Lounge de US$ 5 mil com traslado de BMW até a pista é o novo luxo dos aeroportos
Fonte: oglobo.globo.com | Data: 22/09/2026 04:11:30
O champanhe está gelado, o caviar é servido e você não precisa se preocupar com a bagagem. Sofás cor-de-rosa cobertos por estampas de palmeiras verdes são a cara de Miami. Espreguiçadeiras ao redor de um espelho d’água oferecem um refúgio tranquilo.
De uma suíte privativa com varanda, é possível pedir croquetas espanholas e panzanella cubana, ou solicitar uma massagem, manicure ou corte de cabelo. Quando chega a hora de embarcar, um motorista está à espera para levá-lo em uma BMW pelo pátio do aeroporto, diretamente até seu voo comercial no Aeroporto Internacional de Miami.
São as regalias de viajar em um voo particular, sem de fato embarcar em um jato privado.
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Viajar de avião nunca esteve tão lotado, com longas filas na segurança, terminais cheios e salas VIP superlotadas. Alguns passageiros estão tão cansados da situação que pagam mais de US$ 5.000 pelo acesso a um terminal privado para escapar dos transtornos do aeroporto.
Terminais privados de luxo estão sendo construídos em várias partes dos Estados Unidos, ampliando a desigualdade econômica dentro dos aeroportos. Uma empresa chamada PS opera os quatro terminais privados que existem atualmente no país.
Nos últimos meses, a companhia se expandiu para Miami e Dallas, acrescentando essas cidades às unidades que já mantinha em Los Angeles e Atlanta. Aeroportos que atendem São Francisco e Washington também planejam criar espaços semelhantes e sofisticados.
A maioria dos passageiros hesitaria em gastar milhares de dólares além do preço da passagem aérea. Os aeroportos afirmam que esses espaços atendem à demanda de uma clientela mais rica, que valoriza conveniência e privacidade, mas que não é rica o suficiente — ou não deseja — ter um jato particular.
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Além disso, os terminais privados proporcionam uma fonte adicional de receita aos operadores aeroportuários, por meio de pagamentos de aluguel de longo prazo e do compartilhamento da receita com as empresas independentes que administram esses espaços. A receita extra pode ajudar os aeroportos a financiar projetos de infraestrutura.
Quando Joi Gibbs, de 45 anos, entra no terminal da PS no Aeroporto Internacional Hartsfield-Jackson de Atlanta, os funcionários levam sua bagagem imediatamente e lhe entregam uma taça de Billecart-Salmon, seu champanhe favorito. Ela costuma pedir um hambúrguer ou uma salada e tomar alguns drinques antes de ser levada até o avião.
Gibbs paga uma taxa para viajar junto com sua amiga, que tem uma assinatura da PS, e diz que vale a pena o preço, principalmente pela verificação de segurança separada e por não precisar ficar na fila no portão de embarque.
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— Não há espera. Não preciso fazer absolutamente nada— disse Gibbs, que trabalha com operações de tecnologia na área de saúde e também é criadora de conteúdo. — Não tem ninguém quando entro nesse lounge privado.
Os clientes da PS, anteriormente conhecida como The Private Suite, podem evitar completamente o terminal principal do aeroporto e passar por uma inspeção de segurança separada na saída ou por uma área exclusiva da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA na chegada.
Os viajantes podem pagar pelo acesso ao “Salon”, um lounge compartilhado limitado a maiores de 21 anos, ou por uma sala totalmente privativa.
A associação com acesso total custa US$ 4.850 por ano. A cada visita, o cliente paga US$ 895 por pessoa pelo Salon ou US$ 3.650 para um grupo de até quatro pessoas em uma suíte privada. Quem não é associado pode pagar US$ 1.295 por pessoa para uma visita ao Salon, mas precisa entrar em uma lista de espera e só consegue acesso se houver espaço disponível naquele dia. Uma vez lá dentro, comida, bebidas e a maioria das comodidades estão incluídas, embora seja recomendável dar gorjeta.
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Ainda assim, o custo é muito inferior ao da NetJets, onde o acesso a jatos privados começa em US$ 215 mil. Portadores do cartão American Express Centurion, ou “Black Card”, podem obter uma assinatura gratuita da PS e pagar uma tarifa reduzida de US$ 825 por pessoa em cada visita ao Salon.
— Nós nos tornamos uma terceira categoria entre a aviação comercial e a aviação privada— disse Amina Belouizdad Porter, CEO da PS.
Os aeroportos americanos estão tentando recuperar o atraso. Viajantes de várias partes do mundo têm acesso a terminais privados há anos, incluindo um biergarten com vista para os Alpes Bávaros em Munique e experiências com vinho e charutos em Istambul.
O primeiro terminal privado de luxo da América Latina foi inaugurado no aeroporto de São Paulo há alguns anos e custou cerca de US$ 20 milhões para ser construído.
Mesmo com as tarifas aéreas mais altas e as pressões econômicas mantendo alguns viajantes em casa, aqueles que continuam viajando estão cada vez mais dispostos a gastar mais em experiências premium.
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Viajantes de lazer de alta renda representam 26% dos viajantes globais, mas respondem por 57% dos gastos registrados nos aeroportos, segundo uma pesquisa realizada em 2026 pela Airport Dimensions. Entre os 11 mil viajantes entrevistados, 62% disseram estar dispostos a pagar por experiências aeroportuárias aprimoradas, como acesso a lounges, serviços de passagem rápida pela segurança e varejo premium.
— A definição de luxo mudou muito, e hoje ela tem muito mais a ver com tempo, privacidade, previsibilidade e controle— disse Porter. — As pessoas estão dispostas a gastar mais dinheiro para recuperar seu tempo, e acho que isso foi muito acelerado pela pandemia.
Viajantes como Tyler Brown, engenheiro de sistemas industriais em Miami, prefeririam que os aeroportos se concentrassem em melhorar a experiência dos passageiros frequentes, e não apenas daqueles que podem pagar mais.
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— Não vejo o terminal fazendo outra coisa além de criar um novo modelo que custa mais do que o anterior, apenas para continuar excluindo cada vez mais pessoas— disse Brown, de 27 anos. — Eu entendo, mas viajar de avião definitivamente ficou muito pior nos últimos tempos.
Em breve, a PS não será a única empresa a operar um terminal privado nos Estados Unidos.
O Aeroporto Internacional Washington Dulles recebeu, em julho, autorização da autoridade aeroportuária para avançar com um projeto de terminal privado, concedendo à irlandesa daa International um contrato de 20 anos para desenvolver e operar a instalação.
O contrato está avaliado em US$ 125 milhões. Os planos finais ainda estão sendo elaborados, mas o contrato prevê que o espaço VIP ocupe uma área de aproximadamente 4 mil metros quadrados. A Metropolitan Washington Airport Authority, que administra Dulles, e a daa International não forneceram mais detalhes porque o projeto ainda está em seus estágios iniciais.
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O Aeroporto Internacional de São Francisco está procurando uma empresa para construir e operar um terminal desse tipo, com inauguração prevista para o fim de 2028.
— Está claro que existe uma demanda entre os viajantes por pagar por uma experiência diferenciada”, disse Doug Yakel, porta-voz do aeroporto de São Francisco. — Estamos vendo outros aeroportos adotarem conceitos de terminais remotos, então acreditamos que este é o momento certo para o nosso aeroporto.
O aeroporto da região da Baía de São Francisco pretende conceder o contrato a uma empresa no início de dezembro, disse ele. A empresa será responsável pela construção e manutenção do terminal, enquanto o aeroporto receberá uma porcentagem da receita e o aluguel do contrato de locação.
— Se você pensar na região da Baía de São Francisco, na inovação e na indústria que existem por aqui, certamente seria possível justificar esse tipo de serviço no SFO— disse Yakel.
Desde as crises provocadas pelos atentados de 11 de setembro e pela pandemia de Covid-19, os aeroportos vêm fazendo um esforço concentrado para reduzir sua dependência das tarifas relacionadas às companhias aéreas.
Globalmente, as receitas não aeronáuticas — provenientes de atividades como varejo, estacionamento, restaurantes e imóveis — representam quase 37% da receita dos aeroportos e compensam cerca de 48% dos custos totais, segundo um relatório de março do Airports Council International.
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Um terminal privado funciona em um tipo específico de mercado: aquele que possui consumidores ou viajantes a negócios com poder aquisitivo suficiente e onde o aeroporto dispõe de espaço físico para a instalação.
No Aeroporto Internacional de Miami, por exemplo, a PS transformou a antiga sede da Pan American Airways em seu terminal privado, completo com painéis dourados e pedras preservadas do edifício histórico.
No lounge de dois andares, localizado nos arredores do aeroporto, a cerca de 10 minutos de carro dos portões de embarque comerciais, o bar está abastecido. Carrinhos espalhados pelo salão oferecem uma seleção de brindes que muda constantemente, como adesivos para a região dos olhos da Peter Thomas Roth e hidratantes labiais da Summer Fridays.
As suítes têm lanches, coquetéis e banheiros privativos com chuveiros, enquanto o aroma das velas Santal 26, da Le Labo, e de orquídeas frescas permanece no ar. Para famílias, os concierges podem preparar as suítes com livros infantis e fraldas, ou com petiscos para animais de estimação.
Brittany Callaghan, uma dona de casa de 30 anos, é frequentadora assídua do terminal da PS em Los Angeles, onde já utilizou tanto o Salon quanto uma suíte privada com o marido.
— O LAX está atualmente em obras, e simplesmente achamos muito trabalhoso fazer o check-in, caminhar 30 minutos até o nosso portão e depois esperar — disse Callaghan. — É muito conveniente chegar cerca de uma ou duas horas antes e, depois, ficar simplesmente relaxando na sua área privativa.
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A PS informou que sua base global de clientes cresceu 21% no último ano, para mais de 89 mil pessoas, em suas unidades de Los Angeles, Atlanta, Dallas-Fort Worth e Miami. Cerca de um terço dos visitantes possui passaporte de fora dos Estados Unidos.
Os membros costumam ser viajantes a negócios ou famílias, embora a empresa tenha observado uma demanda crescente de passageiros que gastam mais ocasionalmente no serviço para uma viagem especial. A PS, que anteriormente tinha o respaldo de empresas de private equity, agora pertence ao Groupe ADP, um dos maiores operadores aeroportuários do mundo.
Antes de um voo mais curto realizado recentemente, Callaghan disse que cometeu o erro de não usar a PS. Ela acabou esperando mais de uma hora para entrar na sala VIP da American Express no terminal convencional.
— Hoje em dia todo mundo tem um Amex, o que é ótimo, mas agora nem conseguimos usar o lounge. E pagamos muito dinheiro por ano pelo Platinum — disse ela. — É melhor simplesmente pagar para ir a PS.