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Vorcaro usou negócio de energia no Ceará para beneficiar Ciro Nogueira, aponta PF

Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 23/09/2026 09:20:53

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Resumo

A empresa CNLF Empreendimentos, administrada por Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima (irmão do senador Ciro Nogueira), adquiriu 30% da Green Investimentos — holding que detinha 20% da geradora Trinity Energias Renováveis — por R$ 1 milhão, embora o valor proporcional do ativo fosse estimado em cerca de R$ 13 milhões.
A estrutura empresarial estava associada a três usinas fotovoltaicas situadas em Jaguaruana (CE), vinculadas à Trinity, que obtiveram R$ 17,2 milhões em financiamentos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) junto ao Banco do Nordeste (BNB).
Conforme a Polícia Federal, a operação foi articulada pelo banqueiro Daniel Vorcaro e seu operador financeiro Felipe Cançado Vorcaro para distribuir lucros (incluindo R$ 720 mil em dividendos e repasses mensais de R$ 300 mil) e ocultar os beneficiários reais sem alterar publicamente a composição acionária da Trinity.
As transações integram a Operação Compliance Zero (PET 15873 no Supremo Tribunal Federal, vinculada ao “Caso Banco Master”, com sigilo retirado em setembro de 2026), que apura crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Uma estrutura empresarial ligada a três usinas de energia solar em Jaguaruana, no interior do Ceará, foi incorporada à engenharia financeira que a Polícia Federal atribui ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo a investigação, uma participação na empresa que controlava os projetos foi vendida por R$ 1 milhão a uma companhia ligada à família do senador Ciro Nogueira (PP-PI), embora o valor proporcional do ativo fosse estimado em cerca de R$ 13 milhões.

A operação, apontam os investigadores, criou uma forma de transferir vantagem patrimonial sem que o destinatário aparecesse diretamente na estrutura da Trinity Energias Renováveis S.A., empresa que tinha participação nos projetos cearenses. Meses depois da negociação, a participação passou a gerar dividendos. Em julho de 2024, uma distribuição de lucros da Trinity resultou em aproximadamente R$ 720 mil correspondentes à fatia negociada.

A estrutura que está no centro da investigação havia recebido, poucos meses antes, R$ 17,2 milhões em financiamentos do Banco do Nordeste (BNB). Os recursos vieram do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) e foram destinados à construção e exploração de três usinas fotovoltaicas em Jaguaruana – distante 188 quilômetros de Fortaleza.

A PF sustenta que a estrutura societária foi utilizada para dar aparência regular aos repasses e ocultar os reais beneficiários da operação. A investigação integra a Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Como usinas de energia solar em Jaguaruana entraram no radar

A participação cearense na história começa em 30 de novembro de 2023, quando o Banco do Nordeste assinou três contratos de financiamento de longo prazo para as empresas responsáveis pelas usinas. Os contratos foram divididos entre três 

Sociedades de Propósito Específico

“Uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) é uma pessoa jurídica criada com o objetivo único e exclusivo de executar um projeto determinado ou realizar um empreendimento específico”


(SPEs): 

  • UFV TNT Jaguaruana I Ltda. recebeu R$ 5.712.389,24
  • UFV TNT Jaguaruana II Ltda. recebeu R$ 5.754.302,63
  • UFV TNT Jaguaruana III Ltda. recebeu R$ 5.754.302,63
  • Total de investimento: R$ 17.220.994,50 

Os projetos estão localizados na zona rural de Jaguaruana e são vinculados à Trinity Energias Renováveis. A própria empresa apresenta as usinas Jaguaruana I, II e III como projetos fotovoltaicos instalados no município cearense e que fazem parte de seu vasto portifólio de geradoras de energia limpa.

As empresas UFV TNT Jaguaruana I, II e III fazem parte do portifólio de geração de energia limpa, exibido em seu próprio site(Foto: Captura de tela do site da Trinity Energia)

Foto: Captura de tela do site da Trinity Energia

As empresas UFV TNT Jaguaruana I, II e III fazem parte do portifólio de geração de energia limpa, exibido em seu próprio site

O dinheiro do BNB não é apontado pela investigação, por si só, como irregular. Isso porque os contratos fazem parte de uma linha de financiamento do FNE destinada a investimentos produtivos no Nordeste.

O que chamou a atenção da PF, porém, foi o caminho percorrido posteriormente pela participação societária relacionada à Trinity.

Usinas no Ceará integravam engrenagem maior de Vorcaro

Os empreendimentos fotovoltaicos de Jaguaruana eram apenas uma peça no tabuleiro montado por Daniel Vorcaro. A gestão dos projetos ficava a cargo da Trinity, mas o controle acionário estava em uma estrutura em camadas: 20% da Trinity pertenciam à Green Investimentos S.A., que por sua vez era integralmente dominada pelo fundo Green Energia Fundo de Investimento em Participações (Green FIP).

Segundo a Polícia Federal, essa arquitetura permitiu camuflar o repasse de vantagens à CNLF Empreendimentos Imobiliários, ligada a Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Para evitar alertas regulatórios, em vez de uma transferência direta de parte da Trinity, a negociação envolveu 30% da Green Investimentos. Dessa maneira, a CNLF, que aparece como empresa compradora, passaria a ter indiretamente uma participação no negócio de geração de energia.

De Vorcaro a Ciro Nogueira: entenda a estrutura societária investigada pela Polícia Federal

Passe o mouse por cima ou clique nos nomes das empresas e personagens para saber mais detalhes 

É nesse ponto que entram as mensagens apreendidas pela Polícia Federal…

Em 24 de janeiro de 2024, Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel e apontado pela PF como seu operador financeiro, conversou com o ex-banqueiro sobre a transferência de uma participação acionária.

Felipe mencionou a possibilidade de transferir a participação para outro CNPJ e perguntou se a operação deveria ocorrer na

holding

“Uma holding é uma empresa criada com o objetivo principal de gerir, administrar e controlar bens ou participações acionárias em outras empresas. Em vez de fabricar produtos ou vender serviços no mercado, a sua função é centralizar a administração de um patrimônio.”


 da Trinity ou na estrutura da BRGD – outra empresa que pertence ao núcleo do banqueiro da família Vorcaro e investigada como sendo peça central do esquema.

A preocupação, segundo as mensagens, era encontrar uma estrutura que permitisse a distribuição de dividendos sem alterar diretamente a composição societária da Trinity.

Daniel respondeu: “Preciso de um lugar que de pra gerar dividendos.”

No relatório da Polícia Federal, constam prints de conversas entre Daniel Vorcaro e Felipe Cançado Vorcaro, primo apontado como operador financeiro do banqueiro. "Preciso de um lugar que de pra gerar dividendos", foi uma das mensagens de Daniel(Foto: Relatório da Polícia Federal)

Foto: Relatório da Polícia Federal

No relatório da Polícia Federal, constam prints de conversas entre Daniel Vorcaro e Felipe Cançado Vorcaro, primo apontado como operador financeiro do banqueiro. “Preciso de um lugar que de pra gerar dividendos”, foi uma das mensagens de Daniel

Na sequência, Felipe afirmou que seria melhor utilizar a holding da BRGD porque a Trinity estava sujeita a exigências de informação perante órgãos ligados ao setor elétrico.

A ideia era burlar a fiscalização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), que impõem prestação trimestral de informações relativas à totalidade dos sócios da empresa, chegando até a pessoa física.

Para a PF, portanto, as mensagens ajudam a demonstrar que a escolha da estrutura societária não era circunstancial. O objetivo era de fato criar uma forma de transferir a vantagem na surdina, sem expor diretamente a alteração societária.

A venda de R$ 13 milhões por R$ 1 milhão

O plano avançou até que, em 4 de abril de 2024, Felipe encaminhou a Daniel Vorcaro um documento intitulado “Contrato Compra Venda Ações – Green”. A operação previa a venda de 30% da Green Investimentos para a CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda (novamente: empresa do irmão de Ciro Nogueira).

Felipe alertou Daniel que o documento deveria permanecer inicialmente como 

instrumento particular

“Também conhecido popularmente como “contrato de gaveta”, o instrumento particular é usado especificamente para negociar um bem sem que essa venda seja registrada no órgão oficial”


. Sua preocupação era quanto às restrições previstas no acordo de acionistas da Trinity. Caso a negociação fosse registrada formalmente na geradora, outros acionistas poderiam ser notificados, acionar a preferência de compra e bloquear a entrada da nova empresa.

“Ou seja, o ajuste não poderia ser formalizado e regularmente registrado, como ordinariamente ocorre nas sociedades anônimas, devendo permanecer restrito à forma de ‘contrato de gaveta’, de modo a contornar as restrições impostas pelo Acordo de Acionistas”, escreveu a PF.

Em 8 de abril, Daniel Vorcaro disse “sim” e autorizou a assinatura e o preço estabelecido no contrato por R$ 1 milhão.

Felipe encaminhou a Daniel Vorcaro um documento que previa a venda de 30% da Green Investimentos para a CNLF por R$ 1 milhão por meio de um instrumento particular (Foto: Relatório da Polícia Federal)

Foto: Relatório da Polícia Federal

Felipe encaminhou a Daniel Vorcaro um documento que previa a venda de 30% da Green Investimentos para a CNLF por R$ 1 milhão por meio de um instrumento particular

A PF, porém, comparou esse valor com o patrimônio atribuído à Green Investimentos. Segundo os documentos analisados pelos investigadores, a totalidade das ações da empresa tinha valor patrimonial de aproximadamente R$ 43,5 milhões.

Assim, os tais 30% negociados corresponderiam a cerca de R$ 13 milhões. A diferença entre os dois valores chega a aproximadamente R$ 12 milhões. Na avaliação da investigação, o deságio não representaria simplesmente uma negociação vantajosa, mas seria parte da própria mecânica utilizada para transferir patrimônio.

Para entender o negócio que chamou atenção da PF

A operação ganhou uma consequência financeira concreta em 9 de julho de 2024, quando Felipe informou a Daniel que a Trinity havia realizado uma distribuição anual de lucros. Naquele momento, a empresa distribuiu R$ 12 milhões. A parcela correspondente aos 20% controlados pelo grupo de Vorcaro foi de R$ 2,4 milhões.

Como 30% dessa participação haviam sido negociados com a CNLF, a fatia proporcional representava aproximadamente R$ 720 mil. Isto é, apenas três meses depois da assinatura do contrato de R$ 1 milhão, a participação negociada produziu um retorno equivalente a cerca de 72% do valor pago pela CNLF.

Caminho do dinheiro: do lucro da Trinity ao recebimento pela CNLF

Para a PF, o episódio é importante porque demonstra a função econômica atribuída à participação, que era de transformar a vantagem patrimonial em uma receita empresarial aparentemente regular. Em resumo: a origem formal do dinheiro se tornaria dividendo da participação da CNLF em uma empresa com atividade econômica real no setor de energia.

Mas o esquema não parava por aí, já que a documentação apreendida pela PF aponta ainda para uma outra forma de pagamentos que iam além dessa distribuição de dividendos. A partir das mensagens trocadas, a investigação descobriu que havia repasses diretos de outra empresa da família Vorcaro diretamente para o núcleo familiar de Ciro Nogueira.

Em 25 de julho de 2024, Felipe perguntou a Daniel: “Oi, é para continuar pagando a parceria brgd / cnfl? 300k mes?“. Daniel respondeu: “Sim.”

Mensagens enviadas por Felipe a Daniel questionam sobre a continuidade de quantias enviadas pelo BRGD a CNLF mensalmente (Foto: Relatório da Polícia Federal)

Foto: Relatório da Polícia Federal

Mensagens enviadas por Felipe a Daniel questionam sobre a continuidade de quantias enviadas pelo BRGD a CNLF mensalmente

As mensagens posteriores mencionadas na investigação fazem também referência a atrasos nos pagamentos e à necessidade de novos recursos para manter os repasses ao “parceiro” CNLF. Para os investigadores, esses diálogos reforçam a hipótese de que a venda da participação societária fazia parte de uma relação financeira mais ampla.

BNB diz que financiamentos às usinas de Jaguaruana seguiram regras

A relação do caso com o Ceará passa pela estrutura societária dos empreendimentos. As três usinas solares de Jaguaruana receberam, ao todo, R$ 17,22 milhões em financiamentos do Banco do Nordeste, com recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE).

Os projetos estão ligados à Trinity Energias Renováveis, que, por sua vez, tinha participação relacionada à Green Investimentos. E foi justamente uma participação na Green Investimentos, e não diretamente nas usinas de Jaguaruana, que entrou na operação envolvendo a CNLF Empreendimentos Imobiliários.

A distinção é relevante. Os documentos analisados não apontam que os milhões financiados pelo BNB tenham sido destinados à CNLF. A investigação trata de uma operação posterior envolvendo a estrutura societária relacionada à Trinity e a transferência de participação na Green Investimentos, além de pagamentos mencionados nas conversas entre os envolvidos.

Procurado pelo O POVO+, o Banco do Nordeste afirmou que os financiamentos às três usinas seguiram as etapas de “análise, contratação, liberação e monitoramento previstas na legislação aplicável, nas normas dos órgãos reguladores e nos normativos internos do Banco”.

Segundo o BNB, “eventuais fatos posteriores relacionados às empresas financiadas ou a seus administradores não alteram a regularidade dos processos de crédito conduzidos pela instituição”.

“O Banco do Nordeste mantém mecanismos permanentes de acompanhamento e controle das operações financiadas, inclusive daquelas realizadas com recursos do FNE, observando rigorosamente os princípios da legalidade, da transparência, da integridade, da gestão prudencial de riscos e do interesse público”, concluiu.

Empresas e envolvidos não respondem; defesa de Vorcaro não se manifesta 

O POVO+ procurou a Trinity Energias Renováveis, a Green Investimentos, a Green FIP, a BRGD e a CNLF, além do senador Ciro Nogueira e de Felipe Vorcaro, para solicitar posicionamentos sobre as informações apresentadas nesta reportagem. Até a publicação, nenhum deles havia respondido.

A defesa de Daniel Vorcaro respondeu ao contato, mas informou que não se manifestaria sobre o conteúdo da reportagem.

Metodologia: como esta reportagem foi construída

As informações apresentadas nesta reportagem estão documentadas na Petição 15.873 (PET 15873), que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e reúne documentos produzidos ou utilizados no curso das investigações do chamado Caso Banco Master e da Operação Compliance Zero.

O sigilo da PET 15873 e de outros procedimentos relacionados à mesma investigação foi retirado em setembro de 2026, por determinação do presidente do STF, ministro Edson Fachin, permitindo o acesso público aos documentos.

A reportagem foi baseada na análise de sete documentos relacionados à PET 15873. O material reúne elementos da investigação conduzida pela Polícia Federal sobre operações que, segundo a investigação, envolveriam vantagem patrimonial e lavagem de dinheiro em benefício de empresa ligada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Para organizar e consultar o conteúdo dos documentos, O POVO+ utilizou o Gemini Notebook, anteriormente chamado NotebookLM, ferramenta de pesquisa e análise com inteligência artificial do Google.

A plataforma permite criar um ambiente de consulta baseado nos arquivos fornecidos pelo usuário. Neste trabalho, os documentos da investigação foram inseridos como fontes e as pesquisas realizadas tiveram como base esse conjunto fechado de materiais.

As informações identificadas nos documentos foram posteriormente verificadas pela reportagem por meio de consultas a fontes públicas. Entre as ferramentas utilizadas está a CruzAgrafo, empregada para conferir informações sobre sócios, vínculos societários e registros de empresas.

O uso do Gemini Notebook integra as ferramentas autorizadas nas rotinas do Grupo de Comunicação O POVO e segue a política interna de Uso de Inteligência Artificial institucional, que estabelece diretrizes para a utilização e avaliação de ferramentas de IA nos processos de jornalismo e produção de conteúdo.

A ferramenta foi utilizada como apoio à consulta e organização dos documentos, enquanto a seleção das informações, checagem, contextualização e redação foram realizadas pela reportagem.