Rede Evolua Educação, do empresário Carlos Melke, assumiu a Aelbra.

É justamente na operação de financiamento dessa aquisição que aparece uma das primeiras conexões com o Banco Master. Segundo a apuração de Orestes, existem duas versões para a origem dos recursos. A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) apontou, em manifestação no processo, financiamento por meio do fundo Vanguard, administrado pela Planner Trustee, distribuidora então ligada a Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Master.

Já a Aelbra informou, em nota divulgada em março de 2026, que Carlos Melke recebeu uma operação de crédito regular do Banco Master, garantida por imóveis, e que os recursos foram utilizados para pagar os antigos acionistas.

As versões são diferentes, mas têm um ponto em comum: o financiamento da troca de controle da mantenedora aparece relacionado ao Banco Master ou a agentes que, naquele período, estavam ligados à instituição.

A reportagem de Orestes mostra que a relação não terminou no financiamento da aquisição. Durante a recuperação judicial, o Banco Master passou a realizar novos aportes e demonstrou interesse na aquisição de uma unidade da Faculdade de Medicina da Ulbra.

O banco também teria adquirido créditos da instituição no mercado secundário, tornando-se um credor relevante. Nesse contexto aparece o FIDC Calêndula, fundo que, segundo a própria Aelbra, tinha ligação de origem com o Master. O plano de recuperação judicial previa o fundo como stalking horse, expressão utilizada para designar um interessado que estabelece previamente condições para uma eventual aquisição em leilão.

A operação não chegou a ser concretizada nos moldes inicialmente previstos. Em julho de 2023, a unidade de Medicina foi levada a leilão, com preço mínimo de R$ 700 milhões. O Calêndula foi o único inscrito e apresentou o único lance.

O episódio provocou questionamentos judiciais. Em 31 de julho daquele ano, o juiz Sandro Antônio da Silva, da 4ª Vara Cível de Canoas, suspendeu a proclamação do resultado. Conforme relatado por Orestes, a decisão considerou preocupante o fato de o fundo ser o único participante e, ao mesmo tempo, um dos maiores credores da recuperanda.

Posteriormente, a disputa chegou a instâncias superiores. Em setembro de 2023, a então presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministra Maria Thereza de Assis Moura, suspendeu a decisão que autorizava a alienação, atendendo a pedido da União. Entre os fundamentos estava a preocupação com o passivo fiscal da instituição e a ausência de autorização prévia do Ministério da Educação para a transferência da unidade de Medicina.

Com a venda da Medicina barrada, o plano de recuperação foi alterado. Em dezembro de 2023, os credores aprovaram uma nova proposta que retirava a venda da unidade de Medicina e previa a conversão dos créditos do Calêndula, superiores a R$ 1,5 bilhão, em capital da mantenedora.

Na prática, o fundo poderia se tornar o principal acionista da Aelbra.

A estrutura previa ainda uma cláusula antidiluição, que garantiria à controladora participação mínima de 30% das ações, segundo a reportagem. Para que a conversão ocorresse, porém, seria necessário um aporte estimado em aproximadamente R$ 1 bilhão. Esse dinheiro não chegou.

Em maio de 2025, o Calêndula notificou a Aelbra pedindo a conversão das debêntures em ações ordinárias. Um mês depois, porém, voltou atrás e solicitou a suspensão do pedido. As razões para o recuo não foram tornadas públicas, segundo a apuração de Orestes.

Outro ponto levantado pela reportagem envolve a estrutura administrativa da mantenedora. No fim de 2024, Marcello Stewers assumiu a vice-presidência e a diretoria administrativa e financeira da Aelbra. Segundo relatos reunidos por Orestes, Stewers teria chegado por indicação do Banco Master. Antes dele, Antônio Carlos Romanoski também teria ocupado a vice-presidência por indicação relacionada ao banco.

Essas informações aparecem, segundo a reportagem, em documentos judiciais e relatos de pessoas que acompanharam a transição.

Stewers deixou a universidade em maio de 2025.

A Aelbra, por sua vez, afirma que adotou medidas jurídicas para impedir que agentes ligados ao Master assumissem o controle societário da instituição e sustenta que a universidade foi prejudicada pelas circunstâncias envolvendo o banco.

A ligação com o STF e os cursos de Medicina

Outro capítulo da investigação leva a Brasília.

Em 2022, a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) ingressou no STF com a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) 81, que discutia a exigência de chamamento público para a abertura de novos cursos de Medicina. O STF julgou a ação em 2024 e considerou constitucional a exigência prevista no Programa Mais Médicos. A Corte também estabeleceu regras para situações envolvendo cursos já instalados e processos administrativos em andamento.

A apuração de Orestes relaciona esse processo à Ulbra a partir de documentos produzidos durante as investigações envolvendo Daniel Vorcaro.

Segundo reportagem de O Globo citada pelo Poder RS, o celular do banqueiro continha mensagens relacionadas à contratação da advogada Roberta Rangel e referências à ADC 81. A reportagem ressalta, contudo, que Rangel negou ter atuado de fato no processo em favor de Vorcaro e afirmou que apenas subscreveu procuração em nome da Associação Brasileira das Faculdades Independentes (Abrafi), a pedido do escritório onde trabalhava.

O ministro Dias Toffoli também negou ter mantido relação com Vorcaro ou recebido pagamentos dele.

São, portanto, informações que precisam ser lidas dentro do contexto dos documentos e das versões apresentadas pelos envolvidos.

A conexão que mais diretamente traz a história de volta a Canoas envolve o fundo Calêndula. Segundo os dados reunidos pelo Poder RS, o fundo tinha a Trustee DTVM como administradora e custodiante e a Blue Solutions Asset Management como gestora. Em setembro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Trustee DTVM e da Banvox DTVM, empresas controladas por Maurício Quadrado.

A situação acrescentou uma nova pergunta ao caso: o que acontecerá com a administração do Calêndula e com os créditos superiores a R$ 1,5 bilhão relacionados à recuperação judicial da Aelbra?

A reportagem ressalta que o patrimônio de um fundo não se confunde automaticamente com o patrimônio da distribuidora liquidada. Ainda assim, a mudança na administração pode provocar impactos operacionais sobre resgates, amortizações e cessões de cotas.

É mais um capítulo de uma história que, desde 2019, tem reflexos diretos em Canoas.

Por trás de fundos, bancos, processos e disputas societárias estão alunos, professores e funcionários. Segundo a Aelbra, a instituição reúne mais de 40 mil alunos e 3 mil funcionários. Em abril de 2026, o Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS) denunciou novo adiamento no pagamento de mais de R$ 193 milhões a cerca de 10 mil credores trabalhistas.

Também naquele período, o Ministério da Educação adotou medidas envolvendo cursos de Medicina da Ulbra, incluindo a suspensão do ingresso de novos alunos em Gravataí e a interrupção das atividades acadêmicas do curso em Porto Alegre, conforme relatado na investigação.

Para tentar gerar liquidez à recuperação judicial, a Aelbra apresentou à Justiça uma proposta de financiamento de até R$ 70 milhões com o Banco Genial, destinada à antecipação de pagamentos a trabalhadores. A negociação também envolveria a possibilidade de venda de imóveis, incluindo unidades em Canoas.

Um mapa de conexões

A reportagem de Orestes também acompanha um processo judicial iniciado a partir de uma cobrança de honorários feita pelo advogado Rodolfo Wild, ex-procurador-geral da Aelbra.

No decorrer da disputa, foi apresentado pedido de desconsideração da personalidade jurídica para alcançar outras empresas, fundos e pessoas que, segundo a tese apresentada no processo, teriam vínculos econômicos ou operacionais com a devedora. Entre os nomes citados aparecem Banco Master, Calêndula FIDC, Cartos, Vanguard e Trustee/Planner. Recursos apresentados posteriormente levaram o caso ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.

O ponto importante, ressalta a própria reportagem, é que a existência desses vínculos em processos judiciais não significa que a Justiça tenha reconhecido todos os envolvidos como integrantes de um único grupo econômico ou considerado ilícitas todas as relações apontadas.

Os documentos ajudam, entretanto, a montar um mapa das conexões que cercaram a recuperação judicial da Aelbra.

É justamente nesse ponto que a investigação de Orestes ganha relevância para Canoas.

Entre as perguntas levantadas pela reportagem estão: Quem administra atualmente o FIDC Calêndula após a liquidação da Trustee? O que acontecerá com as debêntures conversíveis da Aelbra? Os créditos superiores a R$ 1,5 bilhão permanecem no fundo? Eles foram cedidos a terceiros? Existe alguma relação desses créditos com a massa liquidanda do Banco Master? Por que o Calêndula pediu a conversão das debêntures em ações em maio de 2025 e recuou um mês depois?

São questões que permanecem em aberto.

A Aelbra sustenta que a Ulbra nunca foi controlada pelo Banco Master e afirma que a instituição foi vítima das circunstâncias envolvendo o banco. As demais posições reproduzidas na investigação são atribuídas às manifestações públicas e documentos dos envolvidos.

Ao fim, o que a apuração mostra é uma sequência de acontecimentos que começou antes da atual crise do Banco Master e que colocou a Ulbra, uma das instituições de ensino mais tradicionais de Canoas, no meio de uma complexa rede envolvendo recuperação judicial, fundos de investimento, créditos bilionários, executivos, cursos de Medicina e disputas em diferentes tribunais.

O trabalho de Orestes de Andrade Jr. é especialmente extenso porque não se limita a uma única operação. A reportagem acompanha a cronologia e cruza diferentes processos e documentos para tentar responder como essas conexões foram construídas, quem estava de cada lado e o que ainda precisa ser esclarecido.

O Seguinte: recomenda a leitura da reportagem original, na íntegra, publicada pelo Poder RS: Leia a reportagem original no Poder RS