A greve dos empregados da Caixa Econômica Federal chega ao 14º dia nesta quarta-feira, 23, com o impasse sobre a renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) levado ao Tribunal Superior do Trabalho (TST). O Ministério Público do Trabalho (MPT) recorreu ao TST para tentar destravar a negociação, e uma audiência de mediação pré-processual com a Contraf-CUT foi marcada para as 14h30 desta quarta. Na ponta, etapas do financiamento habitacional seguem mais lentas, corretores acumulam comissões não recebidas e equipes terceirizadas ficam com demandas represadas.

A paralisação começou em 10 de setembro. Na votação divulgada, 59,3% dos trabalhadores que participaram se manifestaram contra a renovação do ACT. A decisão de acionar o TST veio após a rejeição da terceira proposta do banco, votada em assembleias na segunda-feira, 21, conduzidas por sindicatos de bancários de todo o país. Na manhã de terça-feira, 22, a Contraf-CUT enviou ofício à Caixa informando o resultado das assembleias e pedindo a reabertura das negociações.

Audiência no TST é mediação, não dissídio

De acordo com a Contraf-CUT, o que está marcado para esta quarta-feira não é um dissídio coletivo, mas uma audiência de mediação pré-processual, instrumento voluntário e consensual para tentar resolver o conflito antes do ajuizamento de uma ação trabalhista formal. A informação sobre a convocação chegou à entidade na noite de terça-feira, quando a veracidade ainda estava sendo confirmada.

Saúde Caixa concentra a disputa

A renovação do ACT travou principalmente por causa do Saúde Caixa, plano de saúde dos funcionários do banco. Na proposta anterior, a alíquota descontada do salário-base passaria de 3,5% para 5,5%, e os valores pagos por dependentes também aumentariam. Depois das negociações, a Caixa apresentou um novo desenho para o custeio: a fatia do banco no plano subiria de 6,5% para 9% da folha, já a partir de 2027, sem reajuste das mensalidades neste ano, período em que a instituição assumiria o déficit.

Pelo texto mais recente, em 2027 o titular passaria a pagar 3,7% da remuneração-base, e os dependentes custariam de R$ 560 a R$ 900, conforme a faixa. Ainda assim, a maioria das bases que já divulgou o resultado das assembleias rejeitou a proposta, e a greve continua por tempo indeterminado.

Financiamento trava e comissões ficam presas

Com etapas do crédito imobiliário paradas ou mais lentas, clientes não conseguem fechar algumas operações, e quem vive da assinatura do contrato e do repasse do banco fica sem receber a comissão. O efeito recai direto sobre a economia de quem trabalha por comissão. Reportagem da Exame mostrou que o impacto é maior na venda de imóveis enquadrados no Minha Casa, Minha Vida, faixa em que a comissão costuma ser liberada só depois da assinatura do financiamento e do repasse dos recursos.

Alisson Souza, superintendente de vendas de uma incorporadora ouvido pela reportagem, explicou que a comissão não sai logo após a venda: é preciso concluir o trâmite do financiamento, esperar o repasse, obter a autorização da incorporadora, emitir a nota fiscal e aguardar o calendário de pagamentos da empresa. Segundo ele, poucos dias de paralisação podem virar um atraso de 30 a 40 dias no pagamento. O problema atinge corretores, gerentes, coordenadores e outros cargos remunerados por comissão; para os autônomos, o efeito é mais imediato, já que o pagamento costuma ser a principal fonte de renda.

O corretor Alex Souza relatou à reportagem ter mais de 20 comissões a receber, travadas porque clientes ainda não fecharam a assinatura do contrato com o banco. Há casos em que a venda já está aprovada, mas o pagamento só é liberado depois dessa assinatura.

Terceirizados com acesso bloqueado

A paralisação também trava serviços prestados por terceiros. Um profissional de tecnologia que atende o banco e pediu para não ser identificado disse à reportagem que parte das atividades exige presença física nas instalações da Caixa. Com a entrada bloqueada nos prédios, trocas de senha e manutenções urgentes ficam represadas — um dos relatos é o de uma colega com senha expirada que não consegue desbloquear o computador sem ir ao prédio.

O que segue disponível para o cliente

A Caixa afirma que segue contratando financiamento e que parte da documentação e das etapas pode ser resolvida à distância. O banco cita o fluxo Nato Digital, que permite enviar documentos e assinar com certificado, além do encaminhamento de documentação pelo WhatsApp e pelo aplicativo Habitação Caixa.

Durante a paralisação, seguem à disposição o App Caixa, que concentra serviços e transações bancárias, o Internet Banking, o WhatsApp Caixa, no número 0800 104 0104, o Caixa Tem, o aplicativo Cartões Caixa e as plataformas ligadas ao DPVAT e ao FGTS. Já o Alô Caixa atende capitais e regiões metropolitanas pelo 4004 0104; para as demais localidades, o número é 0800 104 0104.

A instituição afirmou que procura uma saída capaz de atender trabalhadores, banco, clientes e sociedade. Os relatos de corretores, no entanto, indicam que operações que dependem de etapas afetadas pela paralisação continuam levando mais tempo para serem concluídas.