Resíduos industriais de processo produtivo do setor florestal transformam-se em casas sustentáveis
Fonte: miriangasparin.com.br | Data: 23/09/2026 15:43:02
Técnicos do Sul do Brasil visitam fábrica, área de plantio e Tiny House da Águia Florestal no Paraná
A aproximação entre indústria, sociedade, academia e mercado ganhou espaço na programação da Lignum Latin America 2026. Como parte da programação do evento, realizado de 15 a 17 de setembro, em Curitiba, as visitas técnicas permitiram que os visitantes da feira conhecessem de perto diferentes etapas da cadeia produtiva da madeira.
Um dos roteiros levou cerca de 40 participantes à Águia Florestal, onde foi possível acompanhar desde o processo industrial até a área de plantio das florestas plantadas próprias, bem como as novas possibilidades de uso da madeira engenheirada na construção civil.
Recebido pelo CEO da empresa, Álvaro Scheffer, o grupo iniciou a visita pela fábrica da Águia Florestal, em Ponta Grossa (PR). O roteiro passou pela linha de montagem, permitindo observar as etapas de produção das casas sustentáveis, baseado em painéis de CLT (Cross-Laminated Timber), ou Madeira Laminada Cruzada.
Para Scheffer, a visita representou uma oportunidade de apresentar não apenas um produto, mas a transformação promovida pela empresa no uso da madeira. “Foi um momento importante em que trouxemos profissionais de diferentes áreas e estudantes de várias regiões do país para conhecer nosso sistema construtivo exclusivo, a troca de experiências e as transformações que estamos fazendo no uso da madeira engenheirada no país”, assinala.
Processo industrial reforça conceito de economia circular
O CLT é uma das principais tecnologias da madeira engenheirada utilizada estruturalmente na construção. Desenvolvido na Europa, especialmente na Áustria e na Alemanha a partir dos anos 1990, o sistema utiliza camadas de madeira posicionadas de forma cruzada e coladas para formar painéis estruturais.
Na Águia Florestal, a tecnologia ganhou uma configuração própria. Em vez de depender exclusivamente de peças longas, regulares e padronizadas, o processo desenvolvido pela empresa utiliza pedaços curtos e de medidas irregulares de madeira, que chegaram no fim do processo industrial. O material, que tradicionalmente poderia ter menor aproveitamento ou ser destinado à geração de energia em caldeiras, passa a integrar painéis estruturais de maior valor agregado.
A solução permite aproveitar diferentes dimensões da matéria-prima e está diretamente relacionada ao conceito de economia circular aplicado à indústria florestal. A madeira utilizada é rastreável e proveniente exclusivamente de florestas plantadas e manejadas pela própria Águia Florestal.
“Eu me interessei em conhecer a empresa e entender um pouco melhor do produto que é gerado a partir do Pinus e o que a floresta gera para o nosso dia a dia. Foi ótima a visita. Vi que a empresa está gerando muitos produtos sustentáveis e que os resíduos estão sendo utilizados para fazer essas casas”, relatou Elisiane Castro, bióloga da Embrapa.
Tiny House: construção pronta e mobilidade
Na ocasião, os visitantes conheceram a Tiny House de 24 m² desenvolvida pela Águia Florestal, que será apresentada oficialmente durante o Congresso Nacional Moveleiro, nos dias 4 e 5 de novembro, em Curitiba.
O projeto parte do conceito das Tiny Houses, surgido nos Estados Unidos, associado ao uso racional dos espaços, ao minimalismo e à mobilidade. Na proposta da Águia Florestal, a solução em madeira também amplia as possibilidades de aplicação, podendo atender diferentes modelos de moradia, projetos turísticos, hospedagens junto à natureza e situações emergenciais decorrentes de eventos meteorológicos.
Um dos diferenciais está no modelo de produção: a unidade deixa a fábrica completamente pronta. No destino, é necessário apenas realizar o içamento e posicionar a casa no local definido pelo cliente.
A estrutura pode ser transportada em caminhão para outro endereço, conta com infraestrutura elétrica preparada para conexão à rede e utiliza madeira de origem controlada. O modelo atual possui um pavimento e pode receber itens adicionais, como sacada.
Outro aspecto é a possibilidade de personalização. O custo final varia conforme os opcionais escolhidos, em uma lógica semelhante à configuração de um automóvel.
Mais do que apresentar uma nova tipologia de moradia, a Tiny House demonstrou aos visitantes como diferentes etapas da cadeia da madeira podem convergir em um produto industrializado, sendo que, a floresta plantada fornece a matéria-prima, a indústria transforma o material e a construção recebe uma solução pronta para instalação.
Da fábrica à floresta
Depois de conhecer o processo industrial, o roteiro levou os participantes para outras etapas da operação. Um dos grupos seguiu para Itaiacoca, onde foram apresentadas as áreas de plantio florestal, o viveiro e a obra da nova serraria.
A experiência permitiu observar uma característica importante do modelo de produção da empresa: a integração entre floresta plantada, processamento industrial e desenvolvimento de produtos. Em vez de apresentar a madeira apenas como matéria-prima, a visita mostrou diferentes etapas pelas quais o material passa até chegar à construção.
Para profissionais ligados à sustentabilidade, o contato direto com a operação também possibilitou observar como as práticas ambientais estão relacionadas ao processo produtivo.
“Foi muito importante vir aqui hoje, conhecer um pouco do processo da Águia Florestal, ver a inovação que vocês estão fazendo a cada dia, melhorando os produtos. Também conhecer a questão da sustentabilidade, tanto dentro da indústria quanto para fora, a sustentabilidade nas construções, que é um setor que cada vez mais tem evoluído nas questões ambientais”, afirmou Leticia Chiari, analista de Desenvolvimento de Negócios da FSC® Brasil.
Conservação ambiental como parte do roteiro
Paralelamente à visita à serraria, outro grupo conheceu o Buraco do Padre, atração turística localizada em Itaiacoca e mantida pela Águia Florestal em aspectos relacionados à preservação ambiental, controle de acesso e gestão da área.
A inclusão do local no roteiro ampliou a percepção sobre as diferentes frentes de atuação relacionadas à gestão florestal e ambiental. A visita também permitiu conhecer a estrutura de atendimento ao público e iniciativas desenvolvidas em parceria com outras empresas.
Para Leticia Chiari, essa etapa ajudou a conectar a discussão sobre sustentabilidade na indústria com a gestão de espaços naturais e o desenvolvimento de construções de menor impacto.
Arquitetura, madeira engenheirada e formação profissional
A presença de pesquisadores e professores também reforçou o papel das visitas técnicas como espaço de aproximação entre universidade e setor produtivo. Entre os participantes, estava a professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Maria Regina Sarro. “Meu interesse de vir para uma visita dessas foi conhecer o que está sendo feito em madeira no nosso Paraná. Conhecer o investimento e divulgar isso para os alunos. Afinal, os nossos futuros arquitetos são aqueles que vão projetar com a madeira que está sendo produzida aqui”, afirmou.
O contato direto com sistemas construtivos em madeira permite que estudantes e profissionais conheçam materiais e processos que podem fazer parte de projetos arquitetônicos e de engenharia. No caso do CLT, a industrialização também modifica a relação tradicional entre projeto, fabricação e montagem, aproximando a construção civil de processos utilizados pela indústria.
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