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São Mateus completa 482 anos com história marcada por cultura, economia e diversidade

Fonte: emdiaes.com.br | Data: 18/09/2026 17:01:00

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Município do litoral norte capixaba reúne patrimônio histórico, tradições culturais, atividades agropecuárias, exploração de petróleo e atrativos naturais ao longo de quase cinco séculos


São Mateus celebra nesta segunda-feira (21) seus 482 anos de história. A data também marca o dia do padroeiro do município e homenageia o evangelista São Mateus. As comemorações integram a programação da Expo Agro São Mateus 2026, realizada no Parque de Exposições, com feira de agronegócios, agricultura familiar, artesanato e economia criativa, além de cinco noites de shows com artistas nacionais.

Localizado no litoral norte do Espírito Santo, o município é uma das cidades mais antigas do Brasil e reúne diferentes períodos da formação histórica capixaba. Ao longo de quase cinco séculos, São Mateus passou por transformações econômicas, sociais e culturais que contribuíram para a construção da identidade da região norte do Estado.

Uma cidade com quase cinco séculos de história
A história de São Mateus começou por volta de 1544, quando os primeiros colonizadores portugueses chegaram à região. Antes da colonização, o território era habitado por povos indígenas, entre eles os aimorés, também conhecidos como Botocudos.

Originalmente, a povoação formada às margens do rio São Mateus era conhecida como Povoação do Cricaré. Em 1566, durante uma de suas peregrinações pela então Capitania do Espírito Santo, o padre José de Anchieta visitou o local e celebrou uma missa no dia 21 de setembro, data dedicada ao evangelista São Mateus.

Seguindo o costume da época de batizar localidades com o nome do santo celebrado no dia da visita, Anchieta rebatizou a povoação, que passou a se chamar São Mateus.

A documentação sobre os primeiros anos de ocupação é limitada. Há registros históricos que apontam a presença portuguesa na região durante a Batalha do Cricaré, ocorrida em janeiro de 1558, e em relatos de missões jesuíticas realizadas no século XVI.

Em 1764, a povoação foi elevada à categoria de vila pelo ouvidor da Capitania de Porto Seguro, Thomé Couceiro de Abreu. O objetivo era reforçar o controle territorial da região diante das descobertas de ouro em Minas Gerais e evitar a entrada de aventureiros pelo rio São Mateus.

Na época, o local recebeu o nome de Villa Nova do Rio de Sam Matheus. A vila possuía duas ruas principais próximas à Igreja Matriz, além de travessas que levavam até o Córrego da Bica.

A transformação em cidade ocorreu em 3 de abril de 1848, por decreto do presidente da então Província do Espírito Santo, Luiz Pedreira de Couto Ferraz. A criação da comarca municipal aconteceu posteriormente, em 23 de março de 1853.

O Porto e a formação econômica da cidade
Durante boa parte de sua história, o rio São Mateus e o antigo Porto tiveram papel central no desenvolvimento do município. Até o final da década de 1940, o transporte de passageiros e mercadorias para a região norte do Espírito Santo era feito principalmente por animais, cavalos e tropas de muares.

A cidade também contava com uma ferrovia e intenso movimento de pequenas embarcações no Porto. Mercadorias eram comercializadas na vila e em localidades que, naquele período, pertenciam ao território de São Mateus, como Nova Venécia, Boa Esperança, Jaguaré e Barra de São Francisco.

As condições de navegação do rio influenciavam diretamente a movimentação comercial. Em determinados trechos, a pouca profundidade e largura do curso d’água faziam com que navios só conseguissem entrar ou sair da cidade durante períodos de maré mais alta, especialmente nas luas cheias e novas.

A antiga Estrada de Ferro São Mateus funcionou entre 1923 e 1941, ligando o município a Nova Venécia, que ainda era um núcleo pertencente à cidade. Com 68 quilômetros de extensão, a ferrovia transportava passageiros e realizava o escoamento de madeira e café até o antigo porto fluvial.

Após sua desativação, parte do antigo leito ferroviário deu lugar à Rodovia Miguel Curry Carneiro, atualmente integrada à BR-381.

Uma história marcada pela escravidão e pela diversidade cultural
A formação de São Mateus também está diretamente relacionada à história da escravidão no Brasil. Durante o período colonial e ao longo do século XIX, o Porto de São Mateus foi uma das principais portas de entrada de africanos escravizados no país.

O comércio negreiro se intensificou especialmente após a proibição do tráfico transatlântico, em 1850, até a abolição da escravatura. Registros históricos apontam a existência de empresas que atuavam exclusivamente nesse ramo no porto municipal.

Entre 1863 e 1887, documentos do cartório de primeiro ofício registram a negociação de 606 africanos escravizados na cidade, sendo 326 homens e 269 mulheres. A região também é apontada como local de apreensão, em 1856, de um dos últimos navios negreiros clandestinos que circularam pela costa brasileira.

A presença histórica da população negra contribuiu para que São Mateus se tornasse o município capixaba com uma das maiores populações afrodescendentes do Estado. Comunidades quilombolas permanecem presentes até os dias atuais, preservando tradições, conhecimentos e formas de organização social transmitidas entre gerações.

No final do século XIX, a chegada de imigrantes italianos também passou a fazer parte da formação da população mateense. A primeira leva desembarcou no antigo Porto em 1887, a pedido do Barão dos Aymorés, para trabalhar em sua fazenda localizada às margens da Cachoeira do Cravo.

A mistura entre indígenas, portugueses, africanos e italianos contribuiu para a diversidade cultural e social que caracteriza o município.

Economia diversificada impulsiona o desenvolvimento
A economia de São Mateus é marcada pela diversidade de atividades. Agricultura, pecuária, fruticultura, comércio, serviços e exploração de petróleo fazem parte da estrutura produtiva do município.

O setor de serviços representa uma parcela significativa da economia local, enquanto a produção agropecuária mantém importância histórica e econômica para a cidade e para o interior do território mateense.

Entre as principais atividades agrícolas estão o cultivo de coco verde, café conilon, pimenta-do-reino, macadâmia, frutas e a produção de eucalipto. O município também possui criação de bovinos e outras atividades ligadas à pecuária.

São Mateus ocupa posição de destaque na produção de coco verde no Brasil. Dados históricos apresentados no material apontam o município como terceiro maior produtor nacional do fruto, com produção estimada em aproximadamente 75 milhões de unidades por ano em 2010.

A cidade também aparece como segundo maior produtor de macadâmia do país, cultura introduzida na região a partir da segunda metade da década de 1980. Parte significativa da produção é destinada à exportação.

Na produção de café conilon, São Mateus figura entre os principais municípios produtores do Espírito Santo. A pimenta-do-reino também possui relevância econômica, sendo o município apontado como maior produtor capixaba da cultura.

Petróleo transforma a economia local
Outro marco importante do desenvolvimento econômico de São Mateus é a exploração de petróleo e gás natural.

As primeiras descobertas de jazidas produtivas de petróleo e gás natural no Espírito Santo ocorreram no município em 1967. Durante as décadas seguintes, novos campos foram identificados e ampliados.

Na década de 2000, foi implantado na região de Campo Grande o Terminal Norte Capixaba, responsável pelo escoamento da produção petrolífera da região.

A atividade industrial também ganhou espaço com a instalação de empreendimentos como o Terminal Norte Capixaba e fábricas ligadas aos setores automotivo e industrial.

Além da produção agrícola e industrial, o comércio de São Mateus atende moradores de diferentes municípios do norte capixaba e do extremo sul da Bahia, consolidando a cidade como um importante centro regional de serviços e circulação econômica.

Cultura preserva tradições e movimenta a cidade
A cultura mateense é formada por manifestações ligadas ao teatro, à música, à religiosidade, à culinária e às festas populares.

São Mateus foi a primeira cidade do Espírito Santo a possuir um teatro. Ao longo da história, diversos grupos teatrais atuaram no município, incluindo o Grupo Mateense de Teatro Amador (GRUMATA), o Grupo Improvisando Arte Teatral (IMPROART), o Grupo de Teatro Popular e o Grupo de Teatro Ascensão.

Desde 1987, o Grupo de Teatro Ascensão realiza a encenação da Paixão de Cristo no bairro Ponte.

Na música, a Lira Mateense ocupa um lugar de destaque. Fundada em 21 de setembro de 1909, a orquestra também atua como banda de fanfarra e oferece educação musical gratuita para jovens e adultos.

O município também recebe tradicionalmente o Festival Nacional de Teatro (FENATE), realizado em julho, com apresentações de teatro de rua e oficinas de artes cênicas. As atividades acontecem em espaços como a Praça Mesquita Neto e o Largo do Chafariz, no Porto de São Mateus.

Entre os eventos tradicionais estão ainda as festas de São Mateus e São Benedito, o Guriri Road Fest, o Festival de Verão e as celebrações de fim de ano.

Patrimônio histórico e turismo
O patrimônio histórico é um dos principais elementos que caracterizam São Mateus. O município possui um dos conjuntos arquitetônicos coloniais mais expressivos do Espírito Santo, especialmente no Casario do Porto, tombado pelo Conselho Estadual de Cultura em 1976.

Na chamada Cidade Alta, estão construções patrimoniais dos séculos XVIII e XIX, que ajudam a preservar parte da história da ocupação urbana do município.

Entre os principais símbolos da cidade está a Igreja Velha. Apesar do nome, o local nunca chegou a funcionar como igreja. A construção começou nos primeiros anos do século XIX, por iniciativa dos jesuítas, mas a obra foi interrompida em 1853.

As ruínas foram construídas com pedras transportadas como lastro nos navios que atracavam no Porto de São Mateus, utilizando argamassa à base de cal e óleo de baleia. Atualmente, o local é considerado um dos principais cartões-postais do município.

O Casario do Porto também representa parte importante da história econômica mateense. Construídos a partir do final do século XVIII às margens do rio São Mateus, os casarões abrigavam atividades comerciais relacionadas ao transporte fluvial.

Com a abertura das primeiras estradas de rodagem, a partir da década de 1930, o transporte por navios entrou em declínio e o antigo Porto perdeu parte de sua importância econômica. Os casarões foram posteriormente tombados como patrimônio cultural.

Além do patrimônio arquitetônico, o município reúne praias, rios, cachoeiras, dunas e manguezais.

Guriri e os atrativos naturais
O litoral é outro elemento importante da identidade de São Mateus. O município possui aproximadamente 43 quilômetros de costa, com praias como Guriri, Barra Nova, Urussuquara, Abricó, Aldeia do Coco, Bosque, Brejo Velho, Caramujo, Gameleira, Campo Grande, Oitizeiro e Ranchinho.

Guriri é o principal balneário da cidade e um dos destinos turísticos mais conhecidos do norte capixaba. Localizada a cerca de 12 quilômetros do Centro, a praia também é reconhecida pela presença de áreas de desova de tartarugas marinhas.

Entre setembro e março ocorre o período reprodutivo das tartarugas. A região integra ações de conservação desenvolvidas pelo Projeto Tamar, cuja base de pesquisa em Guriri foi implantada em 1988.

O município também possui atrativos como Barra Nova, com manguezais, lagunas e arrecifes, e Urussuquara, localizada próxima à divisa com Linhares, com dunas, restinga e áreas de Mata Atlântica.

Entre as cachoeiras estão a Cachoeira do Inferno, a Cachoeira da Jararaca e a Cachoeira do Cravo, localizada próxima ao distrito de Nestor Gomes.

Gastronomia reúne influências de diferentes povos
A culinária de São Mateus também reflete a formação histórica da população. A proximidade com a Bahia contribuiu para a presença de pratos como vatapá, acarajé, mungunzá, caruru, quibebe e diferentes preparações com frutos do mar. A moqueca ocupa espaço de destaque na gastronomia local, com a presença tanto da versão capixaba quanto da baiana.

Entre as tradições culinárias do município está a moqueca de judeu, preparada com um pequeno peixe de água doce e tradicionalmente consumida por famílias antigas da cidade.

Produtos derivados da mandioca, como farinha, beiju e tapioca, também fazem parte da alimentação tradicional, especialmente entre famílias descendentes de quilombolas.

A influência italiana aparece no consumo de massas, polenta, nhoque, pizza e outros pratos. Algumas famílias mantêm ainda o preparo artesanal da taiadela, um tipo de macarrão caseiro.