Sidney Magal fala sobre 60 anos de carreira e show em Brasília
Fonte: correiobraziliense.com.br | Data: 26/09/2026 05:29:28
Aos 76 anos e com seis décadas de carreira, Sidney Magal mantém uma rotina de shows que atravessa gerações. Hoje, o cantor chega a Brasília para apresentar o “Baile do Magal”, no Auditório Master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães.
O espetáculo reúne sucessos que marcaram a trajetória do artista e outras músicas que fazem parte de suas referências, em uma proposta que transforma a apresentação em um grande baile. A relação com a música começou ainda antes da fama, quando Magal cantava em boates, bares e churrascarias no Rio de Janeiro. Em 1972, passou a se apresentar na Europa, onde ampliou o repertório e cantava em italiano, francês, inglês, espanhol e português.
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A experiência ajudou a formar a versatilidade que hoje aparece nos shows, ao lado de canções como Sandra Rosa Madalena, Meu sangue ferve por você e Me chama que eu vou. Em entrevista ao Correio, o cantor falou sobre a permanência dos sucessos, a relação com fãs de diferentes idades e as transformações pelas quais passou ao longo de 60 anos de carreira.
Magal relembrou uma apresentação histórica em Brasília, na década de 1970, quando, segundo ele, mais de 100 mil pessoas acompanharam o show em Taguatinga. Para o artista, o contato com o público continua sendo o principal motivo para permanecer nos palcos.
O “Baile do Magal” celebra seus 60 anos de carreira. O que você quer mostrar sobre o Magal de hoje que talvez o público não enxergue quando pensa nos seus grandes sucessos?
São 60 anos de carreira, não é? Já rodei esse país fazendo vários shows. Antes, os shows nem tinham título, era só Sidney Magal. Depois, começou uma coisa de dar título aos shows. Já foi “Baila Comigo”, “Baile do Magal”, agora também “Me Chama Que Eu Vou”. Para lugares que eu repito, levo “Me Chama Que Eu Vou”, que, na verdade, modificam pouco as músicas, porque o público não admite, de jeito nenhum, que eu mexa no repertório original. Então, tenho 10, 12 músicas que são as mesmas que faço sempre.
O que faço de diferente é aproveitar a minha experiência em ter sido cantor da noite, ter cantado em churrascaria, em barzinho no começo da minha carreira. A minha carreira começou praticamente na Europa, em 1972, e lá eu cantava música italiana, música americana, música francesa, samba. Eu fazia um repertório variadíssimo, e isso me deu a condição de poder cantar de quase tudo, coisa que eu nunca fiz nos meus shows, porque não era comercialmente viável.
O “Baile do Magal” convida o público a dançar junto. De onde veio essa ideia de transformar o show em um baile?
Eu sou de uma era em que a gente fazia muito show pro público parado, não é? O público ia para te ver cantar, para te aplaudir e ficava ali. De um tempo para cá, nós viramos quase que animadores de festa, no bom sentido, porque todo mundo, se não fizer a galera pular, vibrar, cantar e curtir, o show é morno. Muita gente faz com que a plateia interaja o tempo todo, porque é isso que dá uma popularidade para o artista. Então, resolvi chamar todo mundo para o Baile do Magal, vamos dançar. Não sou o único que faz isso, não. Eu, simplesmente, usei agora títulos de músicas minhas para as pessoas saberem que sou eu que estou fazendo.
Quem viu você nos palcos nos anos 1980 vai encontrar o quê no show de hoje? O que mudou e o que continua com a mesma essência?
O que mudou muito foi o visual do Magal. São 60 anos, não é? A energia continua, graças a Deus, a mesma. Agora, coloco bailarinos, que não tinham, a não ser na época da lambada. Antes, eu não levava bailarino nenhum para o palco, porque eu mesmo dançava. Hoje, não posso estar dançando com aquela facilidade que dançava nos anos 1970. Então, coloco bailarinos que possam dar um colorido muito especial. Tenho três casais de bailarinos que dançam comigo, às vezes, dois, às vezes, um, dependendo do show.
O público vai notar: “Ah, Magal, já não dança tanto, não rebola tanto.” Lógico, meu amor, o que é que você quer? Pede para o teu papai e tua mamãe fazer a mesma coisa em casa, você vai ver como é que é. Fora isso, a energia, a vibração, eu tenho visto em todos os shows que eu faço. Em agosto, eu fiz 10 shows, e, agora, em setembro, eu fiz sete shows. Já tenho agenda vendida para fevereiro do ano que vem, graças a Deus. Então, é sinal de que o público quer que o show seja assim.
‘Sandra Rosa Madalena’ atravessou gerações. Quando você percebeu que a música havia virado parte da cultura popular?
A gente não percebe. Meu sangue ferve por você tem a mesma função de Sandra Rosa. Eu, por exemplo, tenho visto coisas incríveis. Na Copa do Mundo agora, lá nos Estados Unidos, fosse no metrô, fosse nas ruas, as pessoas cantavam Meu sangue ferve por você e Sandra Rosa Madalena como se fossem músicas que fizessem parte daquele momento. Isso não tem explicação. Só me dá muito orgulho, muita alegria de saber que é tão variado o meu público: homens, mulheres, gays, todo tipo de ser humano realmente adora o trabalho que faço.
Nos anos 1970, tinha lugares em universidades de São Paulo em que o os jornalistas iam lá perguntar o que achavam de “Sidney Magal” e as pessoas consideravam muito ridículo: “com aquelas roupas, com aquele cabelo, aquela coisa de cigano dele é muito ridículo”. Isso enquanto eu tinha um público enorme também.
E hoje em dia, aquele público já não me acha tão ridículo. Me acha divertido, me acha colorido, me acha até avançado demais para aquela época. Então, você vê como as coisas mudam e dependem só da cabeça do público. Eu não ouso dizer o porquê eu conquistei tanta gente, só posso dizer que é muita gente, graças a Deus.
‘Se te agarro com outro, te mato’ foi lançada em 1977 e hoje não faz mais parte do seu repertório. O que mudou, para você, na forma de olhar essa música?
Esse tipo de coisa nunca me incomodou muito. Por exemplo, o fato de dizer que a música era cafona, que era muito brega, que era muito popular. Isso sempre fez parte do meu trabalho. Com a mudança da sociedade, fizeram uma crítica a uma música minha que é daquela época, uma época em que a realidade era outra, e fizeram um comentário na internet muito desagradável.
Colocaram uma pessoa morta, depois de ter sido assassinada, com uma fitinha no pé, escrito “Obrigado, Magal, pelo Se te agarro com outro, te mato”. Olha que nível chegou à cabeça das pessoas. Era uma força de expressão, e virou uma coisa criminosa. E, aí, eu digo: não, então, a partir de hoje eu não canto, e o público continua pedindo para eu cantar. Isso é que é o mais louco de tudo. O pessoal diz: “Canta, canta”. Eu digo: não canto, me nego a cantar, porque hoje vão levar a coisa para um lado que não é, e que nunca foi, e que nunca existiu.
Você já atravessou mudanças enormes na música brasileira e períodos em que chegou a acreditar que sua carreira tinha acabado. O que aquela fase ensinou sobre recomeçar?
Na minha cabeça, nunca parei de gostar de fazer o que faço, e de gostar de me apresentar, me exibir, vestir minhas roupas extravagantes, nem tanto como naquela época. Tudo isso sempre fez parte da minha personalidade. Quando estava na Europa, sem ser conhecido de ninguém como Sidney Magal, me vesti exatamente como Sidney Magal se vestiu aqui nos anos 1970. Gosto de ser muito honesto no que faço.
Nada disso foi pensado: “Olha, você vai se vestir assim, você vai dizer que é cigano…”. Foram coisas que a imprensa foi aproveitando e foi criando por causa da Sandra Rosa. Por causa da Sandra Rosa Madalena, que foi feito um Fantástico nos anos 1970, maravilhoso, no acampamento cigano e passei a ser chamado de cigano. E, por causa disso, passei a ser muito chamado de cafona e de brega por causa da minha forma diferente de me apresentar.
Depois de tantos anos na estrada, quais foram as maiores dificuldades dessa vida de shows e o que ainda te motiva a subir ao palco?
Pode parecer piegas e muito comum, mas é a verdade de qualquer artista. O aplauso me motiva. O dia que eu chegar no palco, fizer uma apresentação morna, e o público for embora aos poucos, começar com 5 mil e acabar com mil, ou acabar com 200 pessoas, eu vou continuar muito feliz, mas vou sentir que alguma coisa não vai bem.
Então, o aplauso é o termômetro disso. Imagina o que é a minha logística para chegar nos lugares. O saco que é, né? Aeroporto, avião, avião que adia a passagem para o dia seguinte, que faz você ter que brigar. Tudo isso faz parte da nossa vida. Isso não tenho mais a menor paciência. Andar de ônibus, andar de carro, andar de avião, isso já morreu para mim há muito tempo. Mas todo mundo me pergunta: “E por que você continua?”.
Eu digo assim: vou lá ver o que vai acontecer. E quando vejo o que acontece é mágico, porque o aplauso me dá uma revitalização e uma saúde que não sei se tenho mais, mas que é o público que me transmite. Digo que é energia. O público me passa uma energia muito boa, que acho que é a que eu devo passar para eles também. Então é isso que me mantém ainda, porque fisicamente já cansei há muito tempo.
