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Greve na Caixa afeta incorporadoras e já preocupa setor imobiliário

Fonte: valor.globo.com | Data: 24/09/2026 18:37:51

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Em relatório, o BTG Pactual apontou que a greve poderia afetar o resultado de incorporadoras no terceiro trimestre, principalmente para aquelas que atuam no Minha Casa, Minha Vida

Secovi-SP: na cidade de São Paulo, o MCMV já responde por  69% das unidades vendidas nos 12 meses até julho
Secovi-SP: na cidade de São Paulo, o MCMV já responde por 69% das unidades vendidas nos 12 meses até julho — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal, iniciada no dia 10, já preocupa o setor imobiliário por atrasos nos contratos de novos financiamentos e também no pagamento de recursos para as obras. Empresas e clientes do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) são os mais afetados.

Profissionais do setor destacam que alguma greve já é esperada todos os anos, mas que a paralisação atual tem sido particularmente pesada para o setor. A duração prolongada é um fator, mas a importância do banco dentro do sistema imobiliário é o ponto principal, afirma Cyro Naufel, diretor de relações com investidores da Lopes.

Isso porque o banco concentra praticamente todos os contratos de financiamento imobiliário do Minha Casa, Minha Vida, e o programa cresceu nos últimos anos. No primeiro semestre, as vendas por meio do programa equivaleram à metade do total vendido no país, de acordo com levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic). Na cidade de São Paulo, o MCMV já responde por 69% das unidades vendidas nos últimos 12 meses até julho, aponta pesquisa do Secovi-SP.

“Independentemente da greve durar mais, o impacto vai ser maior, porque o mercado cresceu muito”, afirma. “A demanda que a iniciativa privada exige dessa instituição bancária é muito maior”.

Um empresário do ramo, que pediu anonimato, afirma existir uma situação de “caos” entre pequenas e médias incorporadoras que atuam no MCMV, por atrasos no pagamento mensal que a Caixa realiza para as companhias. O banco libera os recursos para as obras de acordo com o progresso da construção e, para isso, faz medições mensais. Com a greve, essas medições estão prejudicadas, afirma, o que trava todo o processo.

“As empresas de capital aberto têm caixa para aguentar, mas quando você pega as pequenas e médias, a maioria está apertada, com esses juros altos”, diz.

José Pedro Donadon, CEO da ADN Construtora, que atua no interior de São Paulo, reforça essa percepção. “Os atrasos no recebimento das medições pressionam diretamente o fluxo de caixa da empresa”, afirma.

A incorporadora Open, braço de MCMV do grupo gaúcho Melnick, conseguiu fazer as medições no período, afirma a CEO, Renée Garófalo, mas teme que isso possa ser um problema futuro. “Não foi nosso caso aqui, mas tenho amigos do mercado que estão reclamando”, diz a executiva.

A maior preocupação da Open, hoje, é com o atraso no repasse de clientes para a Caixa. Garófalo estima que de 45 a 49 contratos de venda aguardam uma resolução por parte do banco. Há o receio de que, nesse intervalo, o cliente contraia alguma dívida que inviabilize a sua análise de crédito. “É um cliente muito sensível, que se endivida muito rápido”, afirma.

Donadon confirma que a esteira de repasses está paralisada, “o que deve afetar de forma importante os resultados deste mês”.

Em relatório publicado na terça-feira (22), analistas do BTG Pactual já previam que a greve do banco poderia afetar o resultado de incorporadoras no terceiro trimestre, principalmente para aquelas que atuam no MCMV. O principal ponto afetado é a geração de caixa, em razão do atraso nos repasses dos clientes.

“Admitimos que é difícil apreender a magnitude do impacto da greve no desempenho trimestral das incorporadoras, porque não está claro quanto tempo a situação ainda vai durar”, ponderaram. O eventual fim da greve e uma retomada das operações deve jogar parte dessa geração de caixa para o quarto trimestre.

Naufel afirma haver uma preocupação com o represamento dos contratos, uma vez que os pedidos continuam se avolumando: as primeiras etapas são feitas por correspondentes bancários e canais digitais, que seguem em operação. Em operação regular, o banco vinha fechando mais de 3 mil contratos de financiamento imobiliário ao dia.

Para além do Minha Casa, Minha Vida

Incorporadoras que não atuam no MCMV também podem ser afetadas, porque a Caixa é o maior banco de outras modalidades do crédito imobiliário. Neste ano, até julho, o banco respondeu por 44% das contratações de crédito imobiliário com recursos da poupança para a compra de imóvel, e por 59% das operações com recursos de poupança para financiar a construção de empreendimentos.

Garófalo acrescenta outro ponto: o uso do FGTS para a compra da casa própria depende de liberação da Caixa, o que também atrapalha financiamentos de outros bancos.

Corretores também são afetados. Naufel explica que o pagamento da taxa de corretagem é realizado, pela incorporadora, após o repasse do financiamento do cliente para a Caixa. Sem essa etapa, o profissional que fez a intermediação da venda não recebe a sua parte. A Caixa foi procurada pelo Valor, mas não retornou até a publicação da reportagem.

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) vai julgar o pedido de dissídio coletivo proposto pela banco, após a instituição acionar a Justiça nesta quinta-feira (24).

“A Caixa é genuinamente o banco que entende de habitação”, afirma Garófalo. “Nos demais bancos, é como se fosse um braço, mas na Caixa o principal produto é a habitação, e não só a habitação social”.

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