Digimais, banco de Edir Macedo, comprou R$ 271 milhões em papéis podres com esquema idêntico ao do Banco Master
Fonte: brasil247.com | Data: 18/09/2026 06:39:33
247 – O Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo Grupo Record — pertencente ao bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus —, comprou R$ 271,4 milhões em papéis podres do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) por meio de um fundo de investimentos denominado Betel. A manobra contábil se assemelha às práticas aplicadas pelo Banco Master para inflar balanços de forma artificial, informa a Folha de São Paulo.
No esquema identificado no Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro, um fundo vinculado à instituição adquiria títulos do Besc — que não possuem valor real de mercado — como se valessem centenas de milhões de reais. Com os balanços inflados, a instituição garantia margem para realizar retiradas vultosas por meio de empréstimos, usando os fundos com ativos sem liquidez como garantia, além de melhorar artificialmente a percepção de solidez para continuar a captação de recursos no mercado via Certificados de Depósito Bancário (CDBs). A hipótese com a qual trabalham os investigadores é de que o ex-banqueiro, familiares e aliados utilizavam essa estrutura para desviar recursos.
Tanto no caso do Master quanto no do Digimais, os fundos envolvidos eram administrados pela Reag, gestora que sofreu liquidação decretada pelo Banco Central em janeiro deste ano por violações às normas do sistema financeiro.
Segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) encaminhados à CPI do Crime Organizado do Senado, o Digimais figurava, até janeiro deste ano, como o único cotista do Fundo Betel. A totalidade dos R$ 271,4 milhões depositados no fundo estava aplicada em cártulas do antigo banco catarinense. O valor equivale a 82% do patrimônio líquido do Digimais, avaliado em R$ 331 milhões conforme o último balanço divulgado.
Inconsistências nas informações e ausência nos balanços
O Fundo Betel não consta nos registros de balanço do Digimais nem aparece listado como componente do conglomerado prudencial da instituição financeira perante o Banco Central.
Em resposta à reportagem, o Digimais afirmou que o fundo deixou de integrar seu portfólio em outubro de 2025. Contudo, a declaração diverge das informações oficiais enviadas pela CVM ao Senado Federal. Questionado sobre a contradição e sobre os valores eventualmente recebidos pela venda das cotas, o banco manteve a alegação de que não possui o fundo em sua carteira desde a data informada, sem fornecer detalhes financeiros do suposto desinvestimento. A gestora Reag não se manifestou.
João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, apresentou proposta de delação premiada à Procuradoria-Geral da República (PGR). O acordo aguardava deliberação do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), até ter o andamento paralisado por desdobramentos internos na corte, onde a relatoria de inquéritos ligados ao caso foi redistribuída.
O nome do fundo, Betel, tem origem no hebraico e significa “casa de Deus”, fazendo referência à cidade bíblica descrita como fundada por Jacó.
Origem das cártulas e investigações da Polícia Federal
A Polícia Federal investiga o Digimais sob a suspeita de manipulação em relatórios financeiros para ocultar a real situação de caixa e simular solidez perante órgãos reguladores. Em balanço divulgado nesta quinta-feira (17), o banco de Edir Macedo reportou um prejuízo de R$ 581,4 milhões relativo ao primeiro semestre deste ano.
Conforme a PF, o Digimais recorria a múltiplos mecanismos para expandir o patrimônio aparente, uma vez que o limite de captação de recursos de uma instituição no mercado é proporcional ao volume de ativos declarados. Entre os crimes investigados estão gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios operacionais e concessão de empréstimos e financiamentos vedados por lei. A aquisição de precatórios — títulos de dívidas judiciais do Estado — também figura como foco da apuração policial.
A utilização de cártulas do Besc pelo Digimais é um elemento novo nas apurações sobre o banco. O Fundo Betel foi criado em 24 de abril de 2025, originalmente sob o nome de PNG International Bank. Em 26 de junho do mesmo ano, após emissão de cotas adquiridas integralmente pelo Digimais, a denominação mudou para Betel. Os registros de alocação nos papéis do Besc datam de julho de 2025 e se estendem até agosto deste ano.
As cártulas em posse do fundo foram adquiridas de outros dois veículos de investimento: o SDG II e o BB Claim. Ambos integram uma estrutura de fundos cujos beneficiários finais são os filhos de João Carlos Mansur. O fundo SDG II foi o mesmo utilizado pelo Banco Master para omitir R$ 5,4 bilhões em endividamentos de empresas correlatas.
As operações da Reag com papéis do Besc são alvo de apuração pela CVM desde 2022, cobrindo movimentações irregulares efetuadas por cinco fundos sob sua gestão no ano de 2020.
O Besc foi incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Na ocasião da compra, os acionistas receberam ações eletrônicas do Banco do Brasil em substituição às cártulas físicas, sem que houvesse a recolha obrigatória dos documentos antigos. Desde então, tais papéis sem validade passaram a ser negociados em esquemas fraudulentos como se ainda representassem participação acionária real.
O Tesouro Nacional esclareceu em documento sobre fraudes financeiros lançado em 2025 que todos os ex-acionistas do Besc tiveram a opção de conversão em papéis do Banco do Brasil e que as cártulas físicas restantes possuem exclusivamente valor histórico. No caso das investigações envolvendo o Banco Master, os montantes declarados nessas cártulas ultrapassavam R$ 850 milhões.
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